quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Viver em Planetas é Perigoso

Querido diário:
Como sabemos, os Estados Unidos estão vivendo um certo inferno astral. As eleições que podem levar um republicano ou um democrata ao poder têm o pior dos dois mundos: os democratas (Obama) ou os republicanos (Romney). Mas ainda pior e, talvez, desempenhando o mesmo papel que o atentado de 11 de setembro 2001 desempenhou na reeleição de Bush. A solidariedade nacional favorece a situação. Disse uma dessas personagens de ficção científica que ainda circulará por um de meus romances: "viver em planeta é perigoso". Claro, furacão para cá, terremoto para lá, vulcão ativo do lado de cima, ditadura sangrenta do lado de baixo, e por aí vai. A barreira da escassez ainda não está perto de ser vencida por aqui. Quero dizer: não é por isto que existe fome na África, mas que ajudaria a aplacá-la o fato de naves espaciais cararegarem toda aquela população, viajando entre as estrelas, em espaços seguros para não serem tragados por buracos negros ou outras personagens que troteiam pelo universo.

E se fossem carregados? O fato é que faltam uns 14 bilhões de anos para este universo acabar ou, pelo menos, perder ímpeto, num volume de entropia próximo, assintoticamente próximo, do infinito absoluto, o fim da matéria, o fim dos tempos, o fim das naves e o fim de nossos descendentes, not to speak of ourselves. Neste sentido é que chegou-me às mãos o seguinte papelzinho, que transcrevo inserindo apenas correções ortográficas menores. Desnecessário dizer que a tradução é de minha autoria.

Jà fazia praticamente três bilhões de anos que se evadiram do colapso do sol do Terceiro Planeta. Deixaram de ser homens, deixaram de ser humáquinas, deixaram de ser bolas e mais bolas concêntricas, deixaram outra dezena de formas para trás. Estavam prestes a dar o grande salto, entrar no buraco negro, dar um salto equivalente àquele dado por seus antepassados mergulhados num pretérito ignoto, mas já sabidamente passível de ser recuperado antes do grande salto, que foi evadir-se da atração gravitacional do planeta em que evoluíram por dois bilhões de anos.

Despenderam menos de um milhão de anos para imprimir (impressão em 3D aqui, inclusive a fonte da imagem acima) a primeira nave do salto, outras segui-la-iam nos próximos três bilhões de anos. Tudo o que era relevante sreia reconstruído e preparado para a viagem, tudo, desde a primeira molécula que o acaso fez autorreprodutível.

A nave tinha uma camada protetora de terconite abcz de 16km de espessur. Os 5km iniciais seriam pulverizados com a redução da temperatura e da massa com que a nave seria sugada para o cerne do buraco negro, ao entrar em contato ele, ao aproximar-se, cheirá-lo, aquerenciar-se e... deixar-se mergulhar. Mas o núcleo estaria protegido, de sorte que o módulo interno, de um trilhão de seres independentes seria preservado. Montantes literalmente estratosféricos de energia seriam necessários, mas a travessia era dada como certa, não podia falhar, o computador central o assegurava há milhões de anos, calculando e recalculando.

Ele também iria migrar, na verdade, instantes antes da nave tripulada e instantes depois ajudar a orientá-la no mergulho ao cerne do buraco negro. Ele a despacharia e a recepcionaria praticamente no mesmo tempo, eles viajariam a uma velocidade média de um número estratosférico de vezes a velocidade da luz do universo conhecido. Daria certo, tinha de dar, não podia falhar, a preparação foi secular, per omnia secula seculorum. Se não desse certo, não teria havido história. Daria certo.

DdAB
P.S.: esta postagem está dando uma repercussão danada. então vai um apêndice:
 Não poderiam viver sem matéria, mas não tinham medo de não poderem produzi-la à vontade depois da transição do buraco negro para um ambiente mais estável. sabiam que iriam produzi-la assim que se estabilizassem. A escassez que os acompanhava desde sempre, desde suas origens terráqueas, iria ser vencida, como sempre.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Não Li nem Lerei

Querido diário:
Com muito carinho, especialmente por não ter alternativa que me pareça razoável, leio diariamente Zero Hora que, carinhosamente, chamo às vezes de Zero Herra. O carinhoso epíteto, na verdade, não reflete tanto as questões de forma, mas de conteúdo. Neste caso, em linhas gerais, queixo-me da linha um tanto direitosa do jornal. Mas também me divirto (vingo?) observando seus desacertos formais.

Hoje vou comentar três, o que me joga para o marcador Besteirol. A primeira dá título à postagem.

Na p.5 do caderno Vestibular, tem uma interessante aula sobre as funções da linguagem, o que me permitiu compreender que falo prosa... A certa altura, diz-se:

O livro A Histórica do cerco de Lisboa, de José Saramago, explica o uso do código, ou seja, [...]

Mas se eu vier a ler A história do cerco de Lisboa não creio que venha a ler a frase em que, sob o ponto de vista formal, falta uma vírgula:

O meu livro, recordo-lho eu é de história, Assim realmente o designariam segundo a classificação tradicional [...]

Faltou a vírgula para fechar o aposto "recordo-lho eu", deslocada para o final {?}, o que deixou a descoberto o ponto que antecede o "Assim", não é assim?

Depois deste caderno, desloquei-me ao caderno principal, onde vi duas manifestações do "Não era isto..." que usei no título da postagem de ontem, que bem poderia virar marcador, hehehe.

Primeira: na p. 2, lemos, o que talvez sim, talvez não, seja uma incursão no mundo GLS:

Um homem somente apaga um amor no momento em que encontra outro.

Segunda: na p. 10, vemos agora:

O PMDB tem a comemorar o fato de ter sido o partido com maior número de prefeitos no Brasil. São 1.031, número 14,15% menor do que em 2008.

Fiquei pensando naquele negócio de arrancar alegria ao futuro: comemorar que 1.031 é um número primo? Comemorar que o número de prefeitos caiu?

DdAB
Imagem daqui, obtida ao pedir "primo inter pares".
P.S.: e os erros de conteúdo e de português que cometo aqui no Planeta 23? Felizmente não estamos falando neles, hehehe.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Não Era Bem Isto...

Querido diário:

Nas segundas-feiras, o jornal que leio diariamente tem um caderno chamado de "Meu Filho". Fala de crianças pequenas. Não quereriam dizer algo diferente do que segue?

Para a pediatra Maria El Achkar Mello, a criança que saiu do útero ainda tem na memória o contato com a água e tem uma facilidade maior em nadar.

A culpa foi de Carl Wright Mills que me forçou a forçar-me a pensar nos opostos: "a criança que não saiu do útero"? Uma vez que, dentro do útero, não há espaço para crianças, é certo que não era bem isto o que eles queriam dizer. Quero dizer: depois do embrião vem o feto e depois de nascer é que vem a criança. O nascimento tem esta componente romântica de criar uma criança, ou seja, transformar feto em criança.

DdAB

domingo, 28 de outubro de 2012

Mensalão: o choro é 100% livre

Querido diário:
Mesmo os réus confessos para os crimes mais evidentes sempre têm uma justificativa que começa com "Veja bem". Até hoje, a única confissão sincera que ouvi foi a minha: sou inocente. Portanto, não me surpreende que o advogado do deputado João Paulo Cunha, condenado a não sei bem o quê lá naquela pantomima do supremo tribunal denominada Mensalão, já tenha avisado que vai recorrer à corte interamericana.

Primeiro, eu sugeri a extinção do supremo e, ipso facto, da corte interamericana, passando a responsabilidade pelo julgamento dos milhões de processos que se avolumam em todos os escaninhos da república à corte internaconal de Haia. esta mediaria um convênio, como sabemos, com alguma universidade escandinava oslt para que sua empresa júnior administrasse todo o sistema judiciário latino-americano. Isto implica que não levarei muito a sério nem os julgamentos do supremo nem os da corte interamericana.

Mas que fazer? Encaçapar os condenados na cadeia ou dar-lhes a second chance. Não tenho nada contra a second chance ou chances de ordem superior. O que me aperreia é que, sob o pretexto de receber a second chance, os advogados ficam protelando o triunfal ingresso dos réprobos na cadeia por milênios. Graças, claro, à inoperância do sistema judiciário, dos juízes, em particular, da falta de juízes. Se houvesse mais juízes, estes passariam a ganhar menos, não é?, e aí está o problema.

No outro dia, acenei com uma nova proposta, ainda mais barata do que contratar a suposta empresa júnior sueca oslt. É resolver todas as pendengas por meio de sorteios, usando moedas não-enviesadas. Os custos de transação reduzem-se a praticamente zero. E a sociedade, dado que cada causa representa 100% do valor de si própria (postulado da identidade), nada perderá. Com efeito, se os 100% couberem a A ou a B, ainda assim a união de A e B dá 100% do mesmo jeito. Simples, engenhoso e, como tal, revolucionário!

DdAB

sábado, 27 de outubro de 2012

Malala e Liberdade

Querido diário:
Desde ontem o noticiário fala que a garota paquistanesa que sofreu um atentado há semanas por usar... a escola já pode ser declarada fora de perigo. Esta notícia rima com outras que dão o agressor por identificado. Pouco proveito terá à garota a punição do réprobo, mas a sociedade sai ganhando com isto. O crime não pode ser impune, crime impune é um incentivo à realização de outros crimes. Pelo criminoso original ou por seus imitadores.

A impunidade é o preço do crime, com régua simétrica: quanto mais punição, menos crime. Mas um criminoso não tem liberdade para fazer o que bem entende?

Claro que tem, mas devemos ter presente o primeiro item da receita de sociedade dada por John Rawls: cada um desfrutará da maior liberadade compatível com a dos demais. Se, no caso, sou livre para buscar o acesso à educação e isto não ofende a ninguém, não há razão para balearem-me. Agora é que os malfeitores a Malala deveriam ter a palavra: como é que ela lhes fez mal?

Claro que não posso dizer que faz-me mal um indivíduo usar sua liberdade para comprar um avião. Eu não compraria por falta de disposição e aptidão, mas em nada me afeta (exceto, no caso, externalidades de segunda ordem) ele o fazer. Se quero justiça, tenho que ter polícia, se quero justiça fiscal, tenho que ter imposto de renda.

DdAB
P.S.: dizem que, no Brasil, não há este tipo de atentado contra os políticos especialmente porque eles fugiram da escola há muito tempo.
P.S.S. de 28/out/2012: liberdade é estratégia dominante: quer ir na escola, vai; não quer ir na escola, não vai. Agora querer impedir que terceiros vão ou deixem de ir já é bagunça.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Lei Errada sobre Limitação de Ganhos

Querido diário:
Temos hoje no jornal um elogio da comuna de Passo Fundo. Uma ação popular lá impetrada teve aceitação por parte de um juiz de direito. Eles queriam que os governantes da república tivessem ganhos fixados no mesmo teto do que outros funcionários (que não obedecem 100% à determinação legal). O caso concreto é: um ministro que ganha seus estipêndios como tal também ganha jetons de participação em conselhos de diferentes órgãos governamentais. Bem bolado.

A lei que estabelece teto para os vencimentos dos funcionários públicos é dupla evidência de desfaçatez:

.a. não é obedecida

.b. trata do problema da desigualdade de modo pueril, pois haverá um diferencial entre remunerações do setor público e do setor privado que farão inviável a retenção de quadros de qualidade naquele que vacilar. Hoje há evidência de que as remunerações de funcionários públicos "de elite" superam as correspondentes remunerações do setor privado. Neste caso, nada justificaria os ganhos estratosféricos de funcionários aposentados.

A grande questão é se haveria algum interesse da sociedade em limitar ganhos de quem-quer-que-seja, independentemente da inserção no setor governamental ou no setor privado, Parece, no mundo inteiro, que há: praticamente todos os países sérios têm legislação de imposto de renda, com tabelas progressivas.

Neste caso, o imposto de renda poderia ser usado no Brasil para a limitação dos ganhos daquele pessoal, não é mesmo?

DdAB
Imagem: aqui.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A Honra Volta a Tornar-se Mercadoria

Querido diário:
Eu já vira notícias alguns dias atrás, um leilão anunciado. Agora é ex post. Já existe um vencedor declarado. Tudo na capa e p.32 de Zero Hora de hoje.

Mudando de assunto:

O Zago declarou que, desde que se estabeleceera com farmácia, jamais vendera tantos xaropes e pastilhas contra a tosse, tantos sinapismos, cataplasmas e linimentos. Os bolicheiros aumentaram sensivelmente a venda de cachaça A Casa Sol esgotou seu estoque de ponchos, capas e artigos de lã.

Aqui foi uma descrição feita por Érico Veríssimo na p.97 do segundo volume do "O Retrato", segunda metade do primeiro parágrafo da seção 1 do Capítulo XX (Companhia das Letras, 2012). Parece que lá o frio é que -se não virou mercadoria- acelerou o salto mortal das existentes.

Voltando a( permanecer n)o assunto.Catarina, a.k.a. Ingrid Migliorini estudava educação física, trancou, tentou a medicina, ouvia roquenrou, lia escritores com inicial Charles: Baudelaire e Bukowski. Nada se falou sobre Carlos Henrique Marques.Karl Marx, lá no volume 1 d'O Capital, tinha dito que, no capitalismo, tudo vira mercadoria, inclusive a honra.

Disse ela: "Opiniões são subjetivas: negócio ou prostituição, cada um diz o que quer." Ela decidira e ontem (um dia antes, na Austrália?) consumou-se um leilão de sua "virgindade". Tema delicado. Cada um leiloa o que quer ou pode. Diz também o jornal que um jovem russo leiloou a sua por meros US$ 6 mil. Ela, Catarina, ganhou US$ 1,6 milhões. Toda mercadoria tem preço, ainda que algumas não tenham valor (lá naquele sentido marxista de produzida com o auxílio de trabalho vivo). Naturalmente Catarina não é uma mercadoria, mas apêndices de seu corpo bem podem sê-lo. A sociedade não gosta da venda de órgãos humanos, acha antiético. Para mim, seria patético que os pobres abastecessem os ricos com peças de seus corpos (rins, corações).

Também não sou lá profundo conhecedor de ética para julgar a garota. Nem foi ela, aliás, que inventou a ideia do leilão. Em outras palavras, é possível que, desses 1,6 milhões, alguma fração quede-se na própria Austrália, sede da empresa promotora do leilão. E nem sei se ela, com isto, estaria vendendo a honra, o que certamente lhe seria tachado há 50 anos, quando voltei a residir em Porto Alegre. Minha previsão é que ela se tornará:

.a. apresentadora de programa de TV ou
.b. modelo da indústria da moda ou
.c. cantora de roquenrou ou
.d. personal trainer.

Da honra, bem sabemos, no Brasil contemporâneo. Diz-se que, além do processo do mensalão, há 190 nomes de políticos de escol sendo processados pelas mais variadas ilicitudes. A lei da ficha limpa parece que não foi bem entendida, pois a maioria dos government thieves segue ativa, eleita e reeleita.

Aliás, sou até mais qualificado para julgar Marx: aparentemente, nem tudo vira mercadoria no capitalismo. As falhas de mercado fazem o elogio da exceção. No caso, em Camboriú, temos um daqueles interessantes fenômenos de exploração desenfreada de bens públicos. Ou melhor, da destruição de um espaço de uso comum pela apropriação privada não regulamentada. Explico-me.

Consta que a demanda pela paradisíaca areia era tanta e tão grande a ânsia de transformar a paisagem em mercadoria que surgiu à beira da praia principal uma camada de edifícios que teve a indesejada consequência de lançar sombra à praia precisamente no horário nobre. Ouvi dizer que iriam fazer um aterro, voltando a ter uma boa exposição de areia para a moçada refestelar-se. Não sei se fizeram. Em o fazendo, se os edifício não pagaram sua parte, teremos clara a manutenção das consequências distributivas da postura de caroneiros dos construtores dos edifícios causadores da mazela, ou sombra dela.

DdAB
Lá em cima ou é uma praia ou a Meia Praia propriamente dita. Foto de conhecimento comum.
P.S.: Érico acrescentado às 15h26min.
P.S.S.: Errata de 28/out/2012: quem está por dentro do mercado de leilões saberá que errei na unidade de medida do lance vencedor: é reais e não dólares.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Desarmando os Bandidos

Querido diário:
Na p.2 de Zero Hora de hoje tem uma carta do leitor Luís Antonio Gomes Barbosa (empresário de Rosário do Sul):

Bandidos armados
Caroline Silva Lee, de 15 anos, foi morta na segunda-feira em São Paulo, com um tiro no pescoço por ter-se recusado a dar a bolsa para um marginal. Uma vida tirada por um elemento de 19 anos que já fora preso três vezes por tráfico e roubo, assim como os seus comparsas, que também tinham passagens pela polícia. [...] O que vejo é uma crescente violência armada nas ruas, sem que a tal lei do desarmamento tenha melhorado alguma coisa para o cidadão de bem.

De minha parte, o que vejo é outra manifestação da sociedade igualitária. Parece agora óbvio que faltaram serviços sociais para identificar neste garoto de 19 anos um criminoso em formação. Ele poderia estar em formação, digamos, em engenharia ou mecânica de automóveis, administração, investigador de polícia ou auxiliar de açougue, sabe-se lá. O que não é concebível como razoável é que o rapaz tenha tido já três passagens pela polícia e não viva nenhum tipo de monitoramento que os sociopatas requerem. Da primeira vez, já era suficiente.

E por que este tipo de conduta não é adotado no Brasil? Claro que é pela conduta alternativa que nos tornamos uma sociedade desigual e violenta. Embora tente, nem sempre consigo desligar-me 100% das mazelas de meu próprio cotidiano: vítima da desigualdade e da violência, que estes dois termos me parecem sinônimos. Talvez não sejam em outras quadraturas do círculo terráqueo. A sensação que tenho de minha vivência no presente e da leitura de relatos (romances, crônicas) do passado é que, no Brasil, a violência piorou precisamente porque este tipo de política igualitária a que me estou referindo não é bola da vez. Nem tem sido, nos últimos 50 anos.

Houve um tempo em que se confundia polícia (e todo o restante do aparato judiciário) com repressão, mas hoje é bem razoável pensarmos que a polícia pode ser um elemento fundamental para a redistribuição das oportunidades de emprego. E, com ela, a redução da criminalidade.

A melhor maneira de desarmar os bandidos é ocupar-lhes as mãos com livros, instrumentos musicais, aparatos esportivos, bisturis, escalímetros, essas coisas.

Agora tem outro recorte importante: quanto a família da vítima pagaria (estaria disposta a subornar os bandidos) pela vida de sua filha? É uma grotesca falha de governo que os políticos não entendam isto e passem a alocar com mais decência os recursos públicos. Nâo posso esquecer, ao ver os quatro anos de idade entre a vítima e o algoz, a diferença de idade entre a garota de 13 que assassinou a vizinha de 93 em Erechim há um bom tempo.

DdAB
Imagem: daqui. Moral da história da ilustração: nem todo desarmado é desalmado. O esporte, na foto acima, pode ajudar a escoar a violência. E aumenta a desigualdade.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Quebras do Postulado da Aditividade

Querido diário:
Os postulados são construtos teóricos interessantes. Eles nem sempre precisam derivar-se do mundo, cada vez podendo ser mais abstratos, na verdade, inclusive nas ciências rígidas. Na ciência econômica, a axiomatização comecou há já quase 100 anos, nem sei com quem. Na teoria do comportamento do consumidor, sempre usei como exemplo o postulado da diversificação (o consumidor prefere uma cesta com mais variedade a uma com menos). Ele parece justificar por vende-se vinho brasileiro na Argentina e vinho argentino no Brasil (exceto quando as políticas comerciais são, digamos, latino-americanas...).

E o postulado da aditividade? O consumidor prefere uma cesta com mais bens a outra com menos. Pois bem. Seu elogio é "a última bolachinha do pacote". Ela parece indicar que dói-me mais dar a última do que dar a primeira. Pois mal: há a maçã com um verme: prefiro-o inteiro na maçã do que metade na boca...

DdAB
Imagem aqui.

domingo, 21 de outubro de 2012

Horário de Verão 2011/2012

Querido diário:
TODOS MADRUGANDO, ALGUNS LUCRANDO [1]
          Muito antes de se falar em lucros e reis, as aparências levaram o homem antigo à constatação de que o Sol despendia um período regular, chamado de 24 horas, para dar uma volta completa em torno da Terra. Cérebros diligentes conseguiram, em tempo hábil, constatar que, sim, o Sol gira, mas não em torno da Terra. E esta gasta pouco mais de 365 períodos de 24 horas para dar uma volta completa no que, assim, passou a chamar-se de Astro Rei. Ou seja, o período de 24 horas marca outro fenômeno: um giro da Terra com relação a si própria, por assim dizer, independentemente do Sol. Já se sabia que um dia não é igual ao outro, sendo esta observação empírica organizada em torno de conceitos tais como o de Passeio do Sol, equinócios e solstícios.
         Dia de equinócio já provocou muita celebração, dada sua raridade, uma vez que há apenas dois por ano. Sua peculiaridade é que as horas de luz e sombra dividem-se fifty-fifty. Também os solstícios são raros, e marcam a maior noite (no solstício de inverno) e a menor (no de verão). Dois solstícios e dois equinócios constituem-se em pontos extremos de uma elipse, chamada de Eclíptica, ou, mais geocentricamente, de Passeio do Sol. Ocorre que, ao descreverem esta trajetória elíptica, os raios solares produzem períodos diários de maior ou menor iluminação, o que, sem trocadilho, se refletiu nos diferentes ritmos do trabalho humano, atrelando-o aos ritmos da natureza.
         Na medida em que o ser humano foi transformando a natureza, ele também foi transformando a si próprio, rompendo cada vez mais com os ritmos ditados por aquela. Todavia, os contatos sociais são facilitados quando os diversos agentes obedecem a um mesmo esquema de regras, assinalando-se, por conveniência, os horários. Assim, as sociedades arbitraram regras para desfrutarem de períodos comuns para suas atividades de trabalho ou lazer.
         No Brasil, da mesma forma que na Inglaterra, o maior volume da atividade econômica se encerra diariamente, digamos entre cinco e sete horas depois do meio-dia. Ocorre que, tanto no sul do Sul como aqui, nas proximidades do solstício de inverno o dia já virou noite às 6 p. m. Simetricamente, no solstício de verão, 6 horas p. m. ainda é dia claro. Nestas circunstâncias totalmente ditadas pela natureza, concebeu-se (no período em torno do solstício de verão) alterar o contrato social que faz as pessoas iniciarem seu trabalho, digamos às oito horas da manhã do dia claro e o concluírem às 18h, já sem a necessária quantidade de luz solar.
         Essa mudança nos hábitos sociais, manifesta pelo fato de todos despertarem uma hora mais cedo, usando luz artificial menos tempo, implica economia de energia não fornecida diretamente pela natureza. Numa sociedade cuja organização econômica esbarra na escassez e repousa no lucro, nada mais sensato do que economizar luz artificial. Aparentemente, todos ganham, e ninguém sai perdendo.
         O ingresso no mundo encantado da economia faz com que tudo vire mercadoria, tudo se transforma em fetiche com preços e lucros. Cabe, assim, indagar o que foi feito da hora de repouso retirada a todos os membros da sociedade durante a primavera, mesmo que devolvida algum tempo após. Se é certo que o chamado "horário de verão" implica economia de energia, alguém lucrou. Resta sabem se os ganhos acima referidos são democráticos.
         Admitamos que, em 1987, o aumento da produtividade no uso dos recursos representados pela implantação do horário de verão gerou, em 105 dias, uma economia de energia de cerca de 786 milhões de kiloWatts-hora (1,5% do consumo total de energia no ano citado). Desse volume, os consumidores se apropriaram de, no máximo, 35%, na forma de consumo residencial e iluminação pública. Isto implica que a economia dos setores industrial e comercial foi de 551 milhões de kWh. Caso esta economia tivesse sido integralmente transferida aos então cerca de 142 milhões de brasileiros madrugadores, cada um teria lucrado quase quatro kWh. Isto representa, se não estou enganado, um banho gratuito de chuveiro elétrico de 100 minutos para cada brasileiro.
         Não é muito, reconheco, mas se considerarmos que estes banhos gratuitos foram concentrados nas mãos (ou no lombo?) de cinco milhões de empresas, já se trata de 50 horas de banhos para cada uma. Não é pouco. Transferido esse consumo para um aparelho menos gastador de energia, como um televisor, essa economia ficaria muito mais visível.Supondo que foram os trabalhadores que suaram essas horas de banho, eu chamaria esse fenômeno de aumento da mais-valia relativa.
         Mas nem só de mais-valia relativa vive o capitalismo. Consideremos a hora de repouso que foi retirada aos trabalhadores no primeiro dia do horário de verão. Isto se constitui em mais-valia absoluta. E também vale dinheiro. Como referi, ela lhe será restituída após 105 dias, no Brasil, e após sete meses, na Inglaterra. Como ela é medida em termos físicos, sua devolução prescinde de correção monetária. Mas quem se apropriou dela durante 105 dias (e não se trata apenas de uma hora, e sim de uma hora multiplicada pelo número de trabalhadores), se aplicar os kiloWatts no "over" a uma taxa de juros de 12% a. a. receberá 3,5% a mais depois de 105 dias.
         Num país em que um número expressivo de cidadãos usa como "cartão de crédito uma navalha", não é de espantar que a regra de funcionamento da sociedade repouse sobre a apropriação individual dos frutos do trabalho coletivo. A exemplo da Inglaterra, que mais esperar de uma sociedade cuja organização econômica esbarra na escassez e repousa no lucro?
DdAB
[1] Publicado no Bulletin of the Oxford University Brazilian Society, N.3 p.6-7, Outubro de 1989. Reproduzido no livro “A Cura da Época Futura”.
(2) E a imagem foi editada a partir da linda book review daqui. Parece que o futuro voltou a chegar ao país do futuro.
{3} Nota bene: acabo de dar uma olhada na internet na frase “esbarra na escassez e repousa no lucro” e parece que apenas eu é que a escrevi. Acho que me emocionei ao fazê-lo, tanto é que a repeti dentro do próprio artigo.

/4\ Parece óbvio que editei este negócio todo em 17/out/2012, não é?

sábado, 20 de outubro de 2012

Jabuti na Mesoeconomia

Querido diário:
Que podemos dizer sobre o 54o. Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro? Tudo aqui. É ganhar a listagem final com a quarta posição!


Que mais posso dizer num sábado, além de encaminhar meu leitor à postagem original sobre este livro? Hein, hein???
10 de julho de 2011
DdAB

Tudo (ou quase) por aqui:

21 de junho de 2011:
10/julho/2011:
29 de julho de 2011:
28 de outubro de 2011:
http://19duilio47.blogspot.com.br/2011/10/mesoeconomia-novidades-no-front.html

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Desemprego, Brasília, Europa

Querido diário:
Se não é o mundo que fervilha nesta manhã, certamente é o que faz meu jornal Zero Hora. Além de um tétrico lugar comum daqueles que eu achava ser exclusividade de Lurdette Erthel (e não era apenas ela...) na p.38 ("Um acidente de trânsito interrompeu a trajetória de pai e filho na manhã de ontem, em Vacaria, na Serra." Pode?), há uma tabela, tá aqui ela:
Taxa percentual de desemprego de pessoas economicamente ativas com menos de 25anos de idade, com ajuste sazonal

Países Agosto/2011 Agosto/2012
Grécia 45,8 55,4
Espanha 47,2 52,9
Portugal 30,3 35,9
Irlanda 30,6 34,7
Itália 28,9 34,5
Suécia 22,2 25,7
França 22,1 25,2
Grã-Bretanha 22,0 21,0
Holanda 7,5 9,4
Fonte: p.26 de Zero Hora 19/out/2012.

Há duas rimas importantes para estes números, além da ironia de que o presidente do INSS está para ser demitido do cargo por razões que desconheço, mas intuo: incompetência da repartição.

Primeira rima: Brasília. No caso, rima com George J. Stigler. Explico-me. Stigler disse num local que direi um dia desses que qualquer modelo econômico cujo coeficiente de determinação (r^2 ou R^2) é menor do que 0,5 deve ser substituído pelo lançamento de uma moeda não-viesada. Boazinha, né? Uma coisa é usarmos a retórica e outra é sermos burros (retoricamente), pois Leonardo Monastério já mostrou-me algo educativíssimo aqui sobre o significado deste coeficiente.

Claro que não vou propor o mesmo para o caso do supremo tribunal. Neste caso -como sabemos- sou mais radical, recomendando é seu fechamento. Mas às vezes dá para pensar se não seria o caso de termos as decisões judiciais tiradas na base da cara-ou-coroa. Na linha do trade, tariffs and theft, do afamado artigo de Gordon Tullock, a sociedade não sai perdendo nada quando um ladrão rouba tua televisão (mais rimas...). Mas perde se ele tem a ideia macabra de comprar um pé-de-cabra (e ainda outra) e perde mais se ficas injuriado e compras um cadeado. Mais ainda se ele reforça o pé-de-cabra, e assim por diante. Ou seja, tens um problema com teu amigo? Bota na justiça, que ela resolve por sorteio. Se já fores direto resolvendo com o amigo sem recorrer à justiça, a moeda não-viciada substitui com enormes ganhos de escala a pantomima protagonizada pelo poder judiciário.

Este caso deixou-me novamente estupefato ao ver os escores dos jogos de ontem do julgamento do Mensalão: 5 x 5 aqui e ali. E ainda mais: ministros que votaram no Grêmio passam agora a votar é com o Internacional. E os que apoiaram o Inter passam agora a votar de acordo com o figurino tricolor. Pode? Bebe-se, bebe-se e nada acontece...

Segunda rima: acima da tabela que, modestamente, levou à acima (rima com acima veio cedo), há uma foto com dirigentes da União Europeia, recém laureada com um prêmio nobel daqueles que já foi empalmado por Jimmy Hendrix (Al Gore?) e George Clooney (B. Obama). O que acontece é que a melhor política econômica para combater aquele avassalador desemprego não pode ser simultaneamente o aumento do gasto e a sua redução, o aumento da oferta monetária e sua redução, o aumento dos impostos ou sua redução. A cada par, uma e apenas uma é que seria sorteada com o lançamento de uma moeda não-viesada. Deveriam usá-la e parar com a fofoca.

Mas há ainda um texto em prosa que é mais do que justificado: quando digo que a humanidade deve:

.a. dar solução radical ao problema das drogas (a mente desocupada é a oficina do diabo, ou seja, jovem desempregado bem pode tornar-se consumidor de drogas pesadas, leves e médias) e

.b. dar solução radical ao problema dos anos de inserção dos indivíduos humanos no mercado de trabalho, levando-os a trabalhar não mais de 20 anos durante seu curso de vida; o grande problema do INSS não é que o pessoal poderia aposentar-se com 50 anos, mas que políticos de várias idades passam a mão nos recursos escassos.

Muitos acusam-me de dreamer. Ao que eu respondo: but i'm not the only one.

DdAB

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Vereança para Todos!

Querido diário:
Parece que o episódio das eleições está longe de poder declarar-se terminado. Não apenas naqueles municípios em que o prefeito segue incógnito (esperando o segundo turno), mas também nos em que ele/ela já é conhecido/a. Então seguimos com foco no que virá nos próximos 10 dias. De sua parte, os vereadores já estão fazendo seus planos sobre quais parentes nomear (há escassez de cargos, dado o prolífico número de parentes e amigos detentores de cargos em comissão de menor envergadura).

Fiquei pensando se o melhor mesmo não é, ao nascermos, já irmos logo recebendo a comenda de vereador, com o quê teríamos nossa liberdade financeira até para montarmos nosso enxoval para sairmos da maternidade. Depois achei que o Serviço Municipal ainda é melhor: ganhamos apenas quando soubermos como gastar, ou seja, ao completarmos a formação educacional pré-universitária. Mas o importante é que este corte abrupto entre eleitos milionários e eleitores comprometidos monetiariamente deve ser rompido, para bem do mal-estar das elites.

DdAB
P.S. Sem esquecer que pesquisa pode esconder a verdade, como ouvi de um bêbado que -ao ser entrevistado pelo Ibope- mentiu tudo, ou seja, respondeu tudo ao contrário para enviesar os resultados.
P.S.S.: imagem aqui, com pilhas de sopas quêmbel. P.S.: uns tempos atrás, inventei um molho de macarrão que se resumia a abrir uma lata de sopa-em-lata e despejá-la sobre a pasta devidamente acolhedora. Em meu club des garçons gourmets, foi recebida sem excessivo entusiasmo.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Exageros Literários

Querido diário:
Quem me lê para cá e para lá, terá observado que, no site, tenho uma seção chamada de "Exageros Literários", o mais destacado é "que se quede el infinito sin estrellas", para o caso da perda, pelo bacán, dos olhos negros da garota. Daqui a instantes, vou acrescentar por lá uma que li hoje, ao dar uma folhada num livro ("Resssentimento") de Maria Rita Kehl, que usa como prólogo o poema "Conclusão" inteiro. Mas aqui tá apenas o verso e sua licença poética:

[...] o que não é poesia não tem fala. [...]

Pensei que meu paper em co-autoria com a profa. Brena (ver site), a ser apresentado no vetusto encontro da ANPEC do próximo dezembro, não é poesia, logo ele não tem fala. Modus ponens, modus tollens, aquelas coisas lá dela.Mas pensei em minha fala ("dê-me um jornal", "quero com gelo e limão") e imaginei que tampouco isto é poesia.

Mas também considerei possível fazer um hai-kai em homenagem à política brasileira:

Primeiro verso (momento um de pedido do eleitor ao jornaleiro)
Dê-me um jornal.

Segundo verso (momento dois: leitor comentando com o garçom)
Belas notícias, heim? Só bebendo.

Terceiro verso (momento final: garçom indaga se leitor quer pura ou com limão, ao que o eleitor responde, resignado)
Quero com gelo e limão.

DdAB
A imagem de lá saiu daqui.
E minha fonte, além do livro da profa. Maria Rita, são as obras completas de Drummond, da Nova Aguilar (2003), trascritinho na p.402.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Viracopos Vira a Mesa

Querido diário:
O aeroporto de Viracopos, em Campinas, ficou 48 horas fora de combate -pelo que diz a televisão- em resposta ao acidente que ocorreu na hora da aterrisagem de uma aeronave de carga. Catástrofe? Milhares de mortos? Nada disto. Era um avião de carga, não explodiu, nem nada, não houve vítimas humanas. Que houve?

Houve que o setor governamental que controla os aeroportos tem uma regra de pão-duro: se o avião estraga na pista, quem remove é o dono. Então o dono, que tinha feito um seguro de seu bem de capital, precisou chamar as autoridades que lhe devolveriam seu rico dinheirinho, que tomaram ainda mais algumas boas horas para fazer a tal perícia e permitir-lhe meter a mão no dinheiro. Perícia, laudo, muito tempo de tramitação. Enquanto isto, o aeroporto ficando fechado.

Seguro não é para isto e nem agência de controle de aeroportos para agir desta forma. Parece claro que é ela que deve remover a aeronave e, sendo o caso, ressarcir-se dos custos da remoção (trator?, faxineiros?).

Qual a perda social devida à incompetência do governo e ao azar que colheu o tal avião? Claro que o avião deveria ser segurado. E nós também, contra este tipo de incompetência de alguma cláusula das regras da regulamentação das atividades destes reguladores da vida terrena dos aviões.

Tampouco posso evitar de pensar no caso de uma carroça puxada por um papeleiro precavido. Ele faria um seguro e, ao ser abalroado por um caminhão, sacaria de sua apólice de seguro e chamaria os rapazes para dar-lhe o laudo que lhe permitiria meter a mão na indenização pela perda do bem de capital, do dia de trabalho e, quem sabe?, da própria vida?

DdAB
De sua parte, a simpaticíssima imagem vem daqui.
P.S.: ficou claro que o papeleiro teria apenas poucos segundos para tratar destes assuntos e sua viatura seria removida com um ciscar de vassoura?

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Caroneiros e o Mercado de Lixo Seco


Querido blog:
Tudo começou com a frase que aprendi n'O Capital, Vespasiano dizendo que as tarifas recebidas pelo uso de latrinas públicas em Roma cheiravam tão bem quanto as moedas recebidas de qualquer outra origem. A expressão latina é non olet (não fede) como já usei aqui. Quero voltar a usá-la hoje, o que me fez ir ao Google, procurando a ortografia correta. E vi, além dela, que esta frase é um princípio do direito, de acordo com o qual - e terá sido o que levou Al Capone à cadeia - o dinheiro, mesmo que ganho ilegalmente, deve pagar imposto de renda. Agora não sei se Marx sabia desta origem no direito ou se é o contrário, a sabedoria do velho imperador é que se fez ouvir pelos advogados tributaristas.

Pois bem, haverá lixo que não fede? Há muito atempo, ele já se transformou em mercadoria. O que é fruto das economias com excedente de mão-de-obra e escassez de instituições governamentais adequadas são os papeleiros, os carregadores de lixo, a fim de separá-lo e revendê-lo como sucata. Os trabalhadores desempregados, ao lidarem com o lixo, não apenas detêm empregos precários, mas ao mesmo tempo, a indústria é tão próspera que tornaram-nos verdadeiros profissionais, montando um verdadeiro sindicato para defender interesses e zonear áreas de coleta.

Um milhão de anos depois de ver este uso do lixo, a prefeitura de Porto Alegre (e dezenas de outras no Brasil), decidiram fazer a coleta seletiva, ou seja, em casa a gente já separa o jornal velho do tomate apodrecido, ou do resto da salada de batatas com maionese que sobrou no prato. E um ano depois desta iniciativa (meritória, sob o ponto de vista do clube da baixaria), o que se via era papeleiros caroneiros, ou seja, papeleiros que chegavam antes da chegada do caminhão do sindicato dos catadores e levavam para si o lixo seco.

Em resumo, o desemprego no setor formal criou o setor informal. tentando melhorar a vida do informal, criou-se a coleta seletiva. o caroneiro invadiu o sistema e segue a catação desorganizada, dando margem aos desvios criminosos conhecidos. 

O governo municipal fez terceirização precária, ajudando a desorganizar as cidades. É óbvio que a solução igualitária é criar-lhes empregos como funcionários da própria prefeitura, dando-lhes todos os direitos dos demais trabalhadores. Papeleiro com emprego decente terá filhos estudando em colégios decentes, dentes consertados por dentistas decentes, sapatos consertados por sapateiros decentes, e por aí vai.

DdAB
P.S.: como não poderia deixar de ser, este tipo de organiza-desorganiza levou-me a pensar se bem entendo o conceito de entropia. Peguei da Wikipedia: the amount of additional information needed to specify the exact physical state of a system.
P.S.S.: a imagem é daqui.

domingo, 14 de outubro de 2012

30 Maneiras de Ganhar Dinheiro

Querido blog:
Em torno da semana 1-8 de novembro de 2006, eu estava em Londres. Era meu pós-doutorado na Freie Universität Berlin, mas o bilhete aéreo era tão atraente que passei vários fins-de-semana e feriadões no reino da rainha. Como sei, se meu passaporte não era carimbado, às vezes nem exibido? É porque tenho um exemplar da revista Time Out London, com a programação cultural, gastronômica, etc., da cidade, e dicas muito úteis.

Agora, saber o que me levou a selecionar a matéria:
Money Special
Ready, steady, dought: 30 tips to get rich quick!

O titulo, mesmo agora, promete. A memória é que é faulty. Parecia-me que esta matéria, em seu item .3., já era de meu conhecimento antes de 2006, talvez até em outra incursão londrina, digamos, 10 anos antes. E por que me interessei por ela e por que aqui a posto? Era um tempo em que eu me preocupava com o que batizei como "Finanças da Família", algo em que me envolvi em meus tempos de PUCRS em torno do ano 2002 e 2004. Em 2002, a FIFA estava na moda, o que me levou a criar o próprio nome e a sigla para o que viria a ser um concorrido centro de estudos de orçamentos familiares e dicas relacionadas.

Tão profundo foi meu mergulho neste assunto que, por vias sinuosas (mas nem tanto), vim a participar de um programa Globo Repórter que levou gente de todo o Brasil a ver minha lata e mesmo colegas de 50 anos atrás (de 2004) telefonarem de Matto Grosso, para se congratular comigo em meu momento de fama! O tal programa também levou-me a vivenciar uma experiência interessante e comovente. Uma senhora paulista enviou-me um e-mail falando de uma situação crítica, na condição de pequena empresária. Fiz o que pude para ajudá-la. Traduzi um texto que fala de restaurantes mal-das-pernas (que veio a ser publicado no livro de Mesoeconomia, no capítulo da matriz de insumo-produto da empresa). Mas nada se iguala ao item .3. Vender cabelo, como possibilidade de gerar dinheiro a curto prazo. Minha tradução abaixo é tíbia e temerosa. Tive que adaptar o que pude, pois praticamente não entendi nada, exceto esta de "sell your hair". Eles dão tudo com os correspondentes endereços, que omito por razões óbvias (sendo óbvias, não preciso decliná-las, o que as põe na penumbra).

.1. Get your kit off - atuar como modelo (talvez nu) de pintura. Pagamento: entre nove e 12 libras por hora de pose;

.2. Get down the pub - responder a perguntas sobre "trivia" em alguns pubs londrinos, num concurso. Por exemplo, qual o código postal do Palácio de Buckingham.

.3. Sell your hair - venda de cabelo. Eu já ouvira falar nisto e vira trabalhadores precários anunciando o endereço dos compradores nas ruas de Porto Alegre.

.4. Flog your designer clothes - venda das roupas usadas. Eles dizem que, no caso das roupas de griffe (termo brasileiro...), pode-se recuperar até 30% do dinheiro pago.

.5. Donate your sperm - depois de algumas formalidades (exames, entrevista), pode-se doar esperma para clínicas de fertilidade. Vendendo a mercadoria três vezes por semana, chega-se ganhara 150 libras.

.6. Rent your parking space out - se bem lembro, o morador britânico tem direito a um espaço de estaconamento na rua "residents permit only". E pode-se alugá-lo (será que legalmente?) por até 3.000 libras por ano.

.7. Get a video on 'You've Been Framed' - sugestões do tipo de postar uma escada na porta da casa de um amigo esperando que este, ao abri-la, derrube o cineasta, tudo filmadinho. Rende nos programas de vídeo-cacetadas até 250 libras.

.8. Have a punt - ou seja, fazer apostas em eventos possíveis. Dão alguns exemplos, inclusive a possível saída de Tony Blair da '10 Downing St.' em 2007. Boa dica. Mas não dão quanto podemos ganhar com este tipo de aposta.

.9. Put your kids to work - como atores, modelos, essas coisas. Falem em até 600 libras.

.10. Take drugs - ou seja, coloque-se como cobaia de programas que estudam a dependência química. Pode-se ganhar 10.000 libras.

.11. - Hire your home out for a shoot - ou seja, alugar a casa para uma filmagem, foto, algo assim. Chega a pagar 1.500 libras.

.12. Play online poker - um jogo de pôquer em grupo. Um atleta ganhou 600 num torneio com 400 pessoas.

.13. Become a paparazzo - fique na espreita de alguma celebridade, fotografe e ganhe um bom dinheiro. Não diz quanto.

.14. Go dog-walking - passear o cachorro dos outros, ganhando até 10 libras por hora.

.15. Pawn your jewels - empenhe as jóias. Não me pareceu boa ideia, pois tem é que pagar um juro de 7% sobre o "empréstimo". Mas isto é bem comum no Brasil com a Caixa Econômica, que tem uma carteira de penhores muito ativa.

.16. Go flyering - pagando até 10 libras por hora, trata-se de distribuir folhetos de bares e clubes nas ruas.

.17. Advertise in Private Eye's 'Eye Need' Page - Tem uma revista chamada 'Private Eye', com uma seção em que a pessoa informa o leitor a razão que a/o leva a precisar de dinheiro. Dizem eles: "Nunca se sabe...". Eu só faria com pseudônimo, hehehe. (Se é que não fiz, hehehe, hehehe).

.18. Grow fruit and vegetables to sell to friends - esta é para quem gosta de jardinagem ou tem terras ociosas... Mas, ficando famoso com os produtos "orgânicos", pode-se também ficar rico. Só que dá um trabalhão...

.19. Get grumpy - faça reclamações de tudo por meio de cartas sobre produtos defeituosos. Diz a revista que, se você ganhar o cupom de restituição do dinheiro pago, pode levá-lo à venda no eBay... Nâo diz quanto se pode ganhar.

.20. Try folk dancing in public! - malabarismos, piruetas, break-dance. Parece que precisa de uma licença da prefeitura, tendo má fama principalmente aquele recorte de ficar imóvel, característico de pessoas que gostam de fazer o papel de tolas.

.21. Take online surveys - responder a pesquisas de opinião por meio da internet poderia pagar entre duas e 60 libras por questionário.

.22. Be a mystery shopper - ir às compras não para comprar, mas para ver como os verdadeiros consumidores o fazem. Não diz quanto se ganha.

.23. Busk - tocar instrumentos musicais na rua. Nâo diz quanto se ganha.

.24. Enter competitions - no caso, ficam dizendo mais as que devem ser evitadas. E não diz quanto se ganha.

.25. Sell your (miserable) story - escrever uma autobiografia ou outra história igualmente piegas, mas cheia de sofrimento pode render umas boas 2.000 libras.

.26. Wash cars - é o que chamamos da parte da lavagem de carros das atividades de flanelinhas. Algo regulado pela câmara dos vereadores de Porto Alegre, numa elogiável prova de estupidez. Pode-se ganhar até 2,50 libras por hora.

.27. Work as an extra - esta é para quem tem talento para ser ator/atriz de cinema ou TV. Não diz o guadagno.

.28. Exchange old games for cash - alguns jogos de computador podem ter virado raridade desde sua infância/adolescência. Neste caso, você pode vendê-los por até 20 libras.

.29. Sell on Amazon - Tudo do 28 pode ser feito na Amazon.

.30. Write a smash hit - Estoure com uma música nas paradas de sucesso. Dizem que um rapaz da zona sul de Londres ganhou 11.100 libras no eBay um verso de uma canção intitulada Montanha Russa". Ou era "Tobogã"?.

Leu tudo? Bom resto de domingo.

DdAB
Peguei a imagem deste simpático blog.

sábado, 13 de outubro de 2012

QALY e Tecnologia

Querido blog:
Antes de escolher o título desta postagem, olhei no buscador de meu próprio blog e ele indicou que fiz duas outras envolvendo esta expressão: quality adjusted life years, ou anos de vida ajustados pela qualidade. O problema é simples: que vale mais a pena - viver 10 anos de um curso de vida com hemodiálise ou viver dois meses e meio de vida normal. Simples, que digo? O problema, claro, é simples, supondo que as probabilidades associadas aos dois eventos sejam unitárias. E a decisão é complicadíssima, se não neste exemplo que dei, mas em outros até mais relevantes.

Um final feliz aconteceu no dia 2/out/2012 em Passo Fundo. As meninas gêmeas Kauany e Kerolyn nasceram unidas pelo abdômen (que pode-se escrever 'abdôme' e pronuncia-se 'abdômem') em 31/jan/2012. Elas foram, para glória do planeta, operadas e separadas, ambas com vida. O caso de gêmeos xifópagos não é nada incomum, pelo que deduzo do que li, ocorrendo em mais de 10 vezes ao ano, em pleno Brasil. Fora a China, a Índia e o resto dos BRICs e demais arcaísmos terráqueos (os países propriamente). Em alguns destes casos, ocorre aborto espontâneo e em outros ainda, quando se tenta a separação, 'perde-se' um dos gêmeos.

No caso de Kauany e Kerolyn, a operação durou nove horas e teve o envolvimento de 20 trabalhadores da saúde. O caderno Vida de ZH, em suas duas páginas centrais tem uma reportagem sobre o evento e uma entrevista com o cirurgião pediátrico dr. Gustavo Pileggi Castro, pelo que entendi, coordenador geral da operação. Destaco uma resposta:

Indaga Vida: Como foi o contato com a mãe e as gêmeas antes da cirurgia?

Responde GPC: O primeiro passo foi ter contato com a mãe. Explicamos que era uma coisa rara e que teria condição, pelo que mostrava na primeira ecografia, de fazer uma separação ideal, sem ter que escolher pela vida de apenas uma das meninas.

Assanhei-me e pensei direto no QALY: e se tivesse que escolher pela vida de apenas uma delas, digamos que, seguindo o critério alfabético, Kauany? Que seria da consciência dela, ao saber, daqui a alguns anos, que vive sozinha, pois sua irmã siamesa foi morta no momento de sua libertação? Patético? A terrível escolha pela vida de A, em prejuízo da vida de B, é casca grossíssima. A solução é usar este método, que jogou a análise de custo-benefício precisamente naquilo que ela tem de mais polêmico: o preço/custo de uma vida humana.

O livro de teoria dos jogos que estou escrevendo em co-autoria com a profa. Brena Fernandez falará, em algum ponto, que -no futuro- todas as nossas decisões serão ajudadas por programas de inteligência artificial. É claro que os enfermeiros muito deles se valerão, a fim de hierarquizar a entrada nos setores de emergência dos hospitais planetários. Da mesma forma, seria muito mais barato (menos custoso) para o tomador da decisão sobre a vida de A ou de B se ele pudesse apenas consultar um tabletzinho perfeitamente confiável, ou o que o valha, indicando-lhe a decisão.

DdAB
E a imagem moebius/escher/transformada é daqui.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Talvez pode ser Quiçás!

Querido blog:
Indaguei ao prof. Conrado (blog aqui) que lhe parecia "certo":

1) Talvez foi em agosto que vi a estrela.

2) Talvez tenha sido em agosto que vi a estrela.

Indiquei que minha preferência recaía na segunda forma. Sua primeira e importante lição está aqui:

Essa coisa de "certo" e "errado" é sempre complicada. Digamos, de saída, que não há certo nem errado na fala de falante nativo. Tal posição é, claro está, bastante radical. Mas partamos dela e façamos, as we move along, os devidos ajustes.

E prosseguiu:

Como tu, eu também prefiro a frase (2). Isso terá a ver com nossa intuição de falantes nativos letrados, evidentemente, mas, para além disso, penso haver bons argumentos para defender (2) contra (1):

(a) O advérbio "talvez" , porque "indica possibilidade, mas não certeza" (cf. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa -- DEULP) se emprega com muita frequência no subjuntivo, bem mais que no indicativo. Assim, no indicativo, como na frase (1), não estaria "errado": tudo depende do que se terá querido dizer. Isso não sabemos (eu pelo menos não o sei), porque uma frase pouca coisa nos informa se não a temos inserida num contexto específico. Dizemos que as palavras e as frases isoladas têm "significado", mas, sem um contexto, não terão "significação" ou "valor".


(b) Observo no mesmo DEULP que há usos "formais" do talvez em que se usa o indicativo, mas nestes já não parece haver mais o sentido de "possibilidade" e "incerteza". Vejamos os exemplos:


3) Plantas não aguadas t. medram nesse terreno turfoso. (Sentido de "talvez": ocasionalmente, eventualmente; alguma vez .)


4) T. ele, num bom repasto, começa a beber demais. (Sentido: às vezes; por vezes.)

Não me parece que algum desses sentidos em (3) e (4) possa se ajustar ao contexto em (1). Que te parece?


Em resumo, dado o sentido inicial de "talvez", o de "incerteza", "possibilidade", o modo subjuntivo se mostraria mais adequado do que o indicativo, ainda que não devamosv categoricamente excluir o indicativo (ao menos sem considerar mais detidamente o contexto). Observe-se este exemplo com indicativo no DEULP:

(5)  Estes são, t., os únicos exemplares da espécie que sobreviveram. (Em lugar de "...tenham sobrevivido", que certamente contribuiria com o grau de "incerteza".)


Uma última observação. Comparem-se as três frases abaixo:

(6)   a. Estes são, t., os únicos exemplares da espécie que sobreviveram. (= 5)

       b. Estes são, t., os únicos exemplares da espécie que tenham sobrevivido.
       c. Estes são, t., os únicos exemplares da espécie que sobrevivam.
       d. Estes são, t., os únicos exemplares da espécie que sobreviverão.

(6a) = pouca incerteza, quem sabe incerteza retórica (indicativo).
(6b) = incerteza quanto ao que se tenha passado (subjuntivo).
(6c) = incerteza quanto ao que ocorra no futuro (subjuntivo).
(6d) = incerteza quanto ao futuro, mas atenuada (indicativo).


Depois disto, achei por bem estudar tudo tintim por tintim.

DdAB

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Repressão depois do crime?

Querido blog:
No primeiro dia de aula da faculdade de economia, deve-se ensinar ao aluno a diferença entre proposições ex ante e proposições ex post. As primeiras, também chamadas de planejadas, confrontam-se com as demais, chamadas de realizadas.

Assim, sabemos que ontem houve equilíbrio entre compras e vendas em todos os mercados imagináveis (e que realmente existiam). Este equilíbrio, como revelou o pretérito do verbo haver, é realizado, ocorreu ontem, está escrito para sempre nas páginas imutáveis da história. Agora, amanhã, posso prever que, se a demanda pelo produto que minha firma vende é de, digamos R$ 1.000, então se eu colocar precisamente estes R$ 1.000 no mercado, estarei em equilíbrio. Como o verbo estar encontra-se no futuro, não estamos falando de coisas realizadas, mas de eventos planejados, ex ante. E se eu produzir R$ 1.000, levar ao mercado e, lá chegando, vender apenas R$ 900? Aí estará significando que o equilíbrio planejado deu errado. E que o equilíbrio realizado deu R$ 900 = R$ 900, pois ninguém pode comprar de mim algo que eu não venda.

Dito isto, lembro-me de Lia Haguenauer discutindo o conceito de competitivade, quando recuperou estes conceitos (ex ante e ex post) para enquadrar os estudos da competitividade e mesmo a relevância do conceito. Quando criamos um índice para medi-la, provavelmente estaremos usando conceitos ex post. Mesmo concebendo que haverá modelos que nos permitam prever a competitividad, digamos, da China, para daqui a dois anos, o jeito mais potente de calcular é mesmo avaliar quanto este alcançou durante o ano passado.

Por fim, hoje vi no jornal que um policial sugeriu que, cada vez que formos assaltados, devemos escrupulosamente denuncair o fato a uma delegacia de polícia, para que os diligentes defensores da segurança pública possam mapear os locais de maior concentração de assaltos e aí, apenas aí, é que vão meter guardas para conter os réprobos.

Pensei direto: então precisamos ser assaltados hoje, a fim de evitarmos o assalto de amanhã. Pensei em seguida: não era mesmo eu que propunha a criação da Brigada Ambiental Mundial, em que o número de psicopatas, narcisistas e outros entes deletérios ao convívio social seriam encaçapados no xilindró?

DdAB
Imagem: aqui.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Perspectivas eleitorais para nossos netos

Querido blog:
Nos dias que passaram, passaram-se várias coisas. Meu envolvimento com as eleições foi perfunctório, dado meu enorme descrédito com a humanidade:
.a. desde que o Grêmio foi rebaixado e
.b. desde que aquele tortuoso referendo sobre o porte de armas fez-se acompanhar pelo mensalão. A partir daquele ponto, retirei-me do sistema eleitoral (desobediência civil), ao qual retornei há dias. Votei para prefeito e vereador. Mas juro que não me decepcionarei, pois nada de radical espero deles. Mesmo que salvem a cidade, mesmo que a roubem.

Minha plataforma foi anunciada:
.a. voto facultativo
.b. voto distrital
.c. financiamento público das campanhas
.d. como tal, proibida a doação de empresas (e até de indivíduos) a candidatos
.e. permitida uma reeleição para qualquer cargo (vereadores, governadores), inclusive de juízes (ou seja, juízes passam a ser eleitos)
.f. convênio com a indústria farmacêutica para criarem um spray contra a pouca-vergonha.


A ela acrescentei medidas concretas:
.a. fim da Hora do Brasil
.b. legalização do aborto
.c. reformas política e tributária
.d. criação de 20 milhões de empregos no Serviço Municipal.

Segue-se logicamente que andei dando uma olhada no artigo de Keynes intitulado "Possibilidades econômicas para nossos netos", artigo de 1930, em conferência dada na Espanha. Aprendi que ali reside o lançamento do conceito de "desemprego tecnológico", o que não parece ter caído suficientemente nos ouvdos dos arautos do progressismo na sociedade. Penso nos economistas igualitaristas, nos sociólogos do trabalho e em dezenas de outras especializações profossionais que pdoeriam pensar nestas linhas para a reforma social

Basicamente, o que aprendemos com Keynes e com dezenas de comentadores é que não haverá empregos para todos, dado o nível de tecnologia que hoje a humanidade atacha a sua função de produção agregada. Para empregar todos os desempregados, seria necessário um investimento de tal magnitude a cobrir praticamente todo o PIB mundial por um ou dois anos. E seria desnecessário, pois o planeta explodiria se tantos recursos fossem mobilizados.

O mundo encaminha-sse para alguma solução em que a jornada de trabalho é que deverá ser reduzida. Ao contrário de demagogos como o sernhor Fernando Henrique Cardoso (que elevou a idade da aposentadoria do trabalhador brasileiro para 75 anos) e marginais europeus que estão crescentemente fazendo o mesmo, o que deveríamos ver seria uma redução sistemática desta idade.

É preciso que haja estudos sérios mostrando que os velhos têm produtividade inferior ao jovem, o que daria elevação total da produção com esta mudança. E não seria nada mau que um indivíduo humano trabalhasse, digamos 15 anos (dos 25 aos 40) durante seu ciclo de vida. Para não falar nos filhos dos ricos que nunca trabalham, podemos pensar em outro tipo de gente que faz uma fortunazinha e depois passa a dilapidá-la.

O que achei interessante na derrota eleitoral do candidato Adão Villaverde, do PT porto-alegrense, foi que o jornal que costumo ler noticiou como: "No lugar de Dilma, eu agiria diferente". Refere-se ele à baixa participação dela na campanha. Eu fiquei pensando: "N o lugar do PT, eu teria agido diferente", quando pilhas de pessoas disseram que era um fria aquele negócio de "candidatura própria". O que queriam agora, depois que todos avisaram? Que revertessem os resultados e o PT pudesse ter ganho? Contrafactual assim já é demais.

Mas tem algo mais interessante na entrevista da p.6 de Villaverde. E eu, valorizando sua manifestação, retiro-a um pouco do contexto local. Vejamos:

[...] precisa se sintonizar de novo, reamarrar os laços, recuperar e atualizar seu projeto de acordo com os interesses da

Eu deixei em branco para acrescentar: da humanidade. Parece mesmo ter chegado a hora das forças populares (quem, quem?) incorporarem estas novas palavras de ordem: menos emprego, mais renda. Parece ter chegado a hora de lançarmos o Serviço Municipal, inserido na Brigada Ambiental Mundial voltada à ocupação da mão-de-obra prestadora de cuidados pessoais e ambientais com: .
1. três horas de ginástica por dia (para manter a coluna ereta)
.2. três horas de aula por dia (para manter a mente quieta)
.3. três horas de trabalho comunitário por dia (para manter o coração tranquilo).

É preciso engajar o povo na atividade social de geração, apropriação e absorção do valor adicionado. E preparar a sociedade para expandir as transferências interinstitucionais, tornando-as maiores do que o próprio valor adicionado!
DdAB
Imagem: abcz.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Sociedade Desigual e Eleições

Querido diário:
Ontem, parece que não fechei o círculo sobre os resultados das eleições e a falta de igualitarismo que grassa na sociedade brasileira. E mesmo fiquei em dúvida se a palavra coalizão é com s ou com z. E sigo na dúvida, que não vou desfazer, hehehe.

Ocorre que as eleições têm a ver com a desigualdade, fomentando-a pela simples razão que qualquer eleito em qualquer desses níveis de vereança remunerada ganham muito mais do que a renda per capita do país. A aparente estabilidade que regeu estas eleições nacionalmente esconde este drama que é disfarçado, talvez, pela mistura de carnaval e praia. A estagnação secular da economia brasileira talvez esconda a inversão do lugar comum. Muito se argumenta que a sociedade igualitária seria menos dinâmica. Mas, ao mesmo tempo, a sociedade brasileira, com toda sua desigualdade, tem um coeficiente de dias parados por greve relativamente aos dias totais absolutamente destoante dos países capitalistas avançados.

Há harmonia social? Num país em que os trabalhadores amealham apenas 40% do PIB? Parece que a ambição igualitarista de equalizar os níveis de consumo per capita encontra um inimigo na estabilidade concomitante à enorme desigualdade. Ou é tudo ao contrário?

DdAB
Imagem: aqui.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Eleições na Sociedade Desigual

Querido diário:
Quem seria eu, leitor de Zero Hora e Carta Capital (esta nem saiu com o tema), para fazer um balanço das eleições de ontem? Seria um joão-ninguém, seo Zé. Mas retenho a condição de joão-ninguém mesmo que lesse mais jornais, assistisse a mais noticiários na TV e ouvisse outros tantos no rádio.

Parece que a convergência é enorme tanto na imprensa, digamos, com duas correntes óbvias de pró- e contra- o governo. E na política, a mesma coisa. Governo e oposição integram a "administração pública", na linguagem do IBGE.

Mesmo na condição de joão-ninguém, entendo que a convergência política é mais preocupante: teria algum sabor de esquerda o que aconteceu ontem no Brasil inteiro, uma esquerda confusa com seu bastião original, o PT (mais que o PSDB e o PMDB). O problema é que as coalizões partidárias oportunizadas (insistindo no duplo sentido...) pela esquerda não são bem de esquerda.

É verdade que o Brasil tem avançado (a passos de cágado) no crescimento e na distribuição, mas a verdade verídica é que as verdadeiras reformas que listo ora com seriedade e ora brincalhonamente ainda estão esperando:

.a. fim da Hora do Brasil
.b. legalização do aborto
.c. reformas política e tributária
.d. criação de 20 milhões de empregos no Serviço Municipal.

DdAB
Pedi a imagem ao Google Images e veio daqui. Pode? Como disse Moraes Moreira, "quem sabe tem mais de um quebrando a casca do ovo?"