quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Meritocracia e Emprego


Querido diário:

Falando no mercado de trabalho, não sou completamente contrário às gratificações funcionais por desempenho. Sou um tanto... Penso que este tipo de destaque para os "melhores" deixa os "bons" e os "normais", de sua parte, bastante insatisfeitos. Tenho em certa medida alguma experiência pessoal com este tipo de sentimento, ou sentido por mim ou percebido existir em terceiros. E tenho como "base teórica" a teoria da Eficiência-X de Harvey Leibenstein: existe uma folga organizacional em tudo que é organização, pois -digo eu- "ninguém dá duro o tempo inteiro", nem o dono.

É bem verdade que ver incompetentes serem premiados deixa qualquer um chateado, exceto os incompetentes que, também, se tornam objeto do ódio dos melhores, dos bons e dos médios.

O que ocorre no mundo brasileiro contemporâneo é que há mecanismos que não são utilizados para punir os incompetentes, especialmente no setor público (esse pobre abandonado). No setor público inclusive existe o mecanismo de rebaixamento ("reclassificação"). Então:

.a. ser rebaixado
.b. não ser promovido
.c. ser demitido.

Estas punições já são de bom tamanho. A promoção pode representar algum ganho salarial, mesmo sem - como no governo - mudança de cargo.

Quando se fala em flexibilização das leis trabalhistas, tremo dentro de meu pijama, pois penso que vem pau em cima da classe trabalhadora. Uma vez que uma reforma social decente requereria a instituição da renda básica universal no valor de R$ 4.300 mensais (valor do auxílio moradia dos juízes e assemelhados), poderíamos esquecer muitos desses direitos de manutenção do emprego e aquela conversa de investimentos que geram "renda e emprego". Passaríamos a ter os dois subornos: um, de manter-se fora do mercado de trabalho e, outro, de ser atraído para ele.

DdAB
P.S. só que com este auxílio moradia expandido para todos os brasileiros chegaríamos à despesa de R$ 4,6 trilhões, ou seja, praticamente todo o PIB. Esta aritmética tem duas implicações: não dá para iniciar a renda básica da cidadania com este valor e, mais importante, não dá para pagar auxílio moradia para ninguém, já que não é possível pagar para todos!

Imagem: aqui. Peguei este canguru para ilustrar a postagem, pois parece que ele vive uma vida mansa.

4 comentários:

Anônimo disse...

Bah, Duilio, o cidadão ganha 20 mil e picos e ainda leva auxílio -moradia e outros penduricalhos. Tá tudo errado.

Cá entre nós, tenho pra mim que ganhar 20 mil na Administração Pública, quando não é quase 30 mil, é completamente incompatível com a realidade nacional. Como isso é possível? Na prática, isso converte-se em uma clara apropriação de parte dos tributos por determinadas classes. Ou melhor, isso pra mim é espoliação, pilhagem dos cofres públicos. Haja cachaça!!!

Voltando ao teu post, essa história de flexibilização das leis trabalhistas é retórica para tirar o pouco que o trabalhador comum tem. Bastaria, entre outras coisas, uma boa de uma reforma tributária, fortemente progressiva.

Abraço,
Teixeira.

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

Caro Teixeira,
Quando estudei sociologia na faculdade de economia, falava-se muito nos "estamentos". Hà poucos anos, voltei a ler a expressão no livro de Raymundo Faoro comentando a obra de Machado de Assis. Eram os militares, era o final da monarquia e o início da república. Para mim, era 1968, eram os militares. Mas já estavam encastelados os juízes, os políticos. Essa turma tem baixo nível de altruísmo e elevadíssimo índice de egoísmo na formação de suas funções de preferências. O confisco é mais evidente no caso do poder judiciário, que conta inclusive com um tesouro gerador de receitas dele próprio!

Obrigado, boas festas (champanhe...)
DdAB

Anônimo disse...

Caro Duilio,

Falando em Faoro, acredito que os "Donos do Poder" seja uma das melhores radiografias do funcionamento do Brasil, desde os tempos imemoriais. Ainda é incrivelmente atual, ou melhor dizendo, só pode continuar atual, já que as mudanças neste país são sempre no sentido de manter tudo exatamente igual.

Abraço,
Teixeira.

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

É verdade, Teixeira. E nunca deixa de me impressionar que Faoro escreveu "Os Donos do Poder" com apenas 28 anos de idade.
Abçs
DdAB