sábado, 29 de novembro de 2014

O Ajuste: grupos economicamente semelhantes


Querido diário:

Ontem li o jornal ZH cedinho e ia direto postar coisas. Não fi-lo porque viajei-me, mas agora voltei-o! Meu comentário seria e é agora sobre a festança organizada em torno da divulgação do trio de responsáveis pela fazenda-banco/central-planejamento, tidos como o cerne dos decisores da área econômica. Joaquim Levy, Alexandre Tombini e Nelson Barbosa.

Meu leitor sabe que há algumas coisas que fazem meu sangue ferver. Primeira, claro, é acharem que a solução de algum problema econômico encontra-se na redução do horizonte de vida da população ou, por menos que seja, dos pobres. Depois, quando se fala que tal ou qual empreendimento "vai gerar emprego e renda". Para ir ficando por aqui, também ferve-me o sangue quando alguns dizem saber qual o desejo d'"os mercados".

No primeiro caso, costumo alardear o primeiro teorema do PIB ("o PIB representa 100% do PIB"), ou seja, o problema das gerações futuras será definir quanto destinar para jovens, trabalhadores e velhos. Não parece uma ideia sensata para o século XXII pensar-se que o "déficit do tesouro" para o pagamento de seres humanos é um problema. Segundo caso: óbvio que todos querem renda e apenas os que não têm acesso a renda do capital é que têm que suar para ganhar seu dinheirinho. Agora, uma empresa que gera alguma renda e montes de emprego é uma irresponsável, improdutiva e destruidora do bem-estar da coletividade. Quer colchão para associar tenuemente renda e emprego? Pois empregue as pessoas no serviço municipal, cuidando de crianças, velhos, fazendo jardins nos canteiros urbanos, essas coisas. Terceiro: os mercados produzem bens regulares (arroz integral), bens de mérito (anestesia, educação) e bens de demérito (cachaça). Agora, mercado não produz bens públicos e nem tampouco bens de mérito em quantidade desejada pela sociedade. Estará errada a sociedade em desejar mais educação ou o mercado em ser incapaz de provê-la? Cada uma (e são três)!

Então ZH na página 12 fala nas "ideias de Levy". Ao lê-las, tornou-se claro para mim que existem ajustes macroeconômicos de direita e de esquerda. E não é difícil identificar uns e outros Vejamos alguns casos.

Primeiro: diz ZH que Levy diz ser "contrário à política de valorização do salário mínimo adotada atualmente pelo governo, que não leva em consideração avanços na produtividade, e sim o ritmo da economia e da inflação." Claramente isto é do ajuste de direita, pois não existe nenhuma lei sagrada que diz que o salário deve crescer alinhado com a produtividade. E se não crescer? Se crescer menos, aumenta a participação dos capitalistas ou do governo na renda. Se crescer mais, aumenta esta participação dos trabalhadores. Há algo de errado com isto? A direita acha que sim. O aumento do salário mínimo tem uma certa desagradável tarefa de reduzir o emprego, mas tem a enorme virtude de forçar as empresas a (despedirem trabalhadores) fazer crescer a produtividade da fábrica. Os arautos do ajuste de direita não veem isto.

Segundo: "Levy defende benefícios e incentivos concedidos a grupos economicamente semelhantes, desde que 'transparentes no orçamento público' e acompanhados de metas claras e verificáveis de desempenho." Essa dos grupos economicamente semelhantes deixou-me a pensar. E aproveitei e pensei na assimetria de achar que trabalhador não pode ganhar mais que a produtividade, mas tais grupos podem, desde que acompanhados de metas claras e verificáveis de desempenho, ganhar benefícios e incentivos. É de direita!

Terceiro: "Levy afirmou que a recente alta na taxa de juro é 'positiva na medida em que sinaliza compromisso com a estabilidade de preços'". Também fiquei pensativo, pois o ajuste necessário neste país de políticos de direita (not to speak of  stealing/robbing habits) e outros da esquerda escalafobética, faz-se necessária a ação sobre as principais variáveis síntese macroeconômicas: câmbio, déficit público (impostos desabotinados e gasto agatunado), salários e, como resultante, a inflação. Parece óbvio que não tem como segurar a inflação. O que se pode fazer é elevar os ganhos dos rentistas -ajuste de direita- ou meter uma reforma fiscal de vulto, metendo imposto de renda nos mais ricos, ajuste de esquerda.

Apoplético, nem vou comentar mais o que li. Nem comentar o que espero para 2015. Só posso saudar minha própria sabedoria ao criar o silogismo modo barbaquá:

Premissa maior: Todo político é ladrão
Premissa menor: Ora, todo ladrão é político
Conclusão: Logo todo político e todo ladrão são farinha do mesmo saco.

DdAB
Imagem aqui.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Capitalismo Socialista


Querido diário:

É socialista, pois seu índice de desigualdade na distribuição da renda é 0,25 (Gini), um dos três menores do mundo. É capitalista, pois o Gini da distribuição da riqueza é de mais de 0,8, talvez perdendo apenas para alguns países africanos... É a Suécia.

No delicado momento vivido pelo Brasil, é crucial que se entendam os objetivos nacionais mais amplos e que se os discutam amplamente. Respeitando o primeiro princípio da sociedade justa, podemos mudar o que disse John Rawls sobre a liberdade para talvez uma unanimidade sobre um dos objetivos centrais de uma sociedade moderna: garantir a todos a maior qualidade de vida compatível com o dos demais. Considerando que um escravo não desfruta da maior liberdade possível, descarta-se o uso deste “colaborador” para elevar o bem-estar individual.

A visão de que o livre funcionamento do mercado pode levar a sociedade a alcançar o maior bem-estar é minoritária entre os estudiosos do assunto, a maioria deles insistindo na criação de políticas compensatórias por parte do governo. Num país como o Brasil de enorme desigualdade (Gini da renda duas vezes o sueco), falar em governo e em políticas compensatórias leva a que se fale em políticas fiscais e monetárias.

A ação fiscal reside no gasto público e tributação. No primeiro caso, o governo precisa voltar-se à provisão de bens públicos (segurança, saneamento ambiental) e bens meritórios (educação, ginástica), pois os gastos beneficiam mais que proporcionalmente à renda os menos aquinhoados. No caso da política tributária, trata-se de trocar a estrutura da arrecadação, tirando o peso dos impostos indiretos (ICMS, IPI) e carregando nos diretos (renda e patrimônio). Uma política monetária que favorece o igualitarismo é o crédito orientado para pequenos empreendimentos, inclusive com bolsas de estudos voltadas à formação de empreendedores.

Hoje em dia, a evidência empírica tem indicado que os países igualitários têm melhor desempenho do que os menos. Em uma economia dinâmica, há mais empregos, menos assaltos, mais escolas, menos presídios. E até os presídios, na sociedade igualitária têm a vantagem de gerar empregos para o guarda e o zelador, o dentista e o assistente social. Sabe-se como chegar “lá”. O problema brasileiro é que governo e oposição enfrentam-se com tal radicalismo que não conseguem fazer frente única para os verdadeiros temas relevantes.

DdAB
Imagem aqui.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O Encilhamento e a Indústria


Querido diário:

No outro dia, andei dando umas lidas em

LEVY, Maria Bárbara (1980) Encilhamento. In: NEUHAUS, Paulo (org.) Economia brasileira: uma visão histórica. Rio de Janeiro: Campus. p.191-255.

E achei milhares de aspectos interessantes, mas destaquei dois que ficam despercebidos e parecem ter-se tornado consenso muito tempo depois.

Primeiro: Ruy Barbosa e a indústria na página 201:

   As ideias industrializantes de Ruy Barbosa já eram conhecidas antes mesmo que ele fosse chamado ao Ministério da Fazenda. "Mas somos uma nação agrícola. E por que não também uma nação industrial? Falece-nos o ouro, a prata, o ferro, o estanho, o bronze, o mármore, a argila, a madeira, a borracha, as fibras têxteis? Seguramente não. Que é, pois o que nos míngua? Unicamente a educação especial, que nos habilite a não pagarmos ao estrangeiro o tributo enorme da mão-de-obra, e sobretudo da mão-de-obra artística".

Em outras palavras, education, education, education! Como sabemos, o engenheiro produz tratores, mas tratores não produzem engenheiros.

Segundo: Clifton e a indústria, página 203

   [...] a fuga aos preceitos monetários exportados pela City de Londres, onde o capital financeiro deveria ser suficientemente móvel para, a qualquer momento, poder ser deslocado para outra parte do mundo mediante a pronta liquidação de seus créditos.

E aqui? Ok, ok. James Clifton não é do artigo de Levy, mas que parece lá isto parece. Que nos disse Clifton? Que a grande corporação moderna age como um banco, buscando oportunidades rentáveis em setores os mais díspares e mesmo distantes da tradição do grupo, desde que sejam mais rentáveis. É, segundo ele (e incorporado por mim) o elogio da lei da concorrência inter-capitalista.

E que dizer deste pessoal que agora fala em "reindustrialização" para retirar o prejuízo da "desindustrialização"? Eles ainda não aprenderam que a política pública deve

.a. ter uma taxa de câmbio decente (e, claro, a de juros), no sentido de equilibrar o balanço de transações correntes?

.b. não fazer "política industrial", mas "política educacional", ou melhor, políticas provedoras da formação de capital humano e não físico.

DdAB
Imagem: aqui.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Transparência e o Novo Governador do RGS


Querido diário:

No domingo passado, nas frases da semana, referiu-se esta como de autoria de José Ivo Sartori, o governador eleito e ainda não empossado do Rio Grande do Sul:

Transparência é transparência. 
E por isto é que se chama de transparência.

Eu lembrei aquela que alguns atribuem ao treinador Dino Sani e outros a um antigo presidente do Coríntians: "em futebol, se perde, se ganha ou se empata". Mais românticos são os que evocaram aquele "uma rosa é uma rosa é uma rosa", de Gertrude Stein.

DdAB
A imagem é daqui e pareceu-me um sapato verdadeiramente transparente. E o mais sensacional é que, com esta filosofia, o governador ganhou mais um fã. Cheguei a pensar em ingressar na justiça com uma liminar de sorte a trocar o voto que dei a Tarso por um direcionado a Sartori!

domingo, 23 de novembro de 2014

Hai-Kai n. 76


Querido diário:

Há quanto tempo não vias um hai-kai daqueles de nosso mundo das trovas? Pois aqui vai o número setenta e seis.

Diz-nos Millôr:

QUE MAÇANTE!
ME FEZ PERDER O DIA
NUM INSTANTE!

Planeta 23 Um:

Num instante,
enxerguei o chafariz:
escapei por um triz!

Planeta 23 Dois:

Num instante,
enxerguei o capataz
e escapei-me num zaz!

DdAB
Imagem: aqui. Com este hai-kai, inicio a trajetória do quarto final do livro de Millôr. Isto significa que, se eu não for de ferro, ou o for, em alguns meses ou anos, terei um livro de trovas.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Mércio, Moisés Mendes e o MAL*


Querido diário:

Leio o jornal Zero Hora como melhor posso, como sabemos, como lamentamos... Mas nem tudo é descontentamento. Por falar em descontentamento, cansei há muito tempo de ler o colunista Paulo Santana, que escreve indefectivelmente na penúltima página do jornal. Mas há algum tempo, não apenas como "interinos", Santana cedeu duas ou três colunas por semana no local de costume a Moisés Mendes. Já sei pilhas sobre a história pessoal do novo cronista, que de novo nada tem, mas me parece bastante inspirado e não vejo nele o ranço conservador que se abate sobre a aura do jornal.

A página 55 de hoje reserva o espaço tradicional à tradicional coluna. Ausenta-se Paulo Santana, entra Moisés Mendes e a postagem, digo, e "Lobos e golpes". Lobos é o singular de lobão e golpes é o plural de gente que quer a volta dos militares ao poder. Não de um general Henrique Dufles Teixeira Lott, que nunca chegou a ele. Nem, talvez, de um general Euler Bentes Monteiro que tampouco chegou por lá. Quais militares? Sem eleição? Lobão, não. Ou melhor, Lobão andou manifestando-se absolutamente contrário ao governo liderado pelo PT e não acompanho tanto a ponto de dizer que ele recomendou a volta da ditadura militar. O fato é que está escrito por Moisés que Lobão desistiu de participar de uma passeata em Sampa em que a palavra de ordem, além de palavrões, era pedir a volta dos militares, mesmo sem eleições.

E daí? Daí é que vem o alias de Moisés Mendes, o seu Mércio. Ele/s t/e/ê/m um vizinho admirável e que, pelo que melhor entendo, levanta uma bandeira disparada pelo Planeta 23. Pois foi por aqui que lançou-se o MAL* (Movimento pela Anistia aos Ladrões Estrela), por ocasião de alguns escabelados quererem o impeachment da então governadora Yeda Roratto Crusius, minha ex-professora e colega. Achei uma falta de cortesia quererem começar a moralidade precisamente para cima da Yeda. E tinha minhas razões. De que adiantaria a assembleia legislativa gaúcha impedir a Yeda e seguir ela mesma a desabotinada roubalheira que por lá percola.

Lançado o MAL* e tendo ele recebido aval nas eleições que acabam de ocorrer no sofrido país, leiamos se a corrupção começou em 1500 d.C. e o que disse o vizinho:

   Até o guarda sabe — e o sabiá começa a entender — que as empreiteiras pagam propinas para superfaturar tudo o que fazem. Outra coisa que seu Mércio sabe: as empreiteiras pagam propinas desde que nasceram. Mas antes o esquema era mais azeitado, ninguém denunciava e ninguém investigava.
   Um vizinho de seu Mércio chegou a achar que a corrupção era uma invenção de agora. Esse vizinho defende que não se mexa no passado dos outros. Pra que revirar nas propinas dos anos 1990, que já foram quitadas, consumidas e esquecidas?


Não sei se o vizinho instila a mesma motivação do MAL*. O MAL*, como sabemos, é contra a hipocrisia e, principalmente, contra os programas de auditório transferidos para a política, como o mensalão, o petrolão, o impeachment sistemático, essas coisas. O problema verdadeiro do Brasil é a impunidade, claro. Mas o principal problema não é o estoque e sim o fluxo que, no devido tempo, acabará com o estoque, expandindo-o ou levando-o a zero. Então o MAL* pensa que, se -a partir do próximo primeiro de janeiro- o roubo parar no Brasil, em 20 ou 50 anos, teremos a mais perfeita honestidade praticada por todos os agentes sociais relevantes. Desabotinada como parece, esta proposta ainda tem o mérito de sugerir que, se for o caso, podemos adiar a implantação da moralidade para daqui a esses 20 ou 50 anos, desde que isto seja feito real, realeja, realarrealmente!

DdAB
Imagem daqui. Procurei por "terá algum mércio entre os ladrões da petrobrás?" e vieram várias mensagens, entre elas a dos irmãos Metralha, claro, pois entre os milhões de agatunados haverá algum Mércio, claro. E o artigo completo está aqui.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Vergonha é Roubar...


Querido diário:

Hoje vi no jornal o resultado de uma presidenta com um governador. O nome dela, bem sabemos, é a Dilma. E o dele o olvido encarrega-se de guardar, não me interessa. O que interessa é que eles dão por pacífico que as investigações sobre as fraudes da Petrobrás não devem impedir as obras públicas geridas pelas empreiteiras corruptoras do dinheiro do pobre continuem.

Eu pensei que tem gente dizendo que a corrupção é endêmica ao povo brasileiro. E me atrevi a pensar que provavelmente quem inventou o ditado "Vergonha é roubar e não poder carregar" terão sido nossos fundadores, os dalém mar. E acho, claro, que isto é uma ironia de nossos amados ascendentes culturais. Creio que um cidadão honesto diz "vergonha é roubar" e o outro, aquiescendo, mas não querendo sentir-se como puxa-saco, complementa "e não poder carregar", como se estivesse apoiando a tese afanásia, mas o que está fazendo é condená-la.

E também pensei no Grande Salto para Frente e na Revolução Cultural, filhos do maoísmo e dos demais desmandos chineses que pararam tudo, tudinho. Aqui, bem sei, nada de útil resultará dos esforços e estrondos. Quando é que chega a hora de parar um país para ajeitar tudo? Talvez, pensando positivamente (isto é, o mais objetivamente possível, sem valorações), o necessário fosse mesmo trazer uma empresa júnior de alguma universidade do norte da Europa e fazê-la administrar não apenas a justiça, mas principalmente o executivo. Fechando os estados, as assembleias de deputados estaduais e o senado federal, já seria um bom passo para o reinício sem os sobressaltos que a negadinha impingiu à vida chinesa.

DdAB
Imagem daqui. Por falar em roubar, não posso omitir as políticas públicas com relação ao trato do lixo urbano, com a terceirização para desvalidos. Empregos informais para lidar com lixo equivale a 15 mil roubos por família brasileira.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Requisitos Einstenianos para a Vida Mansa


Querido diário:

Se tu não tivesses lido o título desta postagem, que dirias do sexteto que segue?

Pencil, paper, pipe, violin, sailing, stroll.
Lápis, papel, cachimbo, violino, velejar, passear.

Eu diria que é a vida que eu pedi a Deus, desde que me fosse permitido trocar algumas das componentes. Talvez algo como lápis, papel (inclusive livros), computador (inclusive PDFs), violão, para-pente (com seguro de vida), correr no Parque Marinha (batendo sucessivos récords de terceira idade).

E de onde tirei estas preciosidades que, admito, seriam mais bem admiradas por um fumante de cachimbo (ver esta postagem aqui) em seus ambientes adequados. Pois tirei-as de

CLARK, Ronald W. (1984) Einstein; the life and times. New York: Avon.

E a certa altura da página 181 li que Isaac Newton usou a expressão "ceteris paribus". Acho natural que o tenha feito, pois é o co-inventor do cálculo infinitesimal, as derivadas parciais, quando tudo o mais deve permanecer constante.

DdAB
E a imagem, a que o Google Images me mandou ao clicar aqui, terá alguma coisa que não compreendi bem. Novamente somos acossados pelo avesso do avesso. Claro que um vasinho florido não é um cachimbo. Aliás a figura do fundo verde não é um vasinho, não é mesmo? E será que vi tudo?

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Mais Esperanças Vãs: mas o Brasil tem jeito?


Querido diário:

No jornal de hoje, leio a entrevista (não aguentei ler tudo, devo dizer) da presidenta do Brasil em viagem à Austrália. Ela diz que o estouro do escândalo da Petrobrás e a maneira como o governo (penso que ela fala no juiz do Paraná e na polícia federal) está lidando bem com a questão, começando a punir os corruptores, essas coisas. E que isto seria o início de nova fase, fase agora de moralidade, no Brasil.

Que posso dizer? Esperanças vãs. Iludida, iludidos como aqueles que achavam que do julgamento do mensalão sairia algo mais do que um espetáculo circense. E agora, que espero? Espero que não se espere uma reforma de modernização do poder judiciário. E, de quebra, uma reforma das alíquotas do imposto de renda, de sorte a reduzir os ganhos daqueles estamentos que se apropriaram do estado e ganham mais de, digamos, R$ 10.000 mensais. 10 mil? Pareço louco? Lembremos que a renda per capita não passa de uns R$ 1.000. Ok, então tá: 15.999 mil. E nem um centavo a mais!!!

DdAB
Imagem daqui. Ok, ok, não sou do PMDB, não votei em Yuri, nem sei em que estado ele concorreu nem em que eleição o fez, teria feito. Não sou infantil a ponto de votar em Juvenil para governador (de onde?) nem em Jader, sob o risco de estar votando em nosso popular Jader Barbalho (aqui).

P.S. O Brasil tem jeito? É como Alice de tamanho grande e o telescópio: disse-nos ela que gostaria de poder encolher-se feito um telescópio. E, depois de saber o primeiro passo (o que ela não sabia), não lhe parecia muito difícil dar os demais. O quê? É que pode ser que um movimento reformista inicie de um jeito que ainda não imaginamos. E depois se torne irreversível. E até pode ser que tenha começado mesmo: o mensalão, o petrolão, as manifestação (epa, gauchês). Eu, por tristeza, estou apostando que não começou nada, pois falta mexer na impunidade, ou seja, reformar todo o sistema judiciário!

domingo, 16 de novembro de 2014

Educação: descobrir os objetivos na vida + empatia!


Querido diário:

Quanto ganha por mês um jornalista com uma coluna quinzenal em Zero Hora, hoje publicada na página 31? E se, além disto, ele for pesquisador do CNPq, reitor da Universidade Estácio de Sá e professor aposentado da UFSM? E daí? Daí que ele paga apenas 27,5% da renda líquida como alíquota máxima. E a bolsa do CNPq de produtividade em pesquisa, ou que nome leve hoje em dia, não paga imposto de renda! E nem o auxílio moradia dos juízes!! E nem montes de coisas que, além de fazerem o imposto de renda virar proporcional - e não progressivo - dão isenções de quebrar pedras em frades.

E qual o lado alegre do artigo de hoje de Ronaldo Mota (ronamota@gmail.com), intitulado "Os empáticos bonobos"? Um lado meio nada-a-ver é que ele faz o substantivo concordar com o artigo e o adjetivo, não é? Filosofei sobre esta peculiaridade não usual hoje em dia aqui. E qual o lado tudo-a-ver? Aprendi algo extremamente importante com ele, algo normativo, mas nem por isto menos importante. Aliás, a definição de educação que volta e meia refiro por aqui também teu seu caráter normativo: auxiliar o indivíduo a descobrir seus objetivos na vida e dar-lhe energia para lutar por eles. E é definição? Educação é o meio que permite ao indivíduo descobrir...

E o professor Ronaldo? Ele fala em empatia:

Educar, contemporaneamente, tem múltiplos objetivos, mas um deles é aumentar nossa capacidade de empatia, ou seja, tentar compreender sentimentos e emoções dos demais, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sentem outros indivíduos. Ao promovermos, pela educação, a empatia, queremos que motivar as pessoas se entendam; portanto, ao desenvolvermos o altruísmo, o amor e o interesse pelo próximo, dotá-las de capacidade de ajudarem umas às outras.

Parece contemplar tudo o que faltava em minha definição operacional! Descobrir objetivos na vida, mas enviesar para o desenvolvimento do altruísmo. Afinal, se não tivesse havido altruísmo entre os bonobos, entre os chimpanzés, entre as bactérias, e tudo o mais, não teria altruísmo nos humanos, aliás, provavelmente não haveria nem humanos. Minha brincadeira de que dois terços da humanidade são altruístas pode errar na cifra, mas não há dúvida de que os caroneiros são uma minoria. Entre eles, destacam-se os políticos brasileiros. Bom domingo!

DdAB
Imagem: existe alguém mais altruísta do que a Madre Tereza (aqui)?

sábado, 15 de novembro de 2014

Eu, Logo Eu, um Aecista?


Querido diário:

Aquele "C" ali no centro do quadrado lógico não tem lógica... Ou melhor, ele serve para mostrar que a lógica medieval está a serviço de Aécio... Ou melhor, besteirol é besteirol...

O que é que temos? O quadrado lógico é uma elaboração dos filósofos medievais sobre a teoria do silogismo de Aristóteles. Ele, quadrado, mostra como certos tipos de proposição se vinculam. Assim, define

A como proposições universais afirmativas: todo homem é mortal
E como proposições universais negativas: nenhum homem é mortal
I como proposições particulares afirmativas: algum homem é mortal
O como proposições particulares negativas: algum homem não é mortal (ou é imortal).

As proposições A e E são contrárias. As proposições A e O são contraditórias. As contraditórias entrecruzam-se dentro do quadrado lógico, o que me levou -dado o besteirol da postagem e o clima de besteirol da política brasileira contemporânea- a sinalizar com um C.

Tradicionalmente, fala-se, na leitura vertical das letras dos vértices do quadrado lógico como "AfirmO" e "nEgO". Pois vi que, inserindo aquele C no centro, fica nada mais nada menos do que o nome de Aécio. E não será isto o que se buscou? Um lógico? Na política brasileira?

E esta postagem pode ser considerada propaganda aecista? Claro que não (ver aqui), o mais provável mesmo é que esta postagem me custe um processo pelo Clube dos Lógicos.

DdAB

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Perfume de Mel: três atores...


Querido diário:

Minha postagem intitulada "Um, literato, outro, não" (aqui) fez muito sucesso, pelo que entendo. Isto implica necessariamente que devo seguir no tema. Três atores -espero que me atures...-, nomeadamente, myself, Victorio Gassmann e Al Pacino. Modestamente sou eu quem tem a menor renda per capita...

Gassmann e Pacino? Claro, falo no filme "Perfume de Mulher", sobre o qual, ou melhor, os quais, já postei aqui. Pois bem. Precisamente no dia 10/ago/2014, adquiri o livro "A Escuridão e o Mel", de Giovani Arpino (São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2001). Nem sei se era mesmo o que eu estava buscando, talvez não estivesse buscando nada, apenas um livro bonito e barato.

Pois então. Este "Il Buio e il Miele" é mesmo o livro que inspirou os dois filmes. O capitão irresponsável que cegou-se (e a seu colega Vincenzo com brincadeiras extemporâneas) com uma granada, algo assim. Capitão malvado, se o livro me leva mais longe do que os dois filmes.

E daí? Pois vai daí que tem uma frase, uma frasezinha lá na página 121 que selecionei para resumir todos os contornos possíveis de uma natureza humana:

Vincenzo também é cego. Mas é uma nada, um vazio. Não entende nem mesmo seu destino. Portanto, não o merece", sacudiu obstinada a pequena cabeça protegida pelo cotovelo.

Casca grossíssima, não é mesmo? E que me veio à mente?

.a. aquela canção de Geraldo Vandré: quem sabe faz a hora. Isto é, quem quer controlar seu destino precisa entendê-lo.

.b. e a famosa frase de Francis Bacon: conhecimento é poder. Se não sei nem como controlar meu próprio destino, que poder tenho?

.c. e a, para mim, ainda mais famosa e citada (por mim, claro) frase que entreouvi ao escutar rádio no ano em que cheguei a Oxford: a educação te permite descobrir teus objetivos na vida e te dá energia para lutar por eles.

DdAB
Imagem daqui. Quando eu descobrir o significado, aviso.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Palavras por Dia


Querido diário:

No outro dia, revendo antigos brinquedos, encontrei um recorte de jornal -talvez Zero Hora- o que presumo ser uma entrevista (em português) com Anthony Burgess (aqui tá ele, não a entrevista...). Seria em torno de setembro de 1987, alguns dias depois de eu ter deixado o cargo de diretor técnico da FEE e outros tantos dias antes de meu retorno ao regime de tempo integral da UFRGS.

-O senhor ainda enfrenta a acusação de escrever em demasia?
Burgess: Dizer que sou prolífico, prolífico e prolífico virou uma acusação gratuita. Mas não é verdade. O que acontece é que sou um trabalhador. Acordo de manhã e tento escrever mil palavras por dia. Não é muito. Eu posso escrever estas mil palavras antes do café da manhã e dispor do resto do dia para mim. Mil  palavras por dia correspondem a 365 mil palavras por ano, o que é apenas a metade de "Guerra e Paz". O que é que há de errado, afinal, em escrever mil palavras por dia? O que eu devo fazer, no lugar? Jogar golfe? Passear de barco? Jogar bridge? Eu prefiro trabalhar!

Primeiro, gostei desta do "prolífico, prolífico e prolífico", para iniciar a argumentação de não ser prolífico... Eu sempre penso, quando se trata de avaliar a importância intelectual de Marx, em quanto tempo eu mesmo gastaria para passar a limpo as obras completas dele e Engels à mão ou no teclado. Se bem lembro, minha tese de doutorado tem mais ou menos o "tamanho" do ano de trabalho de Burgess (eu levei quase cinco...). E se bem lembro o máximo que à época era permitido na University of Oxford era 380 mil palavras em toda a tese. Se quisesse escrever mais (por exemplo, uma tese de história) teria que pedir e ganhar autorização. E se bem lembro, chocou-me uma frase -suponho- de Stravinsky que dizia, para a música, que se tens algo a dizer, dize-o logo e pronto. Concisão, simplicidade: são virtudes do tempo. Já houve tempo em que mesmo os gordinhos estavam na moda. Com efeito, duvido que alguém diga que Tolstói poderia ter resumido "Guerra e Paz" a um conto de 25 páginas, não é mesmo?

Mas também achei que aquelas 1.000 palavras por dia renderam-lhe algum dinheirinho, tanto é que ele escrevia antes do café da manhã e pode jogar bridge, golfe ou passear de barco no restante do dia, hehehe. Mas, pela Wikipedia parece que ele gastava parte de seu tempo fazendo música.

DdAB

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Desigualdade na Distribuição de... m^2


Querido diário:

Diz a página 18 do jornal Zero Hora de hoje que o finado (epa!) ministro Joaquim Barbosa, do supremo tribunal,

[...] ainda não devolveu o apartamento funcional que a corte colocou a sua disposição quando era ministro da ativa. Aposentado desde 31 de julho, Barbosa já deveria ter entregado o apartamento de 523 metros quadrados localizado em área nobre em Brasília.

513? E qual é a dimensão das casas do programa "Minha Casa, Minha Vida"? Serão apenas 3m^2 ou chegam a 23m^2? Apartamento na área nobre da Belacap? Esta desfaçatez dos governantes brasileiros é que me deixa louco. Em particular, sou pelo fechamento do poder judiciário, como me foi dito ter sido feito na África do Sul! E também sou pela substituição do chefe da secretaria da receita federal que aceita este tipo de golpe pueril no imposto de renda e proventos de qualquer natureza.

E quem alimentou a mais mínima esperança de que aquele "julgamento do mensalão" era algo simbólico, prenunciando a volta da vergonha na cara do sistema judiciário brasileiro, como dizem em Jaguari, "estoporou-se". E quem alimenta a esperança de que os próximos quatro anos vão resolver os grandes problemas brasileiros também está no caminho jaguariense.

DdAB
P.S. Nâo sei se a foto acima é o equivalente em área da casa do ministro em moradias do "Minha Casa, Minha Vida". O fato insofismável é que tirei a imagem daqui. Tenho pensado em solicitar auxílio moradia prá mim também. Alegação: muita bebida sendo armazenada em pouca área.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Um, Literato, Outro, Não


Querido diário:

O título de hoje estava prontinho para me depreciar, dizendo que Giorgio Bassani é literato e eu não sou. Mas, depois de ter assestado aquelas três vírgulas no meio de quatro palavras, achei que também faço das minhas... E estas reticências??? Igualei o número de vírgulas em poucos instantes!!!

Pois bem:

BASSANI, Giorgio  (2002) Óculos de ouro. São Paulo: Berlendis & Vertecchia. Coleção Letras Italianas. ISBN: 85-86387-55-X.

{Esta explicitação do International Standard Book Number dá uma ideia não agora de minha literatice mas academicice}. {A coleção Letras Italianas tem uns livrinhos bem maneiros, alguns dos quais ainda comentarei por aqui}

E Bassani? A Rose Bassani? Óculos de ouro é um livro instigante. Não falarei muito, pois minhas literatices são rasas, tanto quanto a moralidade dos políticos brasileiros contemporâneos. Falarei em coisiquinhas de três páginas.

A primeira página de que falo é a página 17 do livro, que se espraia pela 18. Então lá vai:

[...] estendia-se um enorme painel publicitário escarlate, que convidava amigos e adversários do socialismo para beber em harmonia o APERITIVO LENINE; quase todo dia, havia uma desavença entre camponeses e operários maximalistas(1), de um lado, e ex combatentes de outro...
[Maiúsculas, nota de rodapé e reticências no original. Na nota, lê-se:
(1) Corrente política originária de uma dissidência do Partido Socialista Revolucionário russo. (N.T.)

E o final de meu colchete? Os maximalistas, segundo aprendi no artigo de Martin Bronfenbrenner (aqui e parece que não está na postagem), os maximalistas sugerem que a escassez poderá ser debelada, caso todo mundo trabalhe dois anos durante se curso de vida! Parece que há os da Rússia e os do Bronfa...

Na página 38, tem uma frasezinha que nos leva a pensar no futuro da literatura universal quando acabar de vez o maldito hábito/vício de fumar. Por ora acabou somente o cigarro sem filtro (se é que a Nazionale não é cigarrilha):

   Sua pergunta foi recebida com muitas risadas. Deliliers sentara-se e acendia uma Nazionale. Tinha a mania de acender os cigarros do lado da marca, sempre com muita atenção para não errar.

O que parece óbvio é que o indicador do "lado certo" é a marca e não o filtro. Ergo os cigarros ou cigarrilhas não portavam filtros.

Finalmente, digo eu, temos na página 109 a expressão cui bono, só que, desta vez, em francês:

Por isso, eu também me questiono: à quoi bon

Este "à quoi bon" evocou e confirmei que era mesmo o cui bono que aprendi lendo "A economia brasileira: crítica da razão dualista", de Francisco de Oliveira. Agora mesmo olhei a Wikipedia (aqui) e vi um monte de coisa, inclusive a expressão equivalente cui prodest. Chico falou algo como "a pergunta do advogado". Até hoje busco entender melhor isto. Seja como for, na medida em que -na condição de economista- dedico-me a alardear as virtudes da sociedade igualitária, sempre que começo a avaliar o que quer que seja indago: quem se beneficia?

DdAB
Imagem aqui.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A Chegada de "O Tempo e o Vento"


Querido diário:

Como bem sabemos, "O Tempo e o Vento" é a ciclópica (epa!) obra de Érico Veríssimo. "O Continente" veio a público em 1949, "O Retrato", em 1951 e "O Arquipélago", em 1961. Nessa época, eu ainda não era observador participante deste tipo de recorte. Na verdade li os sete volumes (2+2+3) das edições lá do final dos anos 1960s. E reli há poucos meses, talvez nem um ano. E relerei em breve novamente. Como sabemos -e este parágrafo recende ao marcador "Vida Pessoal"-, criei uma rotina de ler a obra completa de Érico nos sucessivos outono-invernos de minha vida.

OK. Talvez eu tenha lido "O Resto é Silêncio", um lindo título shakesperiano (sic) lá naqueles priscos anos de minha  vida. O certo é que adquiri o livro publicado em 1943 (o último antes de "O Continente") em 18/jun/2008 e terminei de lê-lo em 13/julho/2008. E o reli, começando em 18/jul/2014 e terminando em 1st/ago/2014. So what, como diria o próprio Érico, esmerado tradutor da língua de Shakespeare e vivente da cultura americana por vários períodos, um ou outro deles bastante prolongados, quando trabalhou na O.E.A. em Washington, D.C.?

Pois bem. Talvez na releitura deste ano eu tenha começado a anotar (será que sempre notei?) tiradas que -post factum- deixam-nos crer que Érico estava dando dicas sobre o que lhe ia na cabeça, projetos para o futuro. Destaco, claro, o que pude ler em "O Resto é Silêncio". Pois muito bem. Lá na página 158 de minha edição (Porto Alegre: Globo, 1981), diz o narrador onisciente:

A cena parecia passar-se ao mesmo tempo naquela praça de Porto Alegre e no pátio da casa de Tônio em Sacramento.

Ou seja, Tônio nasceu em Sacramento! Sacramento? Tônio? Sim, claro, o romancista que centra um dos polos da história da garota que se jogou (ou foi jogada?) de um edifício na "Rua da Praia" em Porto Alegre e, assumidamente, testemunhado por Érico. Bons tempos em que a "Rua da Praia" e o restante da cidade de Porto Alegre não tinham uma camada de lixo que amorteceria qualquer queda, impedindo os suicídios...

O mesmo nome da República do Sacramento, a terra de Gabriel Heliodoro, o embaixador do título de Sacramento em Washington, D.C., se esta frase não é estranha... Gabriel é um dos sóis de um sistema binário em que o outro é Pablo Ortega, também angustiado, também escritor, também Érico.

Em outras palavras, não foi agora que chegou "O Tempo e o Vento", que já chegara muito antes, mas não é impossível que Érico tenha ido buscar o nome da republiqueta de bananas precisamente no que lhe ia pela alma 20 anos antes. Não é à toa que, duas páginas depois, Érico de "O Resto é Silêncio" vai falar da torre d'O Sobrado de "O Continente", peça importantíssima para o desenvolvimento de toda trama, ou melhor de ambas as tramas, a de nosso livro de hoje e de "O Tempo e o Vento". Portanto:

Número dois. Página 160. Olha só:

   No meio desse mundo [lá o dele...] Tônio crescera caladão e pensativo. A morada dos Santiagos fora construída em 1850, pelo pai de vovô Leonardo, um homem de fantasia excitada e gestos quixotescos. Mandara erguer no centro da casa uma torre da altura do campanário da igreja local; 'Pra quê, seu Mingote?' - perguntaram-lhe. E ele respondeu: 'Pra lá de cima eu olhar a estrada e ver quem vem vindo. Se é inimigo, apronto a minha pistola. Se é amigo, mando preparar a cama e aquentar a água pro chimarrão'. Em Sacramento a casa dos Santiagos ficou sendo conhecida pelo nome de 'a Torre'.

Vou parar e comentar. Primeiro eu já notara que ele não coloca vírgulas que hoje nos são familiares, como a que omiti entre "primeiro" e "eu já notara". Segundo, lá n'O Sobrado, também amigos eram identificados na Torre e inimigos eram observados e rechaçados, quando fosse o caso. Olha "os Santiagos". Lembrar disto, ao reler "O Resto é Silêncio" permitiu-me dizer que se tratava mesmo de uma releitura, pois fiquei com esta imagem daqui e de outras obras de Érico, que faz o adjetivo concordar com o substantivo, como hoje em dia não mais fazemos. Eu, primeiro, achara pernóstico, meio americanizado em excesso. E depois fiz o raciocínio que acabo de repetir: se o adjetivo está no plural só pode ser que o substantivo que o rege esteja no plural, não é mesmo? Novo parágrafo:

   A respeito dela ['a Torre'] Tônio ouvia contar histórias que lhe eram gratas à imaginação. Dizia-se que um remoto Santiago, desgostoso com a morte da mulher, passara vinte anos enclausurado na torre sem descer, sem receber amigos e sem mesmo olhar para a rua. Só deixara o sombrio refúgio depois de morto, metido num esquife fechado. Corria também de boca em boca a história dum tio-avô solitário e esquisitão, que costumava ir encerrar-se no quarto da torre, ficando lá dentro horas e horas, num absoluto silêncio. Quando tornava a descer, vinha assobiando baixinho, de olho alegre. O que ele fazia assim escondido, ninguém sabia com certeza. 'Vai contar dinheiro...' - afirmavam uns. 'Não - retrucavam outros - ele deve ter um vício secreto. Um dia, acharam-no morto, caído de borco sobre a mesa, por cima dum papel escrito. Julgaram que fosse um testamento. Era apenas um soneto. Encontraram ao pé do defunto, num baú de lata, maços e maços de papeis com versos. O homem se fechava para fazer 'aquilo', e não dizia a ninguém!

   Mas entre todas as histórias da família, a de que Tônio mais gostava era aquela espécie de lenda que se tecera em torno de tia Glória, uma velhinha magra, de voz branda, gestos duma delicadeza acanhada e um sorriso permanente na boca de lábios murchos. Contava-se que aos dezesseis anos ficara noiva dum capitão. Veio, porém , a guerra com o Paraguay e o noivo marchou para a frente de batalha com o seu regimento de lanceiros. Um ano depois chegou a Sacramento a notícia de que ele havia desaparecido na ação. Morto? Prisioneiro? Ninguém sabia. Um sargento que voltara mutilado, garantia tê-lo visto traspassado por um tiro. Mas tia Glorinha recusou-se a botar luto. 'Tenho o pressentimento de que ele vai voltar...' - dizia ela com seu sorriso tímido. Todas as tardes subia ao mirante da torre e lá ficava até o anoitecer, escrutando a estrada, esperando avistar o vulto do seu cavaleiro, do seu belo capitão de barba castanha. Fez isso todas as tardes, durante quase trinta anos. Depois, não teve mais forças para subir as escadas da torre e, caduca, começou a confundir o noivo com o rei Dom Sebastião de Portugal. Tônio guardava ainda uma doce lembrança dessa tia quase lendária, cujo retrato ainda conservava. Recordava-se de tê-la visto um dia encolhida e enrolada num xale, junto duma vidraça, mascando fumo e olhando a chuva de setembro cair lá fora...

   Para Tônio a torre era um território mágico. Gostava de sua sala circular, de suas paredes onde o tempo, a umidade e a poeira haviam desenhado figuras fantásticas. Os móveis antigos (céus, aquele espelho de moldura bronzeada dava à gente medo de se mirar nele), os móveis também tinham uma fisionomia particular que não era bem deste mundo; contavam histórias, prometiam segredos. Para a imaginação de Tônio a torre era sucessivamente o esconderijo do tesouro dum pirata, refúgio dum gênio bom, farol, ilha, barco, balão... Uma hora era o deserto africano, na outra transformava-se numa cidade da China, num navio perdido no mar ou num planeta povoado de monstros. Tônio enfurnava-se na torre para ler novelas e folhetins, velhas brochuras amareladas com cheiro de coisa antiga. João de Calais e a Princesa Magalona, Os Três Mosqueteiros, Cinco Semanas em Balão...

   Quando o pai e a mãe ralhavam com ele, ou quando alguma tristeza ou preocupação o assaltava, era na torre que ia chorar as mágoas, desabafar a cólera ou esquecer os cuidados. Descia de lá de alma leve, alegre ,feliz, novo...

   Mas não era sempre que gostava de subir para o refúgio.; A maior parte do tempo vivia fascinado pelo movimento da casa, pelas pessoas com quem vivia Tinha um desejo permanente e alvoroçado de conhecê-las melhor, de saber como eram por dentro. Acariciava a esperança de apanhá-las um dia num movimento desprevenido e descobrir-lhes os segredos mais íntimos.

E segue ainda alguns parágrafos falando do casarão. Tia Glória, velhinha, esperando um noivo perdido na guerra do Paraguay? Capitão? Guerra do Paraguay? Estamos falando de um proto-capitão Rodrigo! Mascando fumo, caduca? Só podia ter inspirado a velha Bibiana. O espelho que até dava medo? Seria a proto-pintura de "O Retrato"? E o próprio Tônio não é Érico, da mesma forma que Florêncio, Pablo e tantos intelectuais de seus futuros romances?

Olha a página 170:

   Talvez eu possa escrever o romance dessa pobre menina. Uma história humana, compreensiva...
   Mas uma outra parte de seu eu exclamou: O que queres é apenas pretexto para um livro. Confessa que te alegras com os dramas do mundo, pois sem eles não alimentarias o teu apetite de contador de histórias.

Olha só: Érico viu o salto da moça para o abismo da Praça Senador Florêncio [Florêncio???], como ele mesmo diz no prólogo do romance, terá percebido o silêncio que restou. Fez Tônio fazer sua autocrítica, como volta e meia as personagens alter do narrador fizeram, fariam, seu voyareurismo confessado no trecho que transcrevi.

Página 211-2. Falei em Rodrigo Cambará, no capitão Rodrigo? Pois olha:

Aristides não respondeu. Era justamente aquilo o que ele temia. Imaginava o velho na estância do Cambará, querendo mandar em tudo, entrando em conflito com o capataz, despedindo empregados e - quem sabe? - criando casos com os vizinhos.

Estância Cambará? Sobrenome de Rodrigo? Very suspicious... E que vem mais?



Página 318:

[...] Às vezes [Tônio] ficava eufórico, comunicativo, desejoso de ver gente, de falar com as pessoas, de dizer-lhes coisas agradáveis. Eram os momentos em que predominavam os Santiagos, espadachins imaginosos até a mitomania; os Santiagos homens de sociedade (e nem por isso menos personalistas) que sabiam ser amáveis e fazer-se queridos. Em muitas horas, porém, Tônio sentia no sangue os antepassados do lado materno. Os Terras eram bisonhos homens do campo, práticos e secos, destituídos de imaginação, fanáticos do trabalho, da honra e do cumprimento do dever.

Pois não é direto o Florêncio? O próprio dr. Rodrigo, o capitão Rodrigo? Mitômano? Pois aí temos declaradamente o prof. Libindo, mitômano de "Incidente em Antares" e os Terras, antepassados do lado materno. Os Terras? Pode ser mais "O Tempo e o Vento", Juvenal, Flora, a mãe de Floriano? Pois então, para concluir:

Página 401, sabendo que o livro termina na p.407:

   Ao embalo da música ( o scherzo tinha ainda uma nota melancólica; era a alegria constrangida do homem que pressente os instantes dramáticos que estão para vir) o romancista [nomeadamente, Antonio Santiago, Tônho] ficou a pensar na qualidade novelesca da vida e na misteriosa riqueza daquele minuto - soma de milhões de outros momentos através do tempo e do espaço, dos sonhos e das almas.

   No princípio eram as coxilhas e planícies desoladas, por onde os índios vagueavam nas suas guerras e lidas. Depois tinham vindo os primeiros missionários; mais tarde, os bandeirantes e muitos anos depois os açorianos. Sob o claro céu do sul processara-se a mistura das raças. Travaram-se lutas. Fundaram-se estâncias e aldeamentos. Ergueram-=se igrejas. Surgiram os primeiros mártires, os primeiros heróis, os primeiros santos...

   Passeando o olhar pelo teatro, Tônio pensava na distância que ia do primitivo "Presídio do Rio Grande" àquele exato momento em que remotos descendentes de índios, portugueses, paulistas e espanhóis escutavam o allegro da Quinta Sinfonia. Como podia alguém dizer que a vida era monótona e sem sentido? Para verificar o absurdo dessa afirmação, bastava examinar o conteúdo de cada simples segundo.

   Muitas vezes, nas suas horas de cepticismo, Tônio sentira-se inclinado a dizer que sua geração havia herdado dos antepassados apenas retratos de generais e estâncias hipotecadas. Mas não! era uma afirmativa falsa, além de literária. Os retratos de generais valiam como História. A hipoteca das estâncias podia ter um sentido social, pois talvez significasse o princípio do fim do latifúndio.

   Quantos milhares de homens tinham lutado, sofrido e morrido para mante a fronteiras da pátria? Que soma de sacrifício, de fé, esperança e coragem havia sido necessária para que o Brasil continuasse como território e como nação?

   Sim, ele não devia esquecer os homens que tinham construído cidades e desbravado sertões, repelido o invasor e criado ou consolidado uma tradição.

   A essas reflexões o espírito de Tônio se enchia de quadros e cenas, vultos e clamores. Ele via o primeiro trigal e a primeira charqueada. Pensava na solidão das fazendas e ranchos perdidos nos escampados, nas mulheres de olhos tristes a esperar os maridos que tinham ido para a guerra ou para a áspera faina do campo. Imaginava os invernos de minuano, as madrugadas de geada, as soalheiras do verão e a glória das primaveras. As lendas que iam surgindo nos matos, nas canhadas nos socavões da serra, nos aldeamentos dos índios e nas missões. As povoações novas que surgiam e as antigas que cresciam, transformando-se em cidade. Refletia também sobre o fascínio das planuras largas que convidavam às arrancadas e à vida andarenga. E sobre a rude monotonia da rotina campeira - parar rodeio, laçar, domar, carnear, marcar, tropear, arrotear a terra, plantar, esperar, colher. Pensava também na luta do homem contra os elementos e as pragas. Por sobre tudo isso, sempre e sempre o vento e a solidão, os horizontes sem fim e o tempo. A cada passo, o perigo da invasão, o tropel das revoluções e das guerras. E ainda as criaturas tristes e pacientes esperando, vendo o tempo passar com o vento, e o vento agitar os coqueiros e os coqueiros acenar para as distâncias.

   Havia ainda mulheres de luto pelos homens mortos na última guerra quando chegaram os primeiros colonos da Alemanha e mais tarde da Itália. De novo processaram-se mistura. Vieram novas revoluções. Cresceram as cidades e os cemitérios. Os primeiros trilhos da estrada de ferro foram deitados no solo do Rio Grande. Ergueram-se os primeiros postes telegráficos. E o vento eterno levou para as nuvens a fumaça das locomotivas.

[...]

   Tônho olhou para [sua caçula filha] Rita. Por parte de Lívia [sua esposa], corria nas veias da menina sangue italiano e alemão, de mistura com o sangue do negociante Mingote Santiago e do tropeiro Simeão Terra, descendente dos índios minuanos. Não seria de admirar se aquela criaturinha de pele de leite e olhos azuis fizesse um gesto, dissesse uma palavra ou tivesse um desejo que lembrasse os remotíssimos ancestrais que havia trezentos anos andavam a cavalgar potros semi-selvagens e a bolear avestruzes nas campinas do Quaraí.

"Através do tempo?" O tempo e o vento? Lívia com acendentes alemães e italianos não seria, agora vem biografia novamente, Mafalda, a esposa de Érico? Tropeiro Simeão Terra? Tá na hora de parar. Depois de "O Resto é Silêncio", Érico publicou "A Volta do Gato Preto", relato da segunda viagem aos Estados Unidos, em 1946. E lembremos o que já referi, publicou "O Continente" em 1949.

DdAB
Esta capa feinha é a de meu próprio livro.

sábado, 8 de novembro de 2014

Ideologia e Falsidades Grosseiramente Mesquinhas


Querido diário:

Um sr. Marco Antonio Costa Souza, advogado, escreveu hoje na p.19 do jornal Zero Hora o artigo "Tributo a Paulo Renato: ENEM e FIES". Tributo a Paulo Renato? Um bom gaúcho, filho do ex-presidente do Grêmio, o deputado Renato Souza. Economista de respeito, Paulo Renato foi reitor da Unicamp, secretário da educação em São Paulo e ministro da educação em Brasília. Um bom ministro. Ok, há quem seja contra, há quem veja nele um agente da privatização das universidades públicas, aquelas coisas da oposição.

O Bacharel Costa Souza poderia ter seu artigo restrito a um parágrafo: Paulo Renato Souza criou, no governo FHC o ENEM e o FIES e devemos saudá-lo por isto, mas a bacharel Dilma Rousseff não reconhece estes fatos históricos.

Mas veja só:

   A primeira e grosseira inverdade dita pela candidata reeleita [isto é, nossa bacharel Dilma Rousseff] refere-se ao FIES, pois o mesmo foi criado em 1999, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, sob comando e inspiração de Paulo Renato Souza, então ministro da Educação.

Não falei? Aqui diz tudo sobre o FIES, mas ainda tacha a presidenta de expelir "grosseira inverdade". Isto é uma ofensa pessoal, não é mesmo? O bacharel fala agora do ENEM:

   Adiante, Dilma Rousseff novamente faltou com a verdade. [...] Nada mais falso e mentiroso. [...] Ao tentar adonar-se indevidamente da criação do ENEM (através de uma falácia grotesca) e do FIES, a candidata reeleita concedeu ao ex-ministro Paulo Renato o reconhecimento que lhe faltava.

Faltava, articulista, faltava reconhecimento? Fico admirado com os rumos a que nossa ideologia nos remete. Ou ele está apenas dizendo que Paulo Renato não descansou em seu túmulo, pois a turma do PT não lhe reconhecia os méritos? A verdade é que Paulo Renato tem méritos reconhecidos por milhares ou milhões de brasileiros envolvidos com a educação e a economia. Mas vem mais, novamente contra Dilma:

   Neste caso [reconhecer méritos de Paulo Renato], Dilma Rousseff não poderá dizer que não sabia ou que não disse, pois suas palavras foram ouvidas e testemunhadas por milhões de brasileiros que não mereciam ser brindados com falsidades tão grosseiramente mesquinhas [...].

As falsidades grosseiramente mesquinhas fazem parte do grupo das proposições grosseiramente mesquinhas, algumas verdadeiras e outras falsas, portanto algumas delas também pertencendo ao conjunto das proposições verdadeiras. Digamos que Paulo Renato tenha mesmo sido avaliado unanimemente por pessoas de bom-senso como o criador do ENEM e do FIES e mesmo da bolsa família e até inspirador da lei federal 10.835/2004 que instituiu a renda básica da cidadania (aqui).

Será que o tributo que o bacharel Marco Antonio Costa Souza presta com este artigo a Paulo Renato Souza não poderia seguir, talvez, o mesmo rumo mas omitindo as seguintes expressões?

.a. grosseira inverdade
.b. faltou com a verdade
.c. falso e mentiroso (não, claro, o finado Paulo Renato)
.d. adonar-se indevidamente
.e. falácia grotesca
.f. falsidades grosseiramente mesquinhas.

Ideologia? Claro que só pode ser a raiva que move o bacharel a ofender desta maneira a bacharel, quando uma sentença bastaria para falar mal do governo eleito e reeleito e vários outros seriam de bom tamanho para saudar o finado ministro, também bacharel em economia, como Dilma e myself. Mas para aí a ideologia? Claro que não: como é que pode um jornal que se diz "independente" e que seleciona entre dezenas, centenas de artigos o que publicar nestes espaços? Ideologia. Ideologia da raiva, da derrota eleitoral mal digerida, essas coisas. Eu gostaria de, em breve, sofrer uma derrota apenas para testar meu humor: será que eu atribuiria ao juiz os méritos do adversário? Vejamos amanhã, pois tem Gre-Nal. Como sou torcedor de ambos, dificilmente sofrerei uma derrota...

DdAB
P.S. Aproveito para pedir que qualquer tributo (inclusive obituário...) que venha a ser-me prestado atenham-se a opiniões de meus amigos e não de meus desafetos...
P.S.S. Buscando a expressão "falsidade grosseiramente mesquinha", encontrei aqui esta linda imagem.

Post Scriptum: às 18h37min de 9/nov/2014 acrescento: vim a saber, durante uma festinha, que o autor do tributo é irmão do homenageado.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Os Juízes e o Resto da Macacada


Querido diário:

Ontem, um amigo dileto telefonou-me para dizer que eu cometera um erro na postagem que ontem mesmo fiz. Fui lá, refiz o erro e mantive o amigo! No mesmo telefonema, ele indagou por que todas as minhas postagens recentes começam com "querido diário". Respondi: porque sim. Ele anuiu.

Esta de termos opiniões fortes e um tanto imbeciloides sobre ações que nós mesmos praticamos levou-me a pensar nos juízes. Já falei há tempos ser de opinião que, a cada vez que ocorre um escore de 6x5 entre os 11 ministros do supremo em qualquer tema, os cinco perdedores devem ser postos no olho da rua e convocados mais outros cinco. [Isto, claro, se não conseguirmos demitir todo mundo e contratar a empresa júnior de que costumo falar, atrelada à faculdade de direito de alguma universidade do norte da Europa, voltando-se a administrar o sistema judiciário no Brasil.]

Vi em boa meia dúzia de locais na Zero Hora de hoje (que não tenho comigo neste momento da postagem) notícias que me deixaram de cabelo em pé. Pouco falei até agora da decisão de um dos apaniguados de Brasília sobre pagar o "auxílio moradia" para toda a turma, em todos os estados, em todos os escaninhos judiciários. Claro que ainda milhares de outros vão querer estender o auxílio moradia de R$ 4,3 mil para delegados de polícia, assistentes de deputados, essa turma. E, no embalo, não duvido que algum deputado faça um projeto de lei elevando a bolsa família em, digamos, 1% (para não acostumar mal a mulherada que fica conversando no portão da vila).

Há cálculos no jornal sobre repercussões financeiras já agora mesmo, outubro passado, novembro corrente, dezembro a chegar. Primeiro: isto é uma insanidade. Segundo, o ministro que deu este direito é um descalibrado. Terceiro: este dinheiro nem paga imposto de renda. Quarto: a lei do orçamento, no a fã de atender ao tirocínio do ministro, foi quebrada. Ou, se não foi, o dinherinho da macacada entrou em alguma despesa de contingenciamento. Pode?

DdAB
Educativa imagem dos atributos do sistema judiciário brasileiro: da "Feira da Ladra" em Lisboa. Feira esta citada num dos romances de Eça de Queirós.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Investimento e Poupança: crazy explanations


Querido diário:

Há alguns anos (umas décadas), Paul Romer escreveu na NBER Macroeconomics Annual, v. 2, um artigo intitulado algo como "Crazy explanations for the productivity slowdown". E fico apenas com aquele negócio de explicações abiloladas. Indago-me como é que pessoas detentoras de razoável formação intelectual sugerem que a poupança gera o investimento.

Senão vejamos. O equilíbrio contábil mais óbvio é aquele que, por construção, iguala o investimento, uma conta que resulta de ações comportamentais dos agentes econômicos, à poupança, uma conta que surge como simples necessidade de coerência do sistema, uma conta de saldo.

No modelo elementar, o investimento iguala a poupança total. No modelo mais realista, a poupança se subdivide em poupança das famílias, poupança do governo e poupança externa. E, claro, a soma destas três deve dar conta da poupança total.

É que, no modelo keynesiano elementar, definidas as óticas de cálculo de tal ou qual forma, não resta dúvida de que,

.a. Y = C + I (ótica da demanda final)
.b. Y = C + S (provavelmente ótica de nada!)
[Certamente, se a poupança esteja localizada no quadradinho da renda em uma matriz de contabilidade social, isto é, se houver poupança dos fatores diretamente contabilizadas como tal, a poupança entrará na contabilização da renda. Mas este caso improvável implica que a poupança das instituições seja nula, ou seja, que as famílias igualaram receita e despesa, que o governo igualou receita e despesa e que os empresários exportadores de bens e serviços venderam um montante monetário (em moeda externa) exatamente igual ao que os produtores despendera no exterior na forma de importação de bens e serviços. Pode?]

Então, por esta equação viciada I = S. Segue-se o pior. Se é mesmo que o investimento é função da poupança, então a matemática sugere:

I = f(S)

Mas, uma vez que, como acabamos de dizer, supusermos que I = S, podemos reescrever este Y = f(S) como

I = f(I),

ou seja, o investimento é função do investimento, de si mesmo, de sizinho da silva. Claro que isto é verdade, de acordo com o primeiro princípio da filosofia, nomeadamente, I = I, ou seja, o ser é idêntico a si mesmo.

DdAB
Moral da história: as crazy explanations são minhas ou de milhares de outros?

Imagem: um Goya intitulado Hospício, pintado entre 1812 e 1819, conforme a Wikipedia aqui.

P.S. se quisermos dizer, menos imbecilmente, que o investimento deste ano depende da poupança do ano passado, chegamos a

It = g(St-1)

E, claro,

It = g(It-1),

o que nos leva àqueles modelos econometricamente pobres chamados de "variáveis defasadas", ou Koyck-Nerlowe, né?

P.S.S. Às 9h40min fiz uma bruta retificação naquele [...] que seguiu-se à equação Y = C + S. Fui socorrido por um telefonema anônimo que disse que eu estava tão entusiasmado em achincalhar a direita raivosa que cometi um achincalhe contra minha própria tradição de contabilista social. Anuí e retifiquei. Espero que o erro involuntário não comprometa o orçamento doméstico de ninguém.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

What is on a man's mind segundo Érico Veríssimo


Querido diário:

Tenho a comentar nestes escritos três eventos separados por muitos anos cada um deles. O mais recente é o que estou escrevendo agora...

O de nível intermediário também exibe minha pessoa como protagonista. Lá por volta de 1972, algo assim, ganhei de presente um "póster" (como se dizia então) que vemos na ilustração da postagem de hoje: what is on a man's mind. Trata-se de uma imagem pública, mas que encontrei em um site adiante referido e muito interessante. É divertido e sempre fico a dever-me estudar mais a origem e desenvolvimento deste tipo de gravura: atira no que viu e recolhe o que não viu. A mais velha que conheci era de Carlos Estêvão (aqui), legitimamente chamadas de "as aparências enganam": pura ilusão de ótica gerando, entre o original e a distorção, situações inomináveis.

O terceiro nível está comigo desde pelo menos desde o final do inverno deste ano. Mas foi plantado há muito mais tempo. Falo do romance "O Resto é Silêncio", de Érico Veríssimo, publicado em 1943 e que li/reli/relili naquele agosto que já se faz longínquo nos dias que correm. A rigor, Freud não teria capturado o completo conteúdo da missa. O capitulo 35 tem seu iniciozinho na p.342 da edição Globo de 1981 e diz:

Em certos círculos costumava-se dizer que se abrissem a cabeça de Aurélio encontrariam dentro dela principalmente duas coisas: uma mulher despida e o último modelo de automóvel. Era uma maneira um pouco rude mas assim mesmo expressiva de determinar as preocupações dominantes do rapaz.

Achei interessante não tanto a capacidade de um automóvel caber na cabeça de um rapaz, mas principalmente a imagem que foi incorporada por algum europeu tantos anos depois.

DdAB
P.S. a imagem veio daqui, um site interessante cheio de "optical illusions", como ele diz. Aqui postei uma ilusão destas um tanto mais circunspecta, acompanhada de um texto maravilhoso de Mario Bunge e variações desabotinadas de minha própria autoria. E a enciclopédia está aqui.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O Brasilzão da Direita e seu Mal-Entendido


Querido diário:

Ainda ontem ouvia falar na questão das eleições: quem ganhou e quem perdeu. No outro dia, mostrei (aqui) um mapa de resultados no nível municipal. Nele a superioridade flagrante de Aécio em todo o sul-sudeste deixa de aparecer como tal. Ao contrário, evidencia-se que há apenas enclaves azulões (vitória expressiva de Aécio) e muito azulzinho (vitória moderada de Aécio), mais ou menos equilibrando o cor-de-rosa (vitória moderada de Dilma).

Mas não tenho dúvida: quem perdeu foi mesmo o progressismo. Quem perdeu foram os movimentos de junho de 2013. Montou-se um congresso nacional mais conservador do que o que ainda mama. E fala-se muito na "oposição" ao novo governo. Muito lamento. Muito eu lamento, na verdade.

Percebo que as forças conservadoras do jeito que estão estruturadas esquecem que tanto o vermelho quanto o azul do mapa defendem programas social-democratas. Como tal, haveria espaço para o debate e não para a luta (estou evocando Anatol Rappoport). Eu penso que o estado nacional é apenas mais um entrave para a busca do governo mundial que precisa ser apressada especialmente por causa das fraquezas do meio-ambiente e do aquecimento global. Políticas locais não têm incentivos adequados a se tornarem efetivas. E de nada adianta um gigante como o Brasil tornar-se "sustentável", se os demais gigantes e pigmeus permanecerem poluindo como se o planeta não tivesse uma capacidade de carga máxima (para cada nível tecnológico).

Minhas reflexões de hoje não são tecnológicas, na verdade. Elas são eminentemente políticas. Falo das virtudes (louvadas pela direita brasileira e a correspondente esquerda, todo o espectro político, na verdade) da sociedade igualitária. Sem igualitarismo planetário -que deve emergir, normativamente, de um governo mundial- não há solução.

DdAB
Imagem aqui. Aquilo ali é um gol de mão. Parece que muita oposição ao governo, torná-lo imóvel (e não playing mobileing), é gol de mão. O país não pode esperar mais quatro anos para que novas eleições corrijam os mal-entendidos que as urnas trouxerem nas presentes.

domingo, 2 de novembro de 2014

Industrialização: pelo sim, pelo não...


Querido diário:

Quando apresentei meus seminários sobre a reprimarização da economia brasileira, também falei em minha intuição expressa retoricamente como "engenheiros criam tratores, tratores não criam engenheiros". Queria dizer que é necessário investir nas escolhas e não nas fábricas. Mesmo porque fábricas requerem engenheiros, claro, mas escolas, requerem muito mais coisa. E também falei esperar ter coragem para perseguir um pouco mais estas intuições que contrariam o conhecimento comum, inclusive o que me foi inculcado ao longo dos anos.

A ficha caiu quando passei a entender (há milhares de anos) que aquele "efeito tecnológico" que se obtém ao decompor a variação da produção entre "tecnologia" e "demanda final" no modelo de Leontief, o efeito tecnológico, repito, é bom quando negativo. Ou seja, no ano presente, requerem-se menos insumos para dar conta da produção do que os usados no ano passado. Quer dizer, modernização na indústria produtoras de insumos intermediários.

Outro impacto em meu conhecimento antigo foi dado pela constatação de que, mesmo que tratores produzam alunos, professores, engenheiros e tratores, o trator importado tem o mesmo efeito sobre uma barba de milho que qualquer trator nacional. Aliás, tratores no Brasil são majoritariamente multinacionais... Em outras palavras, na economia aberta é que a lei do preço mínimo, aquelas coisas, deve vigorar. Uma vez que os custos de transporte são cada vez menores e que mesmo há navios transformados em fábricas para não se perder nem o tempo de deslocamento do produto pronto, não há razão para que a economia nacional não se integre à economia mundial. Reparo: de modo sábio e não de modo vulgar.

E mais um: diatribes contra a industrialização (que lancei acima) são uma coisa. E diatribe contra a política econômica de governo que privilegia os tratores e não os alunos é outra bem diversa. Em que deram os já quase 100 anos de interferência governamental com suas "políticas industriais"? Se não 100, que tal começarmos a falar nos anos 1950?

Ali mais prá baixo, depois do P.S. reproduzo um texto retirado da internet que fala em cinco razões para que o governo promova a industrialização. Vou listá-los aqui, traduzidinhos. E fazer comentariozinhos.

PRIMEIRA
Superando o problema do subdesenvolvimento
A questão é de grau: quanto % do subdesenvolvimento pode ser superado pela industrialização? Primeiro, já não se deve contar a extração de minerais. Segundo, é óbvio que, se a política do governo for produzir escolas, haverá necessidade de uma indústria da construção, outra, da madeira, uma terceira do mobiliário, e assim por diante. Mas a questão é por que não começar do jeito que se pode com a educação e aí ver a roda da fortuna girar e requerer os insumos. E não o contrário. O contra-exemplo escandaloso é o Brasil, claro. Há milhares de anos que há "industrialização" e até hoje há milhões de crianças nas ruas. Quem usa esta ideia de que a industrialização conduz ao desenvolvimento deveria trazer os argumentos que dizem que, no Brasil, foi tudo um grande erro e, por falhas de sabe-se lá quem, o subdesenvolvimento permanece mesmo com industrialização e desindustrialização. Querer reindustrializar significa novamente deixar para um lado o engenheiro no trade-off dele com um trator.

SEGUNDA
Superando o problema do desemprego
Esta é outra falácia. Se a argumentação de muitos defensores da industrialização for a mesma do modelo de Lewis, diremos que estes defensores estão confundindo o que Lewis chama de atrasado com desindustrializado. Claro que o crescimento, na linha de Lewis, requer transferência da mão-de-obra excedente de um setor atrasado para um moderno. Mas não podemos pensar que, dado o nível de produtividade da economia atual, haverá substantivos ganhos atiçando a competitividade internacional. Falar na China neste contexto significa dizer que, desejando seguir o modelo chinês, deveremos aceitar o dumping social.

TERCEIRA
Modernização da Agricultura
A modernização da agricultura ocorre com insumos modernos e nada disse que estes insumos (NPK ou tratores) deva ser nacional. Ao contrário, meu argumento contra a predominância da política econômica voltada à industrialização vem a dizer que precisamente que um setor rural moderno e capitalizado fatalmente irá requerer -para contornar elevados custos de transportes- produção local, manutenção. Explorando economias de escala e escopo, a produção local direcionada pela agricultura poderá expandir-se a outros campos. Por exemplo, do trator ao automóvel e do adubo para outros ramos da química.

QUARTA
Autossuficiência
O argumento da autossuficiência é escandaloso. Sem falar que deseja a autarquização das economias locais, ele não consegue ver que é impossível ser autossuficiente em tudo. Ou seja, haverá em outros países vantagens comparativas tão mais acentuadas que na produção local que será ridículo pensarmos em fazê-la para sermos autossuficientes. Por contraste, deveríamos ser autossuficientes em educar nossos jovens.

QUINTA
Base para o Desenvolvimento Econômico
O argumento final é a indústria é a base do desenvolvimento econômico. E isto é tão verdadeiro quanto dizer que a agricultura é a base para o desenvolvimento econômico ou que os serviços são a base para o desenvolvimento econômico. Não sejamos e passemos a examinar cautelosamente o que quer mesmo dizer desenvolvimento econômico. O ônus da prova fica, certamente, para aqueles que dizem que a industrialização induzida pela política de governo fez isto em qualquer desses países da Nova Ásia (Korea, Indonésia, China, e por aí vai).

   Como podemos ler nas pp. 314-315 do impagável
MESOECONOMIA; lições de contabilidade social (aqui):
Quando nossa preocupação diz respeito às condições de vida de uma população, passamos a falar em desenvolvimento econômico, um processo de transformação da sociedade envolvendo nações, economias, alianças políticas, instituições, grupos e indivíduos. Este processo envolve transformações na família, na empresa rural ou urbana, iniciando na comunidade local e culminando com a transformação global planetária. Como tal, o desenvolvimento econômico difere substancialmente do simples crescimento, que pode ocorrer em segmentos específicos, como regiões
ou setores institucionais e econômicos. Assim, o crescimento, por um processo quantitativo, pode promover transformações que, ainda que modificando a estrutura econômica, criam obstáculos à emergência do desenvolvimento econômico, caso inviabilizem ou excluam transformações em uma ou mais das áreas recém‑citadas. Neste sentido, podemos definir o desenvolvimento econômico como o crescimento econômico, dado pelo aumento do PIB per capita, acompanhado pela melhoria do padrão de vida da população e por alterações fundamentais na estrutura econômica. Portanto, ele envolve, além do crescimento econômico, a melhoria dos indicadores sociais como a redução do analfabetismo, a queda da mortalidade infantil, o aumento da expectativa de vida, o aumento da disponibilidade dos serviços de saúde, a diminuição do déficit habitacional, o aumento da disponibilidade das redes de saneamento básico, etc.
   No que concerne à evolução demográfica, as mudanças quanto ao tamanho, crescimento, distribuição e qualificação da população exercem grande influência nas perspectivas de desenvolvimento e do próprio crescimento econômico. Por seu turno, as condições materiais de sobrevivência influenciam sobremaneira o ritmo de crescimento da população, o qual é determinado pelo nível e pelo padrão de nascimentos e óbitos, bem como por sua distribuição no território. Em outras palavras, a estrutura de desigualdades sociais e econômicas, que se modifica ao longo do tempo, tem relação direta com as alterações nas taxas de natalidade, mortalidade e migração da população de um dado país ou região. Para compreender estas ligações entre população e desenvolvimento, é necessário fazermos uma reflexão minuciosa sobre fatores inter‑relacionados, como a evolução demográfica, o mercado de trabalho e a distribuição da renda, bem como as próprias condições ambientais. Por conseguinte, as medidas destinadas a avaliar o desenvolvimento econômico não podem ser as mesmas com as quais mensuramos somente o crescimento econômico. Precisamos de indicadores que também considerem a dimensão social que aparece consubstanciada no tamanho, no crescimento e na distribuição da população em dado território.

COMENTÁRIO:
Volta e meia digo, e aprendi com Debraj Ray (condições de vida da população, no texto recém citado), que o importante é a equalização do consumo per capita e não do produto per capita. E isto fechou, como uma luva, para minha comparação escabelada entre a importância de um supermercado ou uma fábrica de aviões a jato em Santana do Livramento. E que deve fazer o governo? Promover, prover (não necessariamente produzir) bens públicos e bens de mérito. Neste último caso, estão as escolas, as estradas de ferro e rodagem, os portos, as aquavias. Aeroportos, cadeias, ambulatórios médicos, bibliotecas públicas, centros comunitários, parques esportivos, conjuntos habitacionais. E por aí vai.

DdAB
P.S. Jamais esquecerei ter lido em Monteiro Lobato, ao discutir as más condições econômicas da Bahia, que lá a indústria é que deveria gerar o desenvolvimento da agricultura. Isto, naturalmente, foi antes de eu ter pensado que Santana do Livramento precisa mais de um supermercado que de uma fábrica de aviões. Mas bem poderia ter um centro de treinamento de pilotos...

Essay on the Necessity of Industrialisation in India 
(disponível aqui, e reproduzido no que segue, por garantia)

Industrialization refers to creation of industries, expansion of industries and use of modern technique of production in industries. During the time of independence, industrialization was not in motion because Britishers did not want to make India an industrialized country. After the decades of foreign rule, steps were taken for rapid industrialization.

The necessity of industrialization is given below:

Utilisation of Available Resources
Adequate environment is present in India for industrialization. Firstly, India is rich in different natural resources like iron-ore, manganese, bauxite, coal and mica etc. Secondly, raw materials like jute, cotton, oilseeds, sugarcane and tobacco leaves are plenty produced in India. Thirdly, forest resources are more which give us paper, matches and sports materials. Industrialization alone can be able to utilize large mineral resources, agricultural and forest resources.
   Modern industrialization also needs development of energy. We have large water resources and coal reserves for energy resources. It means there is no difficulty in the path of industrialization. It implies that the necessary conditions for industrialization are present in India.

Overcoming the Problem of Unemployment
The problem of unemployment is acute in India. Due to rapid growth of population, every year lakhs of people enter into the labour market. On the other hand, there is no scope for alternative employment opportunities in agricultural sector to employ the excess labour in agricultural sector and unemployed labourers rapid industrialization is necessary.

Modernization of Agriculture
Modernization of agriculture is necessary for increasing the productivity of land, tractor, pump set, chemicals, fertilizers, insecticides and other developed machineries are necessary to modernize agriculture. It- means modernization of agriculture is possible only with the help of the development of fertilizers and agricultural machineries industries.

Self-Sufficiency
It is not advisable for a country to depend upon foreign countries for industrial products. We have to pay in terms foreign currencies if we purchase industrial products from foreign countries and it also needs to sell the raw materials required by the industries at a lower rate and to purchase the industrial products produced with these raw materials at a higher rate which will hamper the economic development. It will lead to financial loss. There will be no import of goods if there is war or bitter relationship among the countries and people will find difficulties in getting these goods. It will also lead to lowering of status of country if we purchase war heads and materials from foreign countries.
   Due to all these reasons, self-sufficiency is an important aim of our planning. Self sufficiency depends upon the development of consumer goods industries, basic and heavy and heavy industries.

Basis for Economic Development
Industrialization expedites the process of economic development. Infrastructural facilities like energy, transport and communication are necessary for industrialization. So industrialization leads to development of infrastructural facilities and also for industrialization it provides machineries. It means industrialization strengthens infrastructural facilities.
   Industrialization improves standard of living of the people by developing industry, agriculture and other activities including infrastructure.
   All the above stated reasons also help to raise the per capita income and national income. Due to more income, people purchase more and standard of living rises. Due to more demand for goods, there is further expansion of industrial sector. It shows that the industrialization makes economic development and leads the country in the path of growth.


abcz
E a imagem veio daqui.

sábado, 1 de novembro de 2014

Igualitaristas Contemporâneos


Querido diário:

Tempos atrás, não sei bem se embalado no furore universal provocado pelo livro de Thomas Piketty (2013), vim a cair na leitura do espantoso artigo de Easterly (2007). Tão espantoso -ambos- que decidi fazer um recall de todos os textos (livros e artigos) que me marcaram nos últimos anos, por trazerem racionalizações para as apologias da sociedade igualitária. Na postagem daqui, motivada/inspirado pelo/no artigo de Flávio Comim saído no caderno PrOA de Zero Hora, reproduzi um box exibindo o conceito de sociedade justa, de acordo com três renomados pensadores e também acrescentei as oito questões que, de acordo com Joan Robinson e John Eatwell, devem reger a filosofia econômica. Para fins de registro devidamente registrado, falo um pouquinho sobre cada um deles. E nem falo nas investigações sobre a curva de Kuznets, coisa em que eu mesmo andei mexendo.

A. GLYN, Andrew & MILIBAND eds. David (1994) Paying for inequality; the economic cost of social injustice. London: IPPR/Rivers Oram.

B. KRUGMAN, Paul & VENABLES, Anthony J. (1995) Globalization and the inequality of nations. Quarterly Journal of Economics. V. CX n.4. p.25-48.

C. RIFKIN, Jeremy (1995) The end of work: the decline of global labor force and the dawn of the post-market era. New York: Putnam.

D. LINDERT, Peter H. & WILLIAMSON, Jeffrey G. (2001) Does globalization make the world more unequal? Cambridge-USA: NBER. (Working paper 8228; www.nber.org/papers/8228).

E. LAYARD, Richard (2005) Happiness; lessons from a new science. London: Penguin.

F. WILKINSON, Richard & PICKETT, Kate (2010) The spirit level; why equality is better for everyone. lONDON: Penguin.

G. PIKETTY, Thomas (2014) Capital in the XXI Century. Cambridge-USA: Harvard.

H. E aí vem ele:

EASTERLY, William Easterly (2007) Inequality does cause underdevelopment: insights from a new instrument. (2007) Journal of Development Economics. V. 84 p.755-776.

Não lembro bem, agora, como cheguei a ele. Quero dizer, como é que comecei a procurá-lo, pois cheguei a ele por meio da ajuda sempre efetiva de meu colega, o prof. Jesiel de Marco Gomes. O título já é marcante: does cause, em troca de simplesmente causes. Forte, fortíssimo. Então causa mesmo, né? E como é que ele chegou a esta conclusão, qual é mesmo o new instrument por ele utilizado?

O interessante, para mim, que nunca fui propriamente versado em história econômica, é que Easterly retirou a hipótese a investigar de um trabalho de historiadores (Engerman e Sokoloff). Qual a hipótese? [...] agricultural endowments predict inequality and inequality predicts development. Pulando a sua conclusão, percebemos que [...] inequality also affects other development outcomes - institutions and schooling - which the literature has emphasized as mechanisms by which higher inequality lowers per capita income.


DdAB
P.S. Acho que o Easterly é que me inspirou para, nesta época em que já começa-se a alardear o natal/2014, encontrar reminiscências pascais. Seja como for, esta é uma bela oportunidade para relembrar qual é o breve contra o caos desigualitário:

.a. política fiscal:
a.1. gasto público em bens públicos e de mérito
a.2. imposto sobre a renda e a riqueza (inclusive a Tobin Tax, o imposto de James Tobin)

.b. política monetária: crédito aos integrantes da Brigada Ambiental Mundial, na busca de transformá-los, de imediato, em pequenos empresários (e esperando que certa fração entre ascenda na escala da empresa, do governo, das artes, do esporte...

P.S.S. Baseado no conceito de John Rawls de "sociedade justa", volta e meia eu me indagava sobre o que é "justiça". No outro dia, estava lendo um livro de filosofia política e vi praticamente uma definição de dicionário: dar a todos o mesmo tratamento, o que significa tratar desigualmente os desiguais. O que me chamou a atenção é que o cerne da questão é a palavra "igual", "o mesmo". Pois não é direto o Rawls?
.a. liberdade: a maior possível compatível com a dos demais.
.b. cargos públicos abertos a todos: todos podem escolher ser assalariados da Brigada Ambiental Mundial.
.c. administrar a desigualdade de modo que esta favoreça os menos aquinhoados.

P.S.S.S. E por que este tipo de abordagem não venceu as eleições no Brasil? Porque ainda será necessário muito sofrimento, muita quebradeira para se chegar a este ponto!