sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Tom Jones e suas Irmãs


Querido diário:

(Se você ainda não leu
McEWAN, Ian. O Jardim de Cimento. Companhia das Letras/de Bolso,
que comprei na Sapere Aude!, então não leia esta postagem, a menos que seja um estraga-prazer de si mesmo/a...)

É difícil explicar tudo, mas o delegado conseguiu montar um certo quebra-cabeça muito útil aos jurados. Jones não era Jones, mas John, ou -melhor ainda-, Jack. Nada de Jack Jones, apenas Jack.

Em seu depoimento juramentado, Sue informou aos jurados nada saber sobre cães e que sua mãe sempre esteve residindo em uma caixa, depois da morte natural. E acrescentou, com um olharzinho à socapa, que considerava direito adquirido da família reter sua mãe na guarita que lhe fora designada, quando a oficialidade negou guarida para tratamento justo.

Então havia Sue, havia Jack e então havia Tão, então havia tantarantantão, digo, então havia Tom. Ok, ok, Sue era irmã de Jack que era irmão de Tom. Seguiu-se logicamente -logicamente?- que os três eram irmãos de Julie. Fixa-se o título da postagem: Tom e Jack eram irmãos de Sue e Julie. Isto estaria garantido, disse um dos jurados, empinando uma xícara de chá, só que preenchida até a metade com cachaça. Parecia a todos que ele bebia chá e, na verdade, o que ele fazia era dar pequenos goles na canha. Não fossem as gargalhadas extemporâneas que ele dava, ninguém desconfiaria de nada. Ele, como não se dava conta de seu próprio cacarejar, achava que tudo estava no melhor dos mundos, em especial, aquele julgamento era muito divertido. E instou seus pares a seguirem com o julgamento do caso do saco de cimento.

Em outras palavras, as irmãs de Tom Jones nada têm a ver com o filme de título assemelhado produzido por Woody Allen, o sucessor do Mágico de Oz. As irmãs de cá, bem sabemos, eram a Sue e a Julie. As dele lá eram, se bem lembro, Lee e Holly. O quarteto de cá, bem o sabemos!

Quando o juizado de menores pediu o depoimento a Tom sobre o ocorrido naquele fim-de-tarde, a defesa invocou que uma criança de dois anos e meio de idade não pode falar. Mas Tom desmentiu-a dizendo que Jack matou um cachorro que se alojara dentro do forno do fogão a gás e o enterrou no mesmo caixote em que jazia sua mãe. A esposa do cachorro gritou furiosa: "Mentira, mentira, pois Jones [era o nome do cachorro] nunca dormiu uma noite fora de casa, como posso provar facilmente".

O delegado Wyatt Earp indagou como é que ela podia provar uma coisa destas. Ela não titubeou e informou que autorizava seu marido a empinar apenas duas doses de Jack Daniels por noite e, poderia ser medido facilmente, havia apenas uma dose a menos na garrafa. Earp anuiu e disse não mais desconfiar desta versão, que passava a alardear como a versão verdadeira. Mas, astuto que era, indagou retoricamente: "Então quem era o cachorro?". Todos consideraram a pergunta verdadeira e não mais se deixaram evadir do tema central. Afinal Julie era ou não a própria mãe de Tom e do cachorro?

Esta, ao ser indagada por um cliente do McDonalds, por meio de uma liminar, limitou-se a plantar uma bananeira. Vendo isto, os policiais, apressadamente descidos dos carros de sinetes azuis, invadiram a casa, imobilizando o cachorro. Vendo aquela facilidade em lidar com seres irracionais, um dos policiais, já de olho lúbrico voltado a ela, pediu-lhe aulas particulares de tai-chi-chuan. Julie ficou de pensar.

DdAB
Imagem daqui.
P.S. do dia seguinte: esqueci de falar, como planejara, em Tom Jones cantor e no "Tom Jones" de Henry Fieding.

Nenhum comentário: