terça-feira, 19 de maio de 2015

O Mercado e o Terrorismo


Querido diário:

No outro dia, na verdade, meio ano atrás, [...] e eu conversávamos despretensiosamente, quando nos vimos filosofando pretensiosamente sobre o conceito da pretensa de curva de demanda. Então divagamos sobre certos fenômenos para os quais o conceito não se aplica: por exemplo, não podemos falar em demanda por lixo. Ou, se podemos, não podemos falar em demanda por marido que bate em mulher. Ou, se podemos, não podemos falar em demanda por atentados terroristas. Ou podemos?

Vivo citando por estas paragens a sapientíssima frase de Marx: no capitalismo, tudo vira mercadoria, até a honra. A questão, portanto, se coloca como até que ponto poderemos considerar que atentados terroristas viraram mercadoria, com estabelecido mercado e suas curvas bem-comportadas de oferta e procura. Parece óbvio que sim, que há terrorismo para usar as armas compradas com escorchantes lucros e estonteantes despudores da parte de governos, lideranças e rastaqueras de todos os países do mundo. Todos os que podem dar-se ao luxo, claro. Ou melhor, o crime de compra de armas é um bem inferior, isto é quanto mais rico o país, menos presente é este tipo de contravenção. Por seu turno, a venda de armas é um bem normal, que grandes países é que as vendem, inclusive países tidos como avançados e pacíficos, exemplo Suécia (que anda vendendo ao Brasil aviões de guerra). E o Brasil, de renda média, também vende equipamentos bélicos a outros ainda mais pobres.

E o terrorismo é um bem inferior? Também parece que sim, ou seja, tem algo a ver com a demanda. E sua oferta? Não tem dúvida: quem seria um sueco (já não falo daquele norueguês abilolado...) a dedicar-se ao terrorismo? E por falar em oferta e demanda, será que a curva de demanda por "serviços terroristas", isto é, maldades contra a população civil ou o patrimônio da sociedade (vestido de obras públicas, amenidades ambientais, essas coisas)?

Então já respondi as perguntas retóricas? Em certa medida, respondi. Mas esperemos mais considerações lá mais para o final da postagem. O fato é que, no outro dia, olhei os Outlines (ver nota 1 lá depois de minha assinatura) de Engels e reencontrei a frase que adoro (agora estou citando meu exemplar dos Manuscritos de 1844, página 190 chegando na 191. Como sabemos, estamos frente ao Umrisse zu einer Kritik der Nationalökonomie do então jovem Engels:

Competition has penetrated all the relationhships of our life and completed the reciprocal bondage in which men now hold themselves. Competition is the great mainspring which again and again jerks into activity our aging and withering social order, or rather disorder; but with each new exertion it also saps a part of this order's waning strenght. Competition governs the numerical advance of mankind; it likewise governs its moral advance. Anyone who has any knowledge of the statistics of crime must have been stuck by the peculiar regularity with which crime advances year by year, and with which certain causes produce certain crimes. The extension of the factory system is followed everywhere by an increase in crime. The number of arrests, of criminal cases - indeed, the number of murders, burglaries, petty thefts, etc., for a large town or for a district - can be predicted year by year with unfailing precision, as has been done often enought in England. This regularity proves that crime, too, is governed by competition; that society creates a demand for crime which is met by a corresponding supply; that the gap created by the arrest, trnsportation or execution of a certain number is at once filled by others, just as every gap in population is at once filled by new arrivals; in other words, that crime presses on the means of punishment just as the people press on the means of employment. How just it is to punish criminals under these circumstances, quite apart from any other considerations, I leave to the judgement of my readers. Here I am merely concerned in demonstrating the extension of competition into the moral sphere, and in showing to what deep degradaton private property has brought man.

Oferta e demanda? Conpetição (concorrência)? Mercado de crimes? Preço, elasticidades? Terrorismo é crime? Se é, temos um mercado garantido por Frederick Engels, como ele está assinado no frontispício do texto que acabo de citar.

Mas que diabos de curva de demanda é esta, que ninguém deseja e mesmo assim encontra-se lutando contra uma curva de oferta, esta mais claramente identificada (social e econometricamente)? Eu tento agora argumentar que se trata de uma curva de demanda é "imaginada", no sentido de abstração, incerteza e risco e da velha literatura de micro. Neste contexto, penso em algo análogo à função de utilidade indireta. Como sabemos, convencionalmente

curva de demanda:
q = f(p) : a quantidade procurada de uma mercadoria depende de seu preço

função utilidade:
u = u(q) : a utilidade do indivíduo depende da quantidade de mercadorias que consome

mas fizemos a utilidade indireta como
v = v[(u)q] : a utilidade indireta do indivíduo relaciona-se com sua utilidade convencional

ou seja,
u = w(p) : a utilidade indireta do indivíduo depende do preço das mercadorias que consome.

Se não fui obscuro, meu leitor terá entendido que quero dizer que, assim como a turma inventou uma função que dá a utilidade do indivíduo (e sua agregação grupal) como função do preço, por que não poderíamos desenhar uma curva de demanda, imaginando-a como responsiva, digamos, aos gastos em repressão ao terrorismo. A causação, se quisermos entrar nesta epistemologia, seria sinuosa: ao saber (estimar) que o número de atentados terroristas está crescendo, o governo gasta mais e, com isto, impede a efetivação dos ataques: quanto maior o gasto (preço), menos a quantidade perpetrada. E por que isto seria identificado com uma curva de demanda? Porque demanda é a função que relaciona as quantidades que os consumidores (o governo) estão dispostos e aptos a absorver a cada determinado preço que acham estar valendo a pena pagar.

Parece-me que podemos pensar que o governo sente-se frente a um dilema de prisioneiro: é melhor esperar o pior, é melhor reagir à simples possibilidade da presença de caroneiros em seu ambiente de atuação. E, além disto, temos o velho dito latino "si vis pacem para bellum", indicando que aparentemente os governos, a menos que se instale o governo mundial, deixarão de ter seus exércitos. E, nesta linha, o departamento de combate ao terrorismo, com relação inversa entre o gasto (id est, preço) e a quantidade de atentados.

Se isto é complicado, só imagina o que eu escreveria se fosse falar sobre a imanência da relevância do conceito de trabalho abstrato nas viagens intergalácticas.

DdAB
Imagem: aqui. Não sei se entendi bem: parecem-me soldadinhos descendentes de japoneses construindo escolas: se querem a paz, o traço característico é mesmo education, education, education...

Nota 1 Meu livro é:

MARX, Karl (1977) Economic and philosophic manuscripts of 1844. Moscow: Progress.
Na página 5, aloja-se uma nota do editor, que vai até a p. 11. Antes de nela chegarmos, deparamo-nos com a seguinte passagem:

   The supplement to this volume contains Engels' article 'Outlines of a Critique of Political Economy', written at the end of 1843 and early in 1844. Marx thought very highly of this article. So much so that he mentioned it specially in the Preface to the Economic and Philosophic Manuscripts of 1844. Later, too, he referred to the article, which had unquestionably influenced his own scientific interests, as a work of genius. It is remarkable for its profound revolutionary dedication, its materialist approach to economic phenomena and theories, and its clear understanding of the failure of the metaphysical method used by bourgeois economists. It was the first experiment in applying the materialist world outlook and materialist dialectics to the analysis of economic categories.

Pois bem. Algumas páginas adiante (actually na p. 18) encontra-se aquele "he mentioned it specially in the Preface", que cito apenas um trechinho do livro da Editora Boitempo (na página 30 lá deles):



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