domingo, 17 de maio de 2015

Ofensas Matinais


Querido diário:

Acordei, para um domingo, extemporaneamente, às 7h00min00seg. Levantei pouco depois. Tomei meu café, comecei a ler o jornal e... Pimba! Ofensa.

Eu mesmo suspeitava ter lido a sentença no "18 de Brumário", com se depreende clicando aqui. Tá por aqui para quem não quiser ir para lá:

[Um pinta cujo nome está lá na postagem fez] considerações sobre as instituições que emperram o desenrolar da História (nota bene o h e o H). Também vivo pensando no significado desta, com H. Nasce como tragédia e se repete como comédia, quando o faz. Era Marx, "18 de Brumário"?

Claro que eu não garantiria ser o "18 de Brumário de Luis Bonaparte", pois "minha memória é fogo", como antecipou o MPB4, sabe-se lá em que long-play daqueles tempos. E daí? Será que seria outra obra de Marx? Talvez a "Crítica do Programa de Gota"?

Era mesmo o "18 de Brumário", que tem o seguinte parágrafo inicial:

Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Caussidière por Danton, Luís Blanc por Robespierre, a Montanha de 1845-1851 pela Montanha de 1793-1795, o sobrinho pelo tio. E a mesma caricatura ocorre nas circunstâncias que acompanham a segunda edição do Dezoito Brumário! Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada. Assim, Lutero adotou a máscara do apóstolo Paulo, a Revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente como a república romana e como o império romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer nada melhor do que parodiar ora 1789, ora a tradição revolucionária de 1793-1795. De maneira idêntica, o principiante que aprende um novo idioma, traduz sempre as palavras deste idioma para sua língua natal; mas só quando puder manejá-lo sem apelar para o passado e esquecer sua própria língua no emprego da nova, terá assimilado o espírito desta última e poderá produzir livremente nela.[Grifo meu, claro]

Em compensação, no caderno PrOA do jornal Zero Hora de hoje tem um artigo, talvez o primeiro ou o segundo de Roberto Romano, professor de filosofia da Unicamp, substituto de Renato Janine, professor de filosofia da USP, que transitou para o Ministério da Educação, na condição de ministro. E parece que ainda não foi demitido nem demitiu-se. É meu candidato a presidente da república! (Qual partido, santa democracia?).

Roberto Romano diz já no comecinho:

O leitor se enfada ao ler e ouvir, como ladainha, o dito marxista repetido até a náusea na mídia nacional? Falo do chavão: na primeira vez um evento é tragédia, depois, comédia. O enunciado não é de Marx O dito encontra-se nas hegelianas Lições sobre a Filosofia da História", onde se analisa a crise política do Imp´rio Romano. [...] 

E segue

Assim, diz Hegel, 'Napoleão caiu duas vezes e os Bourbons foram expulsos duas vezes. A repetição realiza e confirma o que, no início, parecia contingente' Hegel não fala em tragédia ou comédia, mas recorda Shakespeare e sua peça sobre César. E ironiza a tolice conservadora posterior à Revolução Francesa. Marx também bebeu das águas hegelianas, nas Lições sobre a Estética. Ali sim, Hegel fala da tragédia divina e, depois, da sátira.

Pensei: devo ser mesmo um pedante por não saber destas coisas sobre Hegel e suas lições, que nunca li e juro até chegar aos pés juntos que jamais lerei, a não ser que me deem uma daquelas bolsas de estudo da Petrobrás, hehehe. Mas segui, altaneiro:

As frases de Marx, repetidas pelos pedantes de hoje, surgem no 18 Brumário de Luis Bonapaarte, livro ignorado pelos preguiçosos universitários ou jornalistas. [...]

"E agora", voltei a pensar, "sou mesmo um pedante?" Diferentemente de mim, é sabido que Marx leu mesmo Hegel, e quem não o leria se até seu desafeto Arthur Schopenhauer o fez? Aqueles tempos eram diferentes. Se não li Hegel, é certo que Hegel vingou-se e não leu meu blog! Ainda contrafeito com estas declarações, pensei que Roberto Romano, se é que não fraudei o que ele escreveu, disse:

.a. o enunciado não é de Marx

.b. o enunciado é de Marx (ou melhor, Hegel não se refere nem a tragédia nem a comédia.

Ok, o artigo é bão, como diriam lá seus alunos de São José do Rio Preto. E termina clamando por tolerância no momento conturbado, hegeliana e marxianamente, que vive o Brasil de 2015. Mas estas ofensas cedinho da manhã é que não se justificam: afinal, Hegel não falou em tragédia e comédia e nem eu falei que ele falou peremptoriamente, digo, quero dizer, citei com uma interrogação. Uma vez que nunca lerei Hegel, fico mesmo é com o 18 de Brumário. E achando que quem bancou o pedante, se é que o fui, agora chegou a vez do articulista.

E que me inquieta? Logo eu que acho que a arte do possível dirá que viveremos estes impasses institucionais brasileiros ainda por mais muito tempo (digamos, pelo menos 20 anos). Já fui classificado como neo-clássico de esquerda, o que me levou a criar a escola de pensamento econômico designada como neo-heterodoxia. Lembrou Flávio Comim que foi o professor lá naquele velho curso de Introdução à Economia que falou em "marginal" e "mais-valia". Falei mesmo!

DdAB
P.S. tudo a não ser que haja mesmo uma campanha para colocar na presidência da república os filósofos das universidades estaduais paulistas. E seu séquito, reservando-me uma boca de dirigente da petrobrás.

Imagem: aqui.

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