segunda-feira, 23 de março de 2015

Gira...


Querido diário:

Para Teresa Amaro

Em Portugal, aprendi duas palavras relevantes para "A Volta ao Dia em Oitenta Mundos" de que já falei aqui e aqui:

CORTÁZAR, Julio. A volta ao dia em 80 minutos. Lisboa: Cavalo de Ferro, 2009. (Impresso na Itália), [Tradução de Alberto Simões].

A primeira clarifica a natureza da postagem. A segunda fica inconclusiva, ou quase. Não sei se conseguirei explicar tudo.

Gira, no aurelião, é "pessoa adoidada, amalucada". E também falou na gira da Umbanda (que lembra "fazer uma bahiana"), que tá até na wikipedia.  Em Portugal quer dizer algo muito especial, interessante, charmoso, desejável, correto, invejável, escorreito.

No Dicionário Informal (clicar no azul), temos para gira: 
louco demente legal massa azoratado avenado adoudado amalucado biruta abilolado leso estoirado aveado esbilotado lunático esmaniado destrambelhado adoidado aloucado desabotinado aluado irado mais... Antônimos: chato sem graça sensato assissado equilibrado ajuizado careta mais...


Então, "piroso" é gira, pois leva-nos a viajar, mas não é bem gira... No sentido mais próximo, piroso lembra "pirose", ou, mais comumente, "azia". Assim, algo piroso é de dar azia. No mesmíssimo Dicionário Informal:

Significados de Piroso :
Por GoAlex (Portugal) em 26-01-2009:
S. m., adj.,
de mau gosto ou má qualidade, segundo o gosto popular: "Falando de casacos, o seu casaco é extraordinariamente piroso! Com tanta piroseira hoje em dia, o que é que não é piroso?"


Segue-se logicamente que Cortázar fala em "piroso" em -que contei, talvez haja mais- três passagens de sua "Volta ao Mundo", aliás, definição e Brasilzão antigo, uma marca de camisa que popularizou-se e, diria a elite, virou pirosa.

Cortázar 1 na página 132, falando contra gente do clube da baixaria:

Que fique assim entendido que também aqui se fala desses escritores que, no seu quinto ou sétimo livro, são capazes de escrever: 'Disse-lho uma manhã na leitaria, com os nossos cotovelos apoiados sobre o mármore frio', como se fosse possível apoiar no mármore os cotovelos da nossa bisavó ou como se o mármore das leitarias normalmente estivesse em estado de ebulição; de escritores que se permitem displicências com Borges ao mesmo tempo que produzem coisas como 'o tácito consentimento do ancestral e peremptório vindo ao de cimo pela sua natureza áspera e conceptiva', ou piroseiras onde um rosto se acende com 'o fogo indomável do rubor', para não falar dos que explicam como 'ao tomar a sua cara com as duas mãos', etc., delimitação que permitiria deduzir que há pessoas capazes de a tomarem com três ou com oito. 

Cortázar na página 200, num mundo em que falará em Lesama Lima e da crítica escabelada que lhe fazem certos "intelectuais":

Se estou a escrever estas páginas, é porque sei que parágrafos como o citado pesam mais na avaliação dos preceptores do que a prodigiosa invenção que Paradiso oferece ao mundo. E se cito a frase sobre o jovem Fronesis, é porque também me incomodam essa e muitíssimas outras piroseiras, mas também na medida em que me pode incomodar uma mosca pousada num Picasso ou uma miadela do meu gato Teodoro quando estou a ouvir a música de Xenakis.

Cortázar na página 322, começando o capítulo intitulado "CASA DO CAMALEÃO, na primeira seção que leva o título de "Sobre o sincrónico, o ucrónico ou anacrónico dos oitenta mundos":

-Minha senhora -digo-lhe eu, - não espere muita coerência desta volta ao dia. Alguns dos meus oitenta mundos são velhos e pequenos planetas a que cheguei em dias já distantes, um pouco como o principezinho de Saint-Exupèry, tão vilipendiado pelos duros da literatura e tão comovente para os que continuam fiéis a City Lights, a Jelly Roll Morton, a Oliver Twist. Por volta dos anos 40, vivi amplamente num desses mundos que parecem pirosos e antiquados aos jovens e que não é bom tom evocar hic et nunc: falo do universo poético de John Keats.

DdAB
P.S. ainda fico devendo-me pensar um pouco mais sobre piantado e seus cronópios, famas, esmeraldas, essas coisas que já se vão por outros mundos, outras histórias, outras viagens. E com aquele hic et nunc até no livro "A Ilha" de Aldous Huxley.

P.S.S. O gira-gira lá de cima é daqui.

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