terça-feira, 21 de abril de 2015

Ulysses: tem ou não tem "y"?


Querido diário:

Quem me lê com certa assiduidade bem sabe que me declaro especialista na primeira sentença de "Ulysses", obra magna do século XX, de autoria de James Joyce, um nome com "y", aliás, dois nomes, nomeadamente, "Ulysses" e "Joyce", não é mesmo? Só faltava agora Duylyo, só aí mais dois outros.

A primeira frase, como sabemos é:

Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead, bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed.

Por questões diversas que explico tudinho quando bebo, traduzo-a agora como:

Sobranceiro, o fornido Buck Mulligan transitou pelo hall da escada, cabendo ao observador independente anunciar em sua mão uma bacia de barbear em que boiava sobre uma camada de espuma um espelho e, cruzada sobre ele, uma navalha.

De onde me veio a petulância para fazer este tipo de tradução e ainda assim declarar-me um blogueiro digno? É que a obra magna de Joyce dá o que falar mesmo. No presente contexto, lendo a tradução portuguesa da encrenca, percebi que tem outro "y" fazendo parte da história, para alegria de comentadores de meu porte (ou seja, comentadores apenas da primeira frase da referida opus magnum).

Vejamos. Vemos o mundo da tradução portuguesa (desconsiderando aquelas de Houaiss publicada no além mar:

JOYCE, James (2014) Ulisses. Lisboa: Relógio D'Água. Tradução de Jorge Vaz de Carvalho.

Vemos na página 10 desta:
"Quanto tempo vai ficar Haines nesta torre?".
Na página 24, vem o pobrema:
"Pararam, enquanto Haynes examinava a torre e dizia por fim: [...]"

O que pode ser dito, com certeza, é que as duas edições eletrônicas de minha posse (uma em txt e outra em PDF) não registram nenhum "haynes", o que me leva a pensar que teria sido um erro de Joyce que nem ele mesmo registrou ou deu-se conta. E que foi capturado mediunicamente pelo tradutor a serviço da Relógio D'Água.

Aí garrei de conferir no Houaiss:

JOYCE, James (2003) Ulisses. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Tradução de Antônio Houaiss.

O pernóstico velhinho tem na página 10:
"Quanto tempo Haines vai ficar nesta torre?"
Para o brasileiro, tudo soa assim, na página 28:
"Pararam enquanto Haines examinava a torre e dissesse por fim: [...]."

Mas porém. Aquele "dissesse" de Houaiss não paga a qualidade do "dizia" da Relógio D'Água. E a história nunca deverá terminar.

Em resumo, dizemos e disséssemos, diríamos, que Joyce tem "y", Ulysses tem "y", Duilio não tem "y" e Haines tampouco se escreve com "y".

DdAB
Imagem aqui. Selecionei-a em homenagem ao Blooms Day, nomeadamente, o 16 de junho (de 1904), aquelas coisas.

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