terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Igualitarismo e Literatura


Querido diário:

Lemos ali ligeiras manifestações de buscas que fiz no Google sobre a dupla Calac e Polanco, que tudo me levaram a crer nas virtudes do humor e sua consagração na sociedade igualitária. Explico-me. Vemos assim um trecho de

RABASSA, Gregory. If this be treason; translation and its discontents - a memoir. New York: New Directions, 2005. Página 57.

que encontrei ao procurar a origem dos nomes da dupla. Sempre ponho-me a pensar em eruditas citações de Shakespeare, Quixote ou algum elemento químico.

Mas tudo isto foi buscado tendo em vista permitir-me falar em

CORTÁZAR, Julio. A volta ao dia em 80 minutos. Lisboa: Cavalo de Ferro, 2009. (Impresso na Itália), [Tradução de Alberto Simões].

Em particular, quero falar em Cortázar que impressionou-se com um "revisor de autocarro em Buenos Aires" que disse: "Mais um passinho para frente e avancem de lado que há lugar...". Então Polando indagou a Calac algo sobre "pão com manteiga e mamíferos paquidérmicos". Calac foi-se entusiasmando com as próprias explicações, deixando Polanco quase monossilábico. Destaco uma passagem especialmente apologética da sociedade igualitária:

[... Calac: ]
   -Mas isto é o que todos os poetas fazem - disse Polanco, decepcionado.
   -Claro que fazem, mas depois expressam-no na sua poesia e tu sabes que as pessoas leem poesia quase sempre como se fosse um momento excepcional, excelente fórmula para se voltar rapidamente à prosa e não nos inquietarmos muito. É por isso que eu te digo que é preciso aplicar o conselho do revisor do autocarro à vida banana, à vida pasta de dentes, à vida bom dia mamã, que levamos. Ao fim e ao cabo é como disse o Conde, a verdadeira poesia terá de ser feita por todos e não apenas por um. E a elasticidade, o deslizamento e a escorregadela entre o fiambre e o pão são a única forma de nos irmos fazendo ao seu uso, aparte de que com centavos se fazem pesos, como me ensinou a minha mestra do terceiro grau.
   -Tu o pão mete-lo em quase todos os exemplos - disse Polanco. -Se entendi bem, tu propões a esponja como a pedra-pomes?
[...]

E por aí seguiu-se o -atrevo-me a dizer- conto intitulado "Diálogo com Maioris", com o trecho que colhi à página que refiro lá em cima, mas não tão em cima a ponto de confundir com o filósofo-tradutor (diria lá ele mesmo "traduttore traditore").

Afinal, que quero dizer ao citar praticamente milhares de nomes de pessoas e coisas reais ou fictícias? Quero dizer que será apenas na sociedade igualitária que alcançaremos a verdadeira poesia. Que quereríamos mais? Pão com manteiga, roupa lavada, poemas a mancheias...

DdAB

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