sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Teleologia da Vítima

Querido diário:
Hoje dei-me conta de algo interessante sobre a teleologia de minhas postagens, teleologia, no sentido de finalidade cá delas, quero dizer, finalidade das postagens, o que quero lá delas, agora já sem cacofonias, sobre como causa um furacão.

Creio, com já quase 1.200 postagens, ter falado a essência do que quero dizer. Claro que, como não sabia bem o que era, ou tudo o que era, repeti-me várias vezes. Pode ser que eu tenha dito muito mais coisa, ao mesmo tempo em que dou-me conta de que ainda falta coisa para ser dita e que talvez, mesmo conhecendo uma fração disto, eu não consiga dizer.

Tem duas coisas que, estou certo, falo com frequência, insuflado por motivações diferentes:

.a. mania de meter a culpa no povo; vive muito, dá problema na previdência, vive pouco, baixa o IDH do país, essas coisas. Neste caso, o que vim a entender era aquela questão que os epidemiologistas tratam como a causa da causa, a causa causans latina. Meu maior círculo de causa da causa é que a falta de educação empurra o povo a votar em ladrões e a causa desta lack of education é a falta de empenho dos políticos em privilegiar um projeto educacional de longa duração.

.b. a ideia de Samuel Bowles (e, talvez, milhares de outros) no sentido de estabelecer um tripé institucional da vida societária como a conhecemos: mercado, estado e comunidade. Trata-se de três instâncias importantes para promoverem a agregação das preferências individuais.

Segue-se logicamente que, na hora do pão com manteiga, li o artigo "De onde vêm os políticos", de autoria do juiz federal Fábio Soares Pereira, na p.13 de You-know-what. Belo título! Resposta: da comunidade, da sociedade. O silogismo tipo Barbaquá (que inventei) garante que todo político é ladrão e todo ladrão é político, de certa forma, matando a charada do juiz. É claro que, se os políticos originam-se na comunidade, e esta é que os elege ou forma exércitos para mantê-los no poder, ela é a causa lá deles. Mas parece óbvio que tem muito desmando feito pelo governo (situação e oposição, executivo e legislativo, etc.) que, embora feito por indivíduos de carne-e-osso originários da comunidade que é a causa da causa de suas próprias eleições, de sua incapacidade (talvez apenas falta de vontade) de fazer uma boa reforma do sistema eleitoral, do sistema tributário, do sistema penal e de outros tantos sistemas que se inserem ou no mercado, ou no estado ou na comunidade.

Que mesmo disse o dr. Fábio Soares Pereira? Pego um parágrafo-frase inteirinho, com suas 77 palavras:

'Nós - que muitas vezes furamos filas, instalamos 'gatos' de energia elétrica ou de televisão a cabo, passamos pontos referentes a multas de trânsito para outros motoristas, ficamos com o troco que recebemos por engano, não devolvemos objetos encontrados - praticamos incontáveis condutas que, embora pareçam de menor importância, socialmente insignificantes se comparadas a escândalos como o mensalão ou as máfias das ambulâncias e das merendas escolares, alimentam (com enorme força, se somadas) a indústria da 'vantagem'.

Primeiro, claro, pensei no famoso "nós, cara pálida?" Eu, que me conste, nunca fiz o que o pinta está sugerindo: sou inocente. E será que ele fez mesmo este negócio dos 'gatos' de energia elétrica? Em sua casa da praia? No apartamento citadino?

Ou este "nós" era "eles, o povo"? Uma das trajetórias que escolhi para aliviar as costas do povo que dá um duro desgranido é incriminar não a ele itself mas aos juízes. Será que pode mesmo um indivíduo que ganha 20 ou 30 salários mínimos entender por que o povo faz "gato"? E será que, com meus proventos da aposentadoria eu também posso? O fato é que não sou incumbido de julgar ninguém. Aliás, preciso reconhecer (e o faço, claro) que a educação irá resolver milhares de problemas, mas não todos. É óbvio que há muita coisa a ser tocada em conjunto entre o mercado, o estado e a comunidade. E infelizmente ninguém tem o segredo de todas essas coisas que estão faltando.

O fato é que, no Japão, o tsunami não acabou com a solidariedade. Nos Estados Unidos, o furacão Sandy já protagonizou saques no Brooklyn. A questão que o juiz não tangenciou parece-me ser a estrutura de incentivos criada institucionalmente para levar os agentes a adotares comportamentos cooperativos.

DdAB
Imagem daqui. Belo site, bela causa, belas controvérsias.

Nenhum comentário: