quinta-feira, 2 de abril de 2015

Marx, a Mercadoria e a Macroeconomia


Querido diário:

No livro:

BÊRNI, Duilio de Avila e LAUTERT, Vladimir (orgs.). Mesoeconomia; Lições de Contabilidade Social. A Mensuração do Esforço Produtivo da Sociedade. Porto Alegre: BookMan, 2011.

temos uma espantosamente interessante definição de macroeconomia:

[...] é a parte da teoria econômica que estuda os fatores que se sobrepõem à decisão de cada agente individual e que resultam da agregação dos resultados de inúmeras decisões destes agentes e dos processos de cooperação ou competição que eles encetam em torno de suas iterações.

Nas páginas 46 e 47 do livro:

HARVEY, David. Para entender O Capital. Rio de Janeiro: BoiTempo. Titulo original: A companion to Marx's Capital. Tradução de Rubens Enderle.

lemos algumas passagens interessantes que relacionam a mercadoria individual (e seu valor e seu preço), o agregado de todas as mercadorias (o PIB e seu preço) e o fetichismo associado ao funcionamento das economias monetárias (expressão minha e não do autor).

Primeiro, o que é fetichismo da mercadoria? Por que, sendo o conceito tão importante, a seção que o contém no volume I d'O Capital só entrou neste lugar do capítulo I na segunda edição? Uma resposta tautológica é: porque Marx não estava satisfeito com a ordem de exposição do primeiro. E isto nos lança àquela reflexão moderna sobre o "capítulo inédito". E a resposta mais criativa é que Marx decidiu deixar bem clara sua teoria do valor: os preços exercem o papel de esconder a "relação social determinada entre os próprios homens [... que...] assume, para eles, a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas." [Harvey citando Marx]. Quando os valores se transformam em preços é que o fetichismo aparece. Se os valores correspondessem ao que vemos no mercado, nem haveria preços para, por exemplo, obras de arte antigas ou o aluguel da terra, aquelas coisas.

Ao dizer que "As mercadorias são coisas sensíveis-suprassensíveis e sociais" abre-se espaço para pensarmos naquela sobre-imposição de que iniciamos falando e que caracteriza o corpo de conhecimento da teoria econômica que chamamos de macroeconomia:

   [O fetichismo] acontece, diz ele [ou seja, diz Harvey que Marx diz], porque 'os produtores só travam contato social mediante a troca de seus produtos do trabalho', de modo que 'os caracteres especificamente sociais de seus trabalhos privados aparecem apenas no âmbito' da troca mercantil. Em outras palavras, eles não sabem nem podem saber qual é o valor de suas mercadorias antes de levá-la ao mercado e efetivar sua troca.

Costumo pensar que temos aí precisamente esse determinismo do todo sobre suas partes, permitindo-nos entender que, por exemplo, variáveis, como é o caso do preço de todas as mercadorias, emergem da baixo para cima e em cima assumem outro caráter, o caráter social e passam a pressionar as determinações de baixo. E é por isto que, em momentos de maior exaltação, costumo sugerir que quem determina os nível do PIB é o presidente do banco central. Que quero dizer? Que apenas com um estoque de moeda avalizado pelo banco central (e seus múltiplos, para dar conta de relações não monetárias, mas referenciadas aos preços de mercado, como o escambo ou mesmo mercados futuros) é que os preços poderão expressar-se e, como tal, esconder as relações entre valores que respondem fundamentalmente pelos preços relativos.

O valor só se torna objetivo quando ascende do micro ao macro. Não fosse a micro, não haveria a macro. Mas é o macro que dá existência do micro.

E Popper, e como testar? Popper odiava Marx, mas tenho na manga escondido um artigo que tentará convencer o leitor que Marx era um popperiano (e me baseio numa postagem do Bípede Pensante (aqui).

Primeiro, como sabemos que os preços lá de cima influenciam os preços lá de baixo? Basta pensar nos índices de preços e de quantidades. E comparar, por exemplo, a evolução deste, assim, nível geral de preços com a evolução dos preços individuais. Em média (e que é o índice de preços/quantidade, senão uma média?), haverá estrondosamente elevada correlação.

Segundo, como saber que os valores se associam aos preços? Basta correlacionarmos os preços das mercadorias com a produtividade do trabalho dos setores que as produzem. Deveremos observar, em média, que aqueles setores que precisam de menos trabalho para produzir o mesmo PIB terão quedas nos preços.

DdAB
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