quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Terrorismo: Moral da História

Querido diário:

Alguns anos atrás, li que Yasser Arafat teria dito algo, em minhas palavras, equivalente a: "é inconcebível que a motivação política de alguém leve-o a hostilizar as populações civis". Quando li esta pérola do pacifismo, pensei estar lendo errado: não, não podia ser ele. Depois entendi: sim, era, era ele, e encaminhamento é que precisava ser mais bem conhecido!

Em compensação, aquela Carta Capital de 22/jan/2014, na p. 8 tem uma entrevista feita por Billy Culleton, falando sobre Ignacio Suescun Jauregui. A matéria chama-se de "A Aventura do Velho Terrorista" e diz-se que mr. Ignacio falou pela primeira vez com um jornalista. Pois a entrevista deixa-me ainda mais alinhado com Arafat: hostilizar e matar civis é uma baixaria.

Mas no caso, temos algo ainda pior. Obviamente não é minha intenção defender a violência contra os bascos, nem contra quem quer que seja. O que penso, baseado nos dois primeiros parágrafos da "fala", é que realmente terrorismo é um problemão. Quero dizer, terrorismo institucionalizado como forma de fazer política. Obviamente não condeno (embora não incentive) o ataque político a políticos. Como tampouco sou favorável à tortura, não sei bem o que sugerir para os casos dos políticos brasileiros contemporâneos: chineladas? broncas? caldos?

Então vejamos:

[um destrambelho descabelado] provocou a morte do então presidente espanhol Luis Carrero Blanco, candidato a suceder Francisco Franco. O carro do presidente passava pelo local [do atentado engendrado por Ignacio e outros] e todos os passageiros voaram para o céu.

Que jornalismo, sô. E o motora, era merecedor de tal viagem? Segundo parágrafo:

Considerado o mais importante atentado cometido pelo grupo separatista ETA, o ato desestabilizou o regime ditatorial que dominava o país ibérico com mão de ferro havia quase quatro décadas e favoreceu o retorno à democracia poucos anos depois, impulsionado também pela morte do octogenário Franco em 1975.

O entrevistado ainda tem a cara de pau de dizer -e o jornalista de gravar/anotar e a Cartinha de divulgar- o seguinte:

Hoje posso dizer que uma das maiores conquistas do ETA foi impedir a perpetuação da ditadura na Espanha. O assassinato de Carrero Blanco evitou centenas de outras mortes promovidas por Franco, o maior sanguinário da história da Espanha.

E quem é que não sabe que esta "democracia" tão festejada pelo jornalista Billy trouxe em seu bojo, por delegação do octogenário Franco precisamente de volta a monarquia espanhola, que impera no poder até hoje, com todos os escândalos de dinheiro e elefantes. Claro que se impõe um leve exercício contrafactual: que seria da Espanha sem a monarquia? E quais as chances de sucesso para a república se aquele suposto sucessor autoritário de Franco tivesse mesmo sucedido o afamado bombarbeador de Guernica. Sou levado a crer que aquele Carrero Blanco não teria resistido ao passar do tempo e também ter-se-ia afastado das lides políticas. E seria possível termos hoje um governo espanhol sem o ranço monárquico.

Meu único medo é que as gerações futuras, ao saberem que leio com tanto afinco a Carta Capital semanalmente, pensem que eu também sou louco!

DdAB
Imagem: óbvia.

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