terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Indústria: daria para ser ainda pior?


Querido diário:

Quem me acompanha no mundo alheio aos hai-kais sabe que tenho especial invocação com o endeusamento do setor industrial. Obviamente não falo de peças industriais como a cadeira em que agora sento, o copo que usei para tomar um leitinho há umas duas horas, o computador em que ora batuco, o vaso que comporta flores a minha frente, a TV que me contempla, desligada e altaneira, os chinelos que uso, a roupinha que me cobre as vergonhas, tudo isto. Sou a favor delas, inclusive sou a favor de que nenhum terráqueo sinta-lhes falta. Quando falo em terráqueos quero dizer mesmo os nigerianos e bolivianos, noruegueses e malasianos, baianos e pantanalenses.

E quando falo em indústria provocando males medonhos tenho em mente, por exemplo, os automóveis. Eles matam 50 mil pessoas por ano em pleno Brasil. E nem falo da performance demoníaca associada a outros países subdesenvolvidos. Penso especialmente no Brasil, o entusiasmo de muita gente, inclusive meu, quando começaram a surgir os primeiros fuscas, há menos de 60 anos. O automóvel, esta maravilhosa engenhoca destrutiva de cidades e seus habitantes, teve um custo de oportunidade, por exemplo, mensurado em universidades da mandioca, do álcool da madeira, os trens, as eclusas, os barcos e navios.

O que me deixa mesmo abisurado (como diz Ivans Berzins) é perceber que tem muita gente que defende a política econômica voltada à promoção da indústria, como se tratores pudessem produzir engenheiros. Naturalmente, escolas é que produzem engenheiros, porteiros, carregadores, açougueiros e médicos. A propósitos dos médicos, bisturis jamais os produziriam...

Construir artificialmente um setor dinâmico e confiar excessivamente no "get the prices wrong" para ver o mercado induzi-los a ser "right" esbarrou no mais estrondoso fracasso. Hoje em dia, às vezes eu mesmo chego a pensar que parte de nosso mal-estar de crescimento rastejante se deve à perniciosa ação do câmbio. E dos impostos indiretos. Mas tudo faz parte do mesmo botequim: câmbio segura a inflação. E quem provoca inflação? Entre outras razões, o escandaloso desejo da produtividade do trabalho em ficar rastejando. Como é que produtividade aumenta? Claro que com máquinas, tratores, mas principalmente com engenheiros, com trabalhadores alfabetizados, com homens e mulheres saudáveis.

DdAB
P.S. Não sei o que seria de mim, se não tivesse tido meus carrinhos há mais de 40 anos. E quando penso nisto digo a mim mesmo: seria melhor. Mais trens, mais barcos, mais ônibus urbanos, mais metrôs.

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