07 abril, 2014

Casos de Polícia: hoje temos dois ou três

Querido diário:

Desejo falar de dois, talvez três casos de polícia, o que poderia mesmo envolver uma declaração intermediária da dona Dilma, minha ex-bolsista ou estagiária (afirmação que, como sabemos, não é de todo verdadeirinha, aqui). Inicio com o artigo de Marcos Rolim, na p. 12 de ZH de ontem, cujo título é "O Sono dos Justos". Primeiro, ele transcreve um diálogo que já lera aqui ou ali (ZH ou CC):

P - Quantas pessoas o senhor matou?
R - Tantas quantas foram necessárias.
P - Arrepende-se de alguma morte?
R - Não.
P - Quantas pessoas o senhor torturou?
R - Difícil dizer, mas foram muitas.

E prossegue:

Assim como Ustra [o afamado coronel Brilhante Ustra], ele [o coronel Paulo Malhães] dorme com a consciência tranquila.

Indaguei-me se Marcos Rolim é o psicanalista (leigo?) do coronel reformado. Como alguém pode saber que o outro dorme com a consciência suja, tranquila, azulada, enfermiça, esquisofrênica? Hoje em dia há aparelhos para tudo...  Aí, ele, Rolim, pega pesado:

O tema a merecer análise e que deveria mesmo preocupar é que tantos, ainda hoje, justifiquem a tortura, relativizem crimes contra a humanidade e se alinhem ao discurso dos golpistas.

Pensei: está metendo a mão comigo, que acho que estes temas de exumação dos restos de João Goulart, plebiscito sobre monarquia ou república, armas, essa bobajada, serve apenas para desviar a atenção dos verdadeiros problemas da geração presente do Brasil. Não quero dizer que a dupla Ustra-Malhães mereça elogios, aliás, acho mesmo que eles não merecem nem ser ouvidos em qualquer comissão de respeito. Pensei mais: ele está mesmo é metendo a mão com a presidenta da república que, num drops ao lado de seu artigo, diz:

Assim como reverencio os que lutaram pela democracia, também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram à redemocratização.

Diz o jornal que ela está "dando a entender que não apoia a revisão da Lei da Anistia". E um dia fiquei aperreado com o escore que aprovou a lei, algo como 54-46 ou mesmo 51-49. E isto mesmo é que valida a fala da presidenta: sempre soubemos que houve uma corte de puxa-sacos a viabilizar moralmente o governo militar. E foram precisamente estes que negociaram a "distenção lenta e gradual", e era o que de melhor se dispunha naquele tempo. Se a censura é crime imprescritível, mais ainda acho eu que o é a manutenção na rua da amargura de mais ou menos 20% da população, eternamente, desde o descobrimento da república federativa do Brasil, ou como quer que se chamava naquele tempo cabralino. Já a palavra descobrimento escondeu uma fraude.

Então já estamos com um ou dois casos de polícia? Vamos ao terceiro, na p.33 do mesmo e carimbadíssimo jornal. A promotora Maria Tereza Uille Gomes, secretária da justiça e cidadania direitos humanos do Paraná é, porque é, a favor do regime de detenção de presos chamado de semiaberto:

Zero Hora - Por que a senhora é a favor do semiaberto?
Maria Tereza Uille Gomes - Defendo a importância porque hoje, no semiaberto, temos os percentuais mais elevados de escolarização e trabalho. No semiaberto, é possível promover os percentuais de ressocialização almejados.

Pensei: mesmo com 60% de rapazes que fogem? E uma fração destes assalta e assassina? Mas prossegui a leitura:

ZH - O que fazer para evitar as fugas?
Maria Tereza - Esse é um problema de gestão. A fuga, na maioria das vezes, acontece quando o semiaberto está centralizado. O preso acaba escapando para ficar próximo a sua família. É preciso descentralizar as unidades para o interior dos estados.

Pensei: a promotora é sem noção. Felizmente, logo abaixo daquela entrevista esfuziante, fala o juiz e doutorando Luís Carlos Valois: "O semiaberto não serve para nada".

Zero Hora - Por que o senhor é contra o semiaberto?
Luís Carlos VAlois: Esse regime foi criado em uma época em que se acreditava que a prisão podia melhorar uma pessoa. Na história do direito penal, isso é tido como humanização. Foi um tiro no pé, as cadeias são lugares horríveis. O semiaberto não serve para nada. [Adito: claro que serve!]

Zero HOra - Qual é o melhor sistema que existe?
Valois - O que prende menos, que prende apenas os necessários, os mais perigosos. Estamos encarcerando traficantes pequenos como homicidas, como criminosos gravíssimos.

Resumo: quantos serão os casos de polícia enrustidos nesta postagem? Fico tradicionalmente dando a preferência à questão dos meninos de rua. Eles é que realmente precisavam ser anistiados e seus algozes, penalizados.

DdAB
Imagem carimbadíssima daqui.

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