sábado, 29 de novembro de 2014

O Ajuste: grupos economicamente semelhantes


Querido diário:

Ontem li o jornal ZH cedinho e ia direto postar coisas. Não fi-lo porque viajei-me, mas agora voltei-o! Meu comentário seria e é agora sobre a festança organizada em torno da divulgação do trio de responsáveis pela fazenda-banco/central-planejamento, tidos como o cerne dos decisores da área econômica. Joaquim Levy, Alexandre Tombini e Nelson Barbosa.

Meu leitor sabe que há algumas coisas que fazem meu sangue ferver. Primeira, claro, é acharem que a solução de algum problema econômico encontra-se na redução do horizonte de vida da população ou, por menos que seja, dos pobres. Depois, quando se fala que tal ou qual empreendimento "vai gerar emprego e renda". Para ir ficando por aqui, também ferve-me o sangue quando alguns dizem saber qual o desejo d'"os mercados".

No primeiro caso, costumo alardear o primeiro teorema do PIB ("o PIB representa 100% do PIB"), ou seja, o problema das gerações futuras será definir quanto destinar para jovens, trabalhadores e velhos. Não parece uma ideia sensata para o século XXII pensar-se que o "déficit do tesouro" para o pagamento de seres humanos é um problema. Segundo caso: óbvio que todos querem renda e apenas os que não têm acesso a renda do capital é que têm que suar para ganhar seu dinheirinho. Agora, uma empresa que gera alguma renda e montes de emprego é uma irresponsável, improdutiva e destruidora do bem-estar da coletividade. Quer colchão para associar tenuemente renda e emprego? Pois empregue as pessoas no serviço municipal, cuidando de crianças, velhos, fazendo jardins nos canteiros urbanos, essas coisas. Terceiro: os mercados produzem bens regulares (arroz integral), bens de mérito (anestesia, educação) e bens de demérito (cachaça). Agora, mercado não produz bens públicos e nem tampouco bens de mérito em quantidade desejada pela sociedade. Estará errada a sociedade em desejar mais educação ou o mercado em ser incapaz de provê-la? Cada uma (e são três)!

Então ZH na página 12 fala nas "ideias de Levy". Ao lê-las, tornou-se claro para mim que existem ajustes macroeconômicos de direita e de esquerda. E não é difícil identificar uns e outros Vejamos alguns casos.

Primeiro: diz ZH que Levy diz ser "contrário à política de valorização do salário mínimo adotada atualmente pelo governo, que não leva em consideração avanços na produtividade, e sim o ritmo da economia e da inflação." Claramente isto é do ajuste de direita, pois não existe nenhuma lei sagrada que diz que o salário deve crescer alinhado com a produtividade. E se não crescer? Se crescer menos, aumenta a participação dos capitalistas ou do governo na renda. Se crescer mais, aumenta esta participação dos trabalhadores. Há algo de errado com isto? A direita acha que sim. O aumento do salário mínimo tem uma certa desagradável tarefa de reduzir o emprego, mas tem a enorme virtude de forçar as empresas a (despedirem trabalhadores) fazer crescer a produtividade da fábrica. Os arautos do ajuste de direita não veem isto.

Segundo: "Levy defende benefícios e incentivos concedidos a grupos economicamente semelhantes, desde que 'transparentes no orçamento público' e acompanhados de metas claras e verificáveis de desempenho." Essa dos grupos economicamente semelhantes deixou-me a pensar. E aproveitei e pensei na assimetria de achar que trabalhador não pode ganhar mais que a produtividade, mas tais grupos podem, desde que acompanhados de metas claras e verificáveis de desempenho, ganhar benefícios e incentivos. É de direita!

Terceiro: "Levy afirmou que a recente alta na taxa de juro é 'positiva na medida em que sinaliza compromisso com a estabilidade de preços'". Também fiquei pensativo, pois o ajuste necessário neste país de políticos de direita (not to speak of  stealing/robbing habits) e outros da esquerda escalafobética, faz-se necessária a ação sobre as principais variáveis síntese macroeconômicas: câmbio, déficit público (impostos desabotinados e gasto agatunado), salários e, como resultante, a inflação. Parece óbvio que não tem como segurar a inflação. O que se pode fazer é elevar os ganhos dos rentistas -ajuste de direita- ou meter uma reforma fiscal de vulto, metendo imposto de renda nos mais ricos, ajuste de esquerda.

Apoplético, nem vou comentar mais o que li. Nem comentar o que espero para 2015. Só posso saudar minha própria sabedoria ao criar o silogismo modo barbaquá:

Premissa maior: Todo político é ladrão
Premissa menor: Ora, todo ladrão é político
Conclusão: Logo todo político e todo ladrão são farinha do mesmo saco.

DdAB
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