segunda-feira, 27 de abril de 2015

Mujica e Friedman na mesma Igreja


Querido diário:

Bem, não é igreja, senão que mosteiro, ou melhor, Monastério (aqui). LeoMon manda-nos para o link daqui. E aqui lemos as declarações do próprio presidente Mujica:

Curiosamente, eu que não sou neoliberal acho que a melhor fundamentação [... (para a lei) uruguaya de regulamentação da produção e consumo de maconha...] que encontrei é a de (Milton) Friedman (economista americano). Digo isso raramente, mas não tenho preconceito. Acho que é preciso roubar o mercado deles (dos narcotraficantes).
[colchetes meus e parênteses do original do site.]

No outro dia, discutindo a questão da renda básica universal, um amigo meu confundiu-me de tal maneira induzindo-me a responder a pergunta retórica sobre se Milton Friedman era de esquerda, com o quê eu assenti. É casca! Mas que assenti lá isso o fiz mesmo. Que posso dizer? Acho que o homem produziu coisas muito interessantes, como é o caso da própria renda básica, o imposto de renda negativo. E também da NAIRU: a ideia central é dele! Quer mais? O artigo sobre a metodologia da economia positiva. Quer mais? Acho que ainda haverá algo!

E por que ele é conhecido como economista de direita? Bem, aqui deixo por conta de Júlio Cortazar, ou melhor, faço a analogia que Cortazar fez com Jorge Luiz Borges e que citei aqui mas reproduzo aqui:

Já me aconteceu dar-me na cabeça perder uma noite em San Martín e Corrientes ou num café de Saint-Germain-des-Prés, tendo-me entretido a ouvir alguns escritores e leitores argentinos embarcados nessa corrente que pensam "comprometida" e que consiste grosso modo em ser autêntico (?), em enfrentar a realidade (?), em acabar com os bizantinismos borgeanos (resolvendo hipocritamente o problema da sua inferioridade face ao melhor de Borges através da falácia usual de se valerem das suas tristes aberrações políticas ou sociais para diminuir uma obra que nada tem a ver com elas). 

Que posso dizer? Tenho muito medo de que me qualifiquem como neo-liberal, claro, pois sou liberal, ou melhor, meu ideal supremo para a humanidade é a liberdade. Penso mesmo que a sociedade libertária é dominante, pois há espaço também para quem quiser se vender como escravo (mas nem teria alguém para comprar, pois liberdade dificulta a posse de escravos). E o Friedman? Também lancei minhas catilinárias contra Jorge Luis Borges aqui. E aqui:


O seu [dele, Borges] maior acto de ingenuidade política foi, talvez, o que se registrou quando aceitou o convite do general Pinochet para almoçar com ele na sua residência de Santiago do Chile.

Quer dizer, tem gente que é reacionária e faz cada uma. No caso, Friedman também fez, pelo que se diz. Teria apoiado muito acremente o golpe do Chile. Mas e daí? Não devemos valorizar sua genial contribuição, que é a do imposto de renda negativo? E o resto do programa, câmbio livre, mobilidade de capitais, essas coisas, tudo é perfeitamente compatível com um mundo melhor em que impere uma renda básica universal de tamanho decente.

DdAB
Imagem daqui. Não sei se é montagem...

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