quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A Maconha e os Médicos


Querido diário:

O cronista David Coimbra, de Zero Hora, escreveu na página 39 sobre a legalização das drogas. Afirma (e eu bem sei) que o consumo brasileiro é mais livre que um passarinho. O único racionamento - digo eu - é o do mercado, um bem de demérito que tem sua demanda seviciada pelo... vicio. [Esta de "seviciada pelo vício" é homenagem à postagem de ontem]. Diz o jornalista:

[...]
   O Brasil só conseguirá restringir as drogas se as controlar. Ou seja: tornando-as legais de direito, já que o são de fato. O Estado brasileiro deveria tomar a si a produção e a venda das drogas, cadastrando os consumidores, definindo os locais de uso, transformando as drogas em problema de saúde pública, não de polícia. Mais ou menos como é feito com o cigarro, que, com inteligência, está sendo banido da sociedade.
   O dinheiro das drogas deveria ser investido, exatamente, no combate às drogas, na prevenção, na educação, em vez de ser investido na compra de armamentos por bandidos.
[...]

Olha só, nunca pensei neste argumento: quem está armando os bandidos que já destruíram boa parte do país, destacadamente, a polícia e o judiciário, é a política proibicionista. E não é difícil entender a razão: os prêmios pagos aos ofertantes desta atividade ilegal são spectacular, para usar o termo de Joseph Schumpeter.

Mercado regulado? Bens de demérito? E que tal falar em bens de mérito, atividades meritórias também reguladas pelas leis de mercado? Outro desvio igualmente escandaloso é mais um setor com equivalente poder de monopólio, seviciando as parturientes brasileiras, essas heroínas da vida comunitária: os obstetras! As páginas 20-21 do mesmíssimo jornal falam por si mesmas, em um contexto em que a mulher engravida, procura acompanhamento médico durante a gestação e quer que o mesmo profissional faça o parto. Este só fará, em muitos casos, se ganhar um dinheirinho por fora:

SUA VIDA
MATERNIDADE
O PREÇO DA DISPONIBILIDADE
TAXA COBRADA POR OBSTETRAS conveniados a planos de saúde para garantir que realizem o parto surpreende gestantes em pré-natal. Apontado como irregular pelo Ministério da Saúde, procedimento é aceito por entidades médicas.

[...] A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), porém, não admitem a cobrança.
   -Se o médico acha que deve ser remunerado por sua disponibilidade, tem que negociar com a operadora do plano de saúde, e não com a gestante em uma situação vulnerável - sustenta a advogada do Idee Joana Cruz.

[...] A quiropraxista Giulia Pereira, 27 anos, moradora de Sapiranga, deixou sobressaltada a primeira consulta com uma obstetra de Novo Hamburgo. Descobriu que, mesmo coberta pelo plano de saúde, teria que desenbolsar outros R$ 3,5 mil se quisesse que a mesma profissional responsável pelo acompanhamento pré-natal fizesse o parto normal de seu primeiro filho.

[...]

Paulo de Argollo Mendes [presidente do sindicato médico do RS (Simers)] defende a cobrança da taxa de disponibilidade [do médico para o dia do parto] como uma compensação pela defasagem da remuneração oferecida pelos planos de saúde.

Eu pensei: maconha e partos? Um é fácil no Brasil e o outro é complicado. Se eu mesmo pudesse pensar duas vezes teria escolhido outros contornos para meu nascimento. Admito que o médico pode achar que ganha pouco ao se credenciar a atender pelo plano de saúde. Mas cobrar logo da paciente que deseja seguir com sua assistência no parto? Por que, como disseram, não cobrar do plano? E o plano, por que não se ressarcir dos signatários? Parece-me absolutamente fora de propósito, apenas em um país de moralidade baixa que os médicos achaquem os pacientes!

DdAB
Imagem: aqui. Se eu já estava estupefato com os médicos que achacam pacientes, só imagina o que direi de médicos atendendo a cirurgias cerebrais devidamente chapados. Mas acho que este tipo de indagação é bastante elementar, pois parece-me que qualquer médico que não seja criança nem criminoso nem criança há de separar as horas de consumo recreativo de jogos de tênis, bifes à milanesa e baseados para outros momentos em que não estiver em ação enquanto profissional. E você, leitor do Planeta 23, teria coragem de ser operado por um médico todo suarento, pois -entre uma sutura e outra- joga tênis no corredor do hospital com uma parturiente?

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