terça-feira, 31 de julho de 2012

Divertida ou Delirante

Querido Diário:

Em plena cobertura das Olimpíadas/2012 no Reino Unido, estupefato, li a seguinte nota na p.50 de Zero Hora de hoje:

190 Milhões de Secadores
Os argentinos, você sabe, levam o hóquei a sério. E se eles levam esse esporte a sério, derrota dos hermanos é motivo de alegria para nós, brasileiros. Foi o que aconteceu ontem. Na estreia da seleção masculina, a Argentina perdeu para os donos da casa por 4 a 1. Deus salve a Rainha.

Pensei que fosse mentira. Pensei ter feito milhares de erros de transcrição: os argentinos, você sabe, levam o hóquei a sério, o Brasil, destacado líder mundial na má distribuição da renda, não leva, aliás leva pouca coisa a sério, em matéria de esporte, em matéria de educação e em matéria de respeito aos direitos e à liberdade. Mas também pensei: os argentinos? todos? os 190 milhões, quase a totalidade dos brasileiros? É exemplo de piada? Mau jornalismo? Zero Herra na axiologia, na ética?

Poderia ser piada, não é? De fato, na p.54 li algo mais divertido, sob o esclarecedor título de 'piada do dia':

O sujeito sai do boteco já bem embalado e, por engano, entra na igrega bem na hora da missa. Fica no fundo, quieto, ouvindo o sermão. Em dado momento, o padre convoca:
-Quem quiser ir para o céu levanta a mão.
Todos os presentes levamtam a mão. Alguns, pelas dúvidas, levantam as duas. O bebum fica imóvel.
-E tu, meu bom fiel? Nâo queres também ir para o céu? - indaga o reverendo.
-Querer, eu quero, seu vigário. Mas só quando eu morrer. Nâo levantei a mão porque pensei que a excursão era para hoje.

A primeira diatribe bem assestada sobre o futebol que vi foi escrita por Umberto Eco e publicada em seu livro maravilhosamente maravilhoso "Viagem na Irrealidade Cotidiana". E quando confunde-se uma piada com uma peroração etnocentrista chegou o momento de persignarmo-nos, como brasileiros. Amo a Argentina, amo o Reino Unido, amo o Brasil, amo a cachaça e amo o bêbado.
DdAB
Imagem: aqui.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Cinema Fundamental: não é mais milk

Querido Diário:
Para mim a maior performance de um ator em todos os tempos foi o Sean Penn, com o papel de Milk, o ativista pelos direitos humanos (especificamente homossexuais, não é isto?). E agora ele volta com "Aqui é meu lugar", descrito no Segundo Caderno de Zero Hora de hoje. Já que leio o jornal, volta e meia sigo-lhe as dicas. Já que leio o jornal, repito, volta e meia epiteto-a de Zero Herra. Não é o caso?

Ela começa falando em Sean Pean, que não deixa de parecer-me algo ofensivo, como se chamando o 'milk' de 'peanut', sabe-se lá o que se passa na cabeça de uma mente racional que comete um erro. E depois não sei se tem erro:

Afastado dos palcos há mais de 20 anos, o artista [a personagem Cheyenne e não o Sean, ou melhor, o artista Sean interpreta a personagem Cheyenne, cantor de rock aposentado], no entanto, se recusa a abandonar a maquiagem pesada e os cabelos erguidos à laquê, como nos velhos tempos de glória."

Claro que este "à laquê" deixou-me de pelos eriçados, se não me faço vezeiro de lugares comuns. Claro que podemos ter um: 'cabelos erguidos à moda do tempo do laquê', cabelos erguidos ao estilo do tempo do laquê'. Nâo estou muito por dentro das novas modas de moldar penteados, mas penso que o laquê, laquê mesmo, tem 50 anos e até seria marca de comércio. Neste caso, eram seus tempos de glória. À gloria!
DdAB
Esta foto está na ilustração da reportagem da p.6, assinada por Marcelo Perrone. e também aqui.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Mending Mendes, but not only

Querido diário:
O interessante é que fiquei tão estupefasto com as últimas novidades do jornal que tentei fazer um título com o nome do ministro Mendes Ribeiro e me veio a palavra "conserto" (mending) da língua inglesa. De onde tenho tirado Mendes para ser a fundamentação material do concreto pensado que uso utilizar para postar quase que diariamente aqui neste espaço? Sua enturmação na campanha Serra-Dilma (Facção Dilma) naquelas eleições, o destaque recebido por ela. E, finalmente, duas referências na imprensa sobre a enorme liderança deste homem urbano, de especialidade em política, para gerir a agricultura brasileira. As referências remetem às futuras eleições para governador do Rio Grande do Sul. Ainda faltam dois anos para o home, mas parece que tudo está sendo jogado nas eleições municipais, ainda que falte meio ano de mandato para os home.

A desfaçatez é milenar. Tantas são as pontas que apenas mending them é que teremos decência. No caso, de um político da escol de Mendes Ribeiro, o que precisamos é:
.a. uma boa administração pública (funcionários de carreira) lá no Ministério, para que um ministro não possa mudar substancialmente as políticas decididas na lei do orçamento;
.b. um bom governo paralelo (funcionários de outras instâncias da vida política brasileira) que serão 'assessores' dos partidos políticos, para formarem seus planos de governo just in case.

Se tudo está claro, o papel de dão Vilaverde nas eleições para prefeito de Porto Alegre será retirar votos dos verdadeiros candidatos Fortunatti e Manoela, portando decidindo a eleição sobre quem será o primeiro. A dialética eleitoral indica que, por roubar votos do que lhe é mais próximo, sua participação na eleição será de ajudar a eleger o que lhe é mais distante.

N caso de Mendes, há também milhares de candidatos para o cargo a que ele tem-se oferecido: governador do RGS, sucessor de Tarso Genro. Tem a Manoela, tem o Fortunatti, tem a Ana Amnélia Lemos. E, claro, tem muito mais gente na moita.

DdAB
Imagem aqui.

domingo, 22 de julho de 2012

Café, Perfume e Gim

Querido Diário:
No outro dia, cheguei na antessala de minha clínica de fisioterapia (pois é, a idade...) e senti um maravilhoso cheiro de café. Tão emocionado fiquei que indaguei à srta. Quênia se ela gostava mais do cheiro do café ou do cheiro de perfume. Ela respondeu e guardarei segredo do conteúdo da resposta. Em seguida indaguei à srta. (Ms.) Cristiane, que também respondeu.

Então naturalmente, ambas as duas devolveram-me a pergunta: de que gosto mais, do cheiro do café ou do cheiro do perfume. Respondi, claro. E fiquei divagando. O café é portador de um daqueles cheiros que nos parecem mais 'saborosos' do que o seria sua ingesta. Claro que o perfume não tem esta propriedade. Eu, pelo menos, nunca pensei em comer o correspondente sólido do perfume. Ou melhor, por exemplo, a lavanda bem que dá para receber umas mordiscadinhas.

Claro que, depois de algum tempo, o café viria a ser usado para balas, bolos, sorvetes e mesmo -terei ouvido, ou é mentira?- para macarronadas.

Nâo me parece haver muitas comidas cujo cheiro seja melhor do que a ingesta, mas -em matéria de bebida- temos certamente o gim, perfumado e bebestível.
DdAB
imagem: vim cair no blog do afamado homme de chambre. e, por falar francês, como é que se pronuncia "Cirque du Soleil"? como "Rua Ivo Corseuil"?

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Graça e a Democracia

Querido Diário:
Ele dera o tom na p.128 (volume Viagens). Depois viria coisa ainda mais profunda. Teriam vindo outras antes e é certo que virão outras ainda nos dois volumes finais. Ele? Graça? Graciliano Ramos, Memórias do Cárcere, volume 1 da edição Círculo do Livro sem data circa pré-2009 (ano da tragédia da novíssima ortografia). E que tom era? Uma senhora francesa que ele conhecera 20 anos atrás, em outra (esta viagem era no 'Manaus', o navio que lhe servia de prisão, trasladando-o de Recife ao Rio de Janeiro) viagem do nordeste ao Rio. Disse ela: "Quel pays, mon Dieu!". Claro que pensei naquela viagem de que Charles De Gaulle teria dito que não vivemos (abaixo do equador) num país sério. Descontada a parte do sofrimento provocado pela 'classe dominante', vivemos, realmente, no país do samba, carnaval e farra, se cito terceiros.

Mas o que desejo falar é ligado a esta questão da visão amarga da vida tropical, da vida brasileira. Da democracia e seus limites. Estamos agora na p.175, o que já nos deixa no segundo volume, o 'Pavilhão de Primários'. Vida muito melhor do que no porão do navio. Na p.174, pintou a ideia de uma greve de fome entre todos os presos políticos neste pavilhão. Um certo Medina fez a proposta. Diz Graça:

Houve um sussurro e o desagrado estampou-se nos rostos.
-Provocação, murmurou Renato.
-Acha? perguntei.
-Sem dúvida. [...]
Muitos opinavam certamente assim; contudo nenhuma objeção pública se articulou. [...] Quem se expressou foi Bagé, mascando uma intervenção de apoio difícil à proposta de Medina. Sem debate, levou-se o caso imediatamente à votação e a maioria levantou o braço concordando, numa anuência desanimada e chocha. [...] E evitavam comprometer-se. [...]
-Bem, disse Rodolfo Ghioldi.
Aceitava a resolução, naturalmente, faria a greve como os outros; nenhuma vantagem, porém, ela nos traria. Esses movimentos nada sifgnificavam e não repercutiam lá fora, e nós estávamos isolados. Nenhum meio de chegar a massa a interessar-se por nós, e assim buscávamos somente iludir-nos. A observação de Rodolfo causou-me vivo mal-estar. Resolvera-se, para não mostrar covardia, praticar uma tolice. Pensei na afirmação de Renato, vaga desconfiança mordeu-me. Assistiríamos apenas a uma fanfarronada inconsequente ou haveria ali inimigos disfarçados? A suspeita iria prolongar-se, confirmar-se às vezes, outras vezes fazer-nos aceitar sem exame duras injustiças. Enleava-se, perplexo, quando Bagé voltou a gaguejar, a explicar-se entre avanços e recuos, mastigando o risinho mole e insignificante: a princípio a ideia lhe parecera boa, mas agora compreendia o erro e atacava-a. Ninguém a defendeu, outra decisão rejeitou-a por unanimidade. Essa reviravolta alarmou-me, de repente considerei o sufrágio coisa débil: afirmativas enérgicas, lançaddas por duas ou três pessoas bastavam para fingir um julgamento coletivo.

Jà vivi este tipo de sensação em muitos lugares, até no trabalho. Escolha pública, escolha coletiva? Parece que quem não vai organizado a uma reunião tem o perigo de ver suas melhores ideias jogadas de lado, pois outros grupos estarão preocupados em priorizar outros contornos. Mas, se não fosse a democracia, como é que as decisões seriam tomadas? Parece que não há escolha: um homem, um voto e um conchavo, um magote de votos. E fim. E viva a democracia.
DdAB
Imagem daqui, o que me cheira a um blog extremamente reacionário. Vou olhar com mais cuidado.
P.S.S. (aposto em 22/set/2016, às 10h24, quando estamos esperando a entrada da primavera para as 11h12 oslt). Dá uma olhada no Paradoxo de Abilene, sobre o qual fiz uma postagem aqui. Lá chamei a atenção para as correspondências entre ele e o Dilema de Prisioneiro. E aqui vemos o Graciliano refletindo sobre o que ele não denominou como paradoxo de escolha social, mas que é, lá isto é!

terça-feira, 17 de julho de 2012

Quase Humanos

Querido Diário:
A diferença de renda entre os indivíduos humanos (e até, pelo que entendo, indivíduos caninos e felinos) é tão grande que muita gente fica a pensar se os humanos (e cães e gatos) que se alinham nos 10% mais pobres são mesmo humanos. Seu contraste com os 10% mais ricos é tão grotesco que, mesmo em países como a Noruega, há um verdadeiro espaço sideral distanciando-os.

Manuel Bandeira fez o poema "O Bicho" (tem um aqui) talvez tendo este tipo de questão em mente. O Brasil, diz-nos o IPEA, venceu a barreira da fome, o que não se via naquele tempo. Mas ainda hoje, vejo os papeleiros lidando com o lixo de maneira completamente grotesca. A renda básica universal para hombres y perros (lá em J. L. Borges...) seria a melhor saída: aumenta a renda dos 10% mais pobres com o imposto de renda negativo e reduz a dos 10% mais ricos com o imposto de renda convencional.

DdAB
Imagem: aqui.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Antes que o Amor Acabe

Querido Diário:
Nâo era bem isto o que eu queria usar como título. Era: "Antes que o ano termine". Esta de 'antes que o amor acabe', se bem lembro, é um verso de uma canção de Chico Buarque. E 'antes que o ano termine' é a forma que comecei a usar para substituir a caretice de "antes de o ano terminar". Pois posto tarde, uma vez que a coluna "O Prazer das Palavras" do prof. Cláudio Moreno do Caderno Cultura da Zero Hora de 23/jun/2012 fala amplamente desta questão.

Ele começa dizendo que recebe poucas perguntas sobre a pronúncia das palavras. Mas, no caso, tem a dúvida sobre 'antes de o ano terminar', que lhe foi endereçada por alguém que deveria apresentar oralmente uma, ora!, fala. Então Moreno diz (verbatim):

Pois eu, prezado amigo, sempre faço a elisão da preposição com o pronome - tanto na escrita (onde é opcional), quanto na fala (onde é obrigatória). [...] a prática tradicional adotada pela quase totalidade dos escritores de renome, é combinar a preposição DE com o artigo ou com o pronome pessoal reto que fem depois: 'Creio que foi uma apologia de amigo por ocasião dele fazer 40 anos', 'Antes dela ir para o colégio, eram tudo travessuras de criança' (Machado); 'Apesar das couves serem uma só das muitas espécies' (Rui Barbosa)."

E vem mais, arrasador:

Celso Luft e Evanildo Bechara há muito determinaram que esta regra artificial nasce de uma confusão entre sintaxe e fonética: em 'antes do ano terminar', a transformação da sequência 'de o' em 'do' é apenas fonética, sem qualquer efeito sintático.

Pulo daqui e concluo com ele:

Para o leitor que fez a pergunta, finalmente, lembro que ele deve ler 'antes DO ano terminar', pois na fala, como já notou Sousa da Silveira, essa elisão é obrigatória: não me vá algum incauto pronunciar a preposição separada do artigo ou do pronome, porque isso nunca se viu no vernáculo.

Parece que eu decidi me evadir do problema ao falar "antes que o ano acabe" e não "antes de o ano acabar". E ele diz que podemos dizer: "antes do ano terminar."

DdAB
A imagem é daqui. Interessante é que o nome do blog é 'que o mundo acabe', em sendo uma zeugma, evoca a brincadeira (agora já sei que um tanto abcz sobre o restaurante de Helena Rizzo, aqui).

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Eficiência: parente da racionalidade e do equilíbrio

Querido Diário:
Naturalmente, racionalidade, equilíbrio e eficiência não precisariam ser angu da mesma panela. Mas são. A ação eficiente resulta da racionalidade do agente e este, quando satisfeito, pode ser dito em equilíbrio. Um dia explico tudinho, ou melhor, a profa. B.P. (ver blog ao lado direito) explica, hehehe.

Aprendi nos velhos (na verdade, o velho livro de F. M. Scherer) livros de economia industrial que há três níveis em que se pode falar de eficiência:

.a. produtiva (quando o custo médio é mínimo)
.b. alocativa (quando o curso marginal é igual ao preço)
.c. distributiva (quando o custo médio é igual ao preço).

São dois e apenas dois os mercados em que se pode conceber a existência destes três tipos de eficiência ocorrendo simultaneamente:

.a. concorrência pura (e perfeita, se acrescentarmos que os ofertantes têm informação perfeita)
.b. contestabilidade perfeita.

Por que estou falando tudo isto, coisas que já falei algumas vezes? Pois comecei a ver referência ao conceito de "ineficiência marshalliana". Pensei: outro modismo. Haverá algum conceito de economia industrial ou teoria dos jogos que contempla o que quer que seja abrigado por este conceito. Olhei daqui e dali e cheguei: "perda de eficiência devida a diferenças de produtividade causadas por diferentes formas de contratos firmados entre os agentes." Pensei: é! Digamos: Scherer + Coase, ou Akerlof, ou Williamson e até Oliver Hart.

Aí, mergulhei no pote de morangos com chantilly e lembrei o que o livro de Rickets (ver papelzinho) diz à p.15: o caso de coordenação perfeita na ação dos agentes requer que todos os contratos sejam concluídos simultaneamente. Para tal:

.a. os custos de transação devem ser nulos
.b. as possibilidades tecnológicas devem ser ilimitadas
.c. as preferências dos agentes são permanentes (intertemporais)
.d. existem probabilidades não-nulas associadas a todos os estados possíveis.

Antes de chegar o licor, pinguei o ponto final.

DdAB
Imagem daqui. Nada como uma boa casinha com teto solar, tunelzinho de vento e um troço muito estranho lá atrás.
P.S.: agora são 18h27min de 14/jul/2012. Retifico: a diferença entre a concorrência pura e a perfeita não se restringe ao ponto de vista dos ofertantes, mas também contempla o dos compradores.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Jogo ou Jugo: Mendes e Dilma

Querido Diário:
Uma das notícias originárias de Brasília, em forma de drops na p.13 de ZH de hoje, são duas. Como pode uma notícia ser duas? Alguns falam: o duplo caráter. Não gosto, se tem dois, então não é um e se é um, então não é duplo. E o duplo caráter da mercadoria? E a moeda tem duplo caráter, cara e coroa? Claro que não. A mercadoria tem duas facetas: valor de uso e valor de troca. A moeda tem duas faces: cara e coroa. O governo Dilma tem o problema com o Mendes Ribeiro, trainee de ministro da agricultura do sofrido solo pátrio. E tem o problema dos milhares de trabalhadores governamentais em greve.

Diz-se que o ministro Mendes Ribeiro ter-se-ia envolvido em um assunto que não seria de sua alçada, relacionado com os problemas da lei de sustentação do meio ambiente, um troço destes. E se não é da alçada da agricultura, de quem seria? É que há milhares de ministérios tratando de milhares de assuntos correlatos, uma verdadeira cornucópia de cargos em comissão. Todos os cargos com orçamentos domésticos avantajados (comparados com os ganhadores de R$ 700 mensais) e querem expandir as vantagens.

Pois aí está o duplo caráter do pobrema: a presidenta disse que, com ela, ninguém ganha aumento. Fico a indagar-me onde irá a greve dos professores, a dos rapazes do tribunal do trabalho, de justiça, sei lá que tribuna ocuparão.

Outro duplo caráter é a qualidade da política brasileira. Não seria demasiado esperarmos que, com um sistema de oposição organizada em torno do conceito de governo paralelo, que o partido do Mendes, ao ter a chance de indicar o ministro da agricultura, o fizesse com um profissional dos problemas do campo e não com um político profissional especializado em

DdAB

Pedi: jogo e jugo. Veio isto daqui.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Benedita e a Constituição

Querido Diário:
A sra. Benedita é uma senadora da república, se não me engano. Ela foi, se não me engano, empregada doméstica e, se não me engano, chegou a ser prefeita e governadora do Rio de Janeiro. Tudo se não me engano.

Se não me engano, li no jornal Zero Hora de hoje que ela, senadora Benedita, fez uma proposta de emenda à constituição brasileira de 1988, de sorte a inserir-lhe alguns direitos da empregada doméstica, como o fundo de garantia por tempo de serviço (que paga, não esqueçamos, 3% a.a.), as férias de 30 dias, sei lá.

Se não me engano, não estamos num país sério. Claro que não precisamos pedir provas de siflagrol à senadora, desde que exijamos tal precaução a seus assessores. Parece óbvio que ela nunca ouviu falar na renda básica da cidadania: R$ 1.000 para cada brasileiro em idade ativa tomam apenas 40% do PIB. Claro que se forem R$ 500, trata-se apenas de 20% do PIB. Com R$ 250 reais mensais, gastam-se 10% do PIB, o que começa a deixar tudo muito mais sério. Mas, se mantivermos os R$ 1.000 mensais e começarmos a implantação, digamos, para os 50% mais pobres, já ficamos novamente com os 20% do PIB. Ou seja, este negócio não vira algo sério por causa de iniciativas de gente que tem relação de amor-ódio primária com o mercado de trabalho. Para os que têm apenas relação de amor-ódio refinada, torna-se claro que há necessidade de dois incentivos na sociedade do século XXI:

.a. incentivo para quem quer ir ao mercado de trabalho (salário mínimo)
.b. incentivo para quem não quer (renda básica)

Curso de Teoria da Escolha Pública para todos!

DdAB
Nâo sei se a caixinha daqui é o remédio que mencionei.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A Construção Civil no Brasil e na China


Querido Diário:
No outro dia, falei: "Tenho pensado e vou expandir os pensamentos sobre o papel da indústria da construção, o bem-estar (?) chinês e o mal-estar europeu." Faço-o agora, em três etapas:

.a. o papel atribuído por Neill Ferguson à construção nos países capitalistas avançados
.b. o papel atribuído à construção civil na China (por mim), com base em caderno especial da Carta Capital reproduzindo material da The Economist.
.c. o que poderia ser feito no Brasil devagarzito no más (piano, piano, si va lontano).

A. A Indústria da Construção Civil e a Sociedade Civil
Neill Ferguson é escocês, como tal, chamou Adam Smith" de 'conterrâneo'. Mutatis mutandis, meu passaporte italiano dar-me-ia o direito de me declarar conterrâneo de Dante e Leonardo? Ser escocês não é tudo: Ferguson também é historiador financeiro. Seu livro é interessante, com daquelas traduções feitas por gente em certa medida desqualificada. Ainda assim, aprendi coisas interessantes, revi milhares de outras que já sabia, por razões óbvias. Sua tônica são as inovações financeiras, ao longo da história da humanidade. A primeira, claro, é a moeda, depois vêm os bancos, o crédito, os seguros, as apólices, as ações, os derivativos e os fundos hedge.

De acordo com myself, não apenas as finanças vão dominar o mundo (ou seja, 100% do PIB serão gerados precisamente no setor de intermediários financeiros, configurando o Efeito Excel) como também haverá em seu cerne uma disputa entre instabilidade e estabilidade. Tendo a crer que a instabilidade, na maior parte do tempo, associou-se a comportamentos anti-sociais por parte de agentes poderosos, inclusive com a invenção de algumas inovações financeiras. Tal é o caso dos bancos comerciais emprestando além da conta (instabilidade) e do surgimento de seu controle pela criação dos bancos centrais (estabilidade).

E as casas? Que Ferguson tem a ver com isto? A primeira transformação ocorreu do século do descobrimento do Brasil, em suas palavras, quando (p.53):

Agora o dinheiro representava a soma total de riscos e compromissos financeiros eepscíficos (depósitos e reservas) em que os bancos incorriam. O crédito era, bastante simplesmente, o total de valores e de créditos contra terceiros (empréstimos).

Na p.68, ele diz:

[...] por causa do seu tamanho imenso, e porque os grandes governos são considerados como os mais confiáveis tomadores de empréstimos,, é o mercado de títulos que estabelece a taxa de juros de longo prazo para a economia como um todo.

Disto o que eu digo é que este negócio do oba-oba nacional contemporâneo de pensar que a taxa de juros é que é o vilão do sistema é bem oba-oba. Caso a taxa de juros caia muito baixo, a taxa de lucro -responsável pela acumulação de capital, descontadas essas baboseiras sobre a poupança- também irá acompanhá-la e botará o sistema em maus lençois. E isto já vai deixando claro: quando é que o capitalista usará seus talentos para 'prever, planejar, organizar, coordenar, comandar, controlar'? Claro que quando não tiver bons rendimentos nos títulos, não é mesmo? Se o juro é muito baixo, haverá pouca movimentação no mercado de títulos e fraca sinalização para a taxa de lucro de longo prazo. E se o juro for alto? Ele infectará os custos das empresas, reduzindo-lhes os lucros.

E a p.69? Vem talvez meu principal ponto:

Do ponto de vista de um político, o mercado de títulos é poderoso em parte porque ele expressa um julgamento diário sobre a credibilidade da política fiscal e monetária de todo governo. Mas seu poder real reside na capacidade de punir um governo, com custos mais elevados para os empréstimos de que ele necessita.

Punir o governo, bem vemos, significa abalar-lhe o crédito. Mas, fazendo-o, a sociedade abala-se, pois não pode viver sem crédito às famílias e às empresas. Crédito às famílias? Olha o que acontece na China.

B. As Cidades Fantasmas na China e seus 10% a.a.
Tempos atrás, foi-me indicado um vídeo/YouTube sobre cidades fantasmas na China. Trata-se de uma cidade pronta para morar, inclusive com um shopping center ralamente ocupado. Mas não tem moradores, tem apenas uma ou duas crianças brincando na rua e um ou outro shop-keeper lá dentro (aqui). Segundo a tal matéria a que refiro da Economist, o investimento na China está chegando a 50% do PIB. Boa parte dele é construção civil (não creio ter lido quanto, mas -a julgar pelo Brasil- é mais de 40%). Então é simples fazer crescer uma economia a 10%: basta meter crédito no setor da construção civil: casas, apartamentos, praças públicas, ruas pavimentadas, túneis, pontes, centros esportivos, leitos de estradas de ferro, tudo isto.


Como é fácil crescer! Basta implantar meia dúzia de cidades fantasmas no Brasil, ou meia dúzia de túneis de tamanhos interestelares. Por exemplo, fazendo a ligação Rio-São Paulo mais palatável por trens e túneis. Por que não se faz?

C. O Brasil, o Crédito e a Inflação
O investimento representava 18,3% do PIB e o investimento em construção, 39,7% do total.Dobrar o investimento na construção civil implica:
:: elevar o PIB em 6,6%
:: elevar a importação: 7,1%
:: elevar a demanda final em 6,7%
:: elevar a oferta total em 6,8%
:: elevar o emprego em 8,2%

Aqui o lado alegre é a elevação de 6,6% do PIB e 8,2% do emprego. É dinheiro, é valor, que poderia ser incorporado à economia brasileira, em resposta à criação de mecanismos de provisão de obras. O lado pesado é que as importações cresceriam mais. Mas elas podem ser combatidas de dois lados: aumentar a eficiência do componente nacional, de sorte a deslocar o importado. Aumentar a eficiência geral do sistema, de sorte a exportar outras commodities.

Na verdade, vemos um problema não propriamente neste possível desequilíbrio no balanço de transações correntes, mas no mecanismo de crédito não inflacionário que possa levar aos primeiros passos de um gigante que bem poderia alcançar as taxas chinesas de crescimento. A verità é que, mesmo dobrando, esta parte do investimento ascenderia a meros 12,6% do total e 13,7% do novo PIB.

Voltando a Ferguson (p.260), vem o que penso ser um libelo a favor do pagamento pelo Tesouro Nacional de uma renda básica decente (hoje com R$ 1000 mensais, gasta-se apenas 40% do PIB):

Lembre:se não é possuir uma propriedade que lhe confere segurança; ela apenas dá segurança a seus credores. A segurança verdadeira vem de ter uma renda equilibrada e constante [...]."

Seja como for, as hipotecas são elemento fundamental para a expansão do crédito. Desregulamentadas, elas geram crises, mas bem atijoladas, elas permitem o crescimento a taxas substancialmente maiores do que estes 1-4% rastejantes do Brasil das últimas décadas.

DdAB
Imagem daqui.
P.S.: Hoje é 18/ago/2012 e são 16h00. Parece que já falei numa postagem posterior a esta sobre a construção civil que estava em meu inconsciente o entusiasmo que Luciano Moraes Braga tem com o tema, a indústria da construção, essas coisas. Tanto é que ele defendeu a tese cuja ficha catalográfica anexo para leitores e myself. Ela estará em breve onlaine.
Braga, Luciano Moraes.  
A resiliência do sistema financeiro habitacional : mudanças institucionais no período 1997 – 2010.  2012.  225 f. : il.  Tese (doutorado) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Ciências Econômicas. Programa de Pós-Graduação em Economia, Porto Alegre, BR-RS, 2012.   Ori.: Conceição, Octavio Augusto Camargo.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Fase de Cortar Direitos aos Trabalhadores

Querido Blog:
Claro que sabemos que evidentemente as obviedades de que o capitalismo vive por fases são ululantes. Altos e baixos, ao longo de uma trajetória ascendente. Ciclo econômico, cabendo -se quisermos- ao governo o papel de alisar as oscilações do PIB e, principalmente, do consumo per capita. Parece evidente obviedade que o consumo per capita vem aumentando ao longo destes últimos 200 anos, se tão pouco. E parece evidente que, volta e meia, ele experimenta um revés e dá uma fraquejada. No Brasil de hoje, quero dizer 2012, ainda não terminou a rifa sobre qual será o valor do PIB. Hoje, propriamente ontem, já ouvi os primeiros arautos de uma elevação de menos de 2%, quando já se chegou a falar em elevação de 3,5%. 3,5%, com exagero é um terço do crescimento chinês.

Ocorre que, em todo o mundo ocidental, por barbeiragens vintenárias na condução da política monetária, a economia entrou num ciclo descendente com clara causação emergindo dos intermediários financeiros. Estas desregulamentações que causaram o caos americano de 2007 e 2008 e levaram a sonolência também à economia europeia um par de anos depois, parece óbvio, devem-se ao que se costuma chamar de neoliberalismo. Este, a meu ver, tem como característica principal mesmo é o corte de direitos trabalhistas. A enorme instabilidade no emprego (lá deles) causou tão forte ameaça ao sindicalismo que o poder de barganha da classe trabalhadora foi para níveis inimagináveis há 30 anos.

Os ecos no Brasil são permanentes. Fizeram-se tantas reformas no sistema da previdência social que nem sabemos mais quem tem direito ao quê. Claro que há direitos esdrúxulos, como as aposentadorias dos cônjuges de juízes, ganhando seus tradicionais R$ 33 mil. E também a aposentada esposa do sr. condutor de ônibus, que ganhará lá seus R$ 700 vírgula zero zero. Estes dois lados, o apoio a aposentadorias escandalosas e o pau nos direitos da verdadeira classe trabalhadora, são comuns aos governos brasileiros também há 20 ou 25 anos.

O que nunca é levado em conta, nunca vi estudo brasileiro, é qual o impacto sobre a produtividade do sistema de manterem-se empregos para pessoas com 67 anos de idade, deixando no desemprego os jovens de, digamos, 25. Claro que, na fase de cortar direitos, esta é uma questão irrelevante.

DdAB
P.S. Imagem daqui. Quem é mesmo o carinha das mãos de tesoura acima? FHC, Lula, Dilma? "Corta, Dilma"?

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Desigualdade na Desfaçatez

Querido Diário:
Hoje, ao ler Zero Hora, tranquei na coluna de Carolina Bahia, mas hoje escrita por Fábio Schaffner. Fala-se da propaganda eleitoral, informando que a presidenta Dilma não vai-se envolver nas campanhas dos candidatos da coalizão que sustenta seu governo. Sustenta? E que as preocupações da turma são com as turbulências europeias. Mas também com "a previsão, na LDO, de um mecanismo que permite reajustes salariais automáticos ao Judiciário e ao Legislativo." Para onde vai a transparência, quando o eleitor mediano começar a achacar a turma cujos vencimentos serão publicados, quando a sociedade realmente lutar pela seriedade legislativa? Parece que publicação de vencimentos não rima com vencimentos escorchantes.

É desfaçatez. E é desfaçatez desigualitária, pois também o poder executivo tem, aqui e ali, alguns rapazes também indexados aos salários olímpicos. Mas a falta de vergonha nacional -e parece que a turma do Planeta 23 é a única exceção- é que não se alardeia que o imposto de renda poderia acabar com essa desfaçatez: por exemplo, tem um teto remuneratório de, digamos, R$ 27 mil? Então cobra uma alíquota adicional do popular imposto de, digamos, 99%. Por que não?

Nâo seria esta a vontade do 'contribuinte'? Que dirá o eleitor mediano de ser chamado de 'contribuinte'? Penso que o 'contribuinte' é um eleitor mediano que ganha lá uma renda familiar de seus R$ 2 mil. Uma fez que a mulher do deputado e o marido da juíza ganham mais R$ 27 mil (supostamente), segue-se logicamente que a renda familiar dos últimos é 27 vezes superior ao rapaz que dirige ônibus e é casado com uma empregada doméstica. E que vota nos envangélicos, mas faz seu churrasquinho com caipirinha e cerveja.

Como desconstruir esta desfaçatez de modo a expandir a igualdade? Tenho pensado e vou expandir os pensamentos sobre o papel da indústria da construção, o bem-estar (?) chinês e o mal-estar europeu. Enquanto isto, vou citando um fruto de meus mais ativos pensamentos: a seguinte sentença:

Pensamento é como ciclé: se tu puxa bem, ele estica e se tu puxa mal, ele te rebenta.

DdAB
P.S.: tá na moda escorchar o senador, que parece ter sido o campeâo (no biênio 2011-2012 apenas) da desfaçatez: aqui.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Os Três Movimentos da Consciência Humana

Querido Diário:
Ontem, o artigo de Zero Hora assinado por Marcos Rolim, além de ser interessante por si só, levou-me a ficar pensando sobre uma frase que atribui a William Faulkner:

O passado nunca está morto. Nem é mesmo passado.

Eu, na primeira reação, achei maravilhoso. Depois comecei a pensar e acho que tem muita coisa para ser dita. A primeira delas é que a consciência humana tem três traços: do presente, do passado e do futuro. No caso do futuro, não temos -lógico- consciência do que acontecerá, mas de que haverá algum futuro. Creio que viverei até, pelo menos, a próxima respirada. Mas nada garanto. E se a próxima respirada não rolar? Segue-se que o terceiro movimento, a visão do futuro, tem seu charme. Mas o segundo movimento, os tempos presentes? Neles, há, claro, espaço para passado e para futuro. E quanto ao passado propriamente?

Por um lado, os americanos falam que bygones are bygones, numa tentativa de "largar o osso", numa tentativa de deixar o passado perder seu curso, finar-se, deletar-se. Há milhares de razões que nos levam a esquecer o passado. Tanto é que também se fala na importante arte de virar a página, deixar para lá, esquecer e até perdoar, tudo farinha do mesmo saco.

E tem outro lado amargo: e coisas que aconteceram e que não são de meu conhecimento? Por exemplo, um jantar elegantíssimo no Ritz, ou sei lá onde? Estarei condenado a nunca ver este presente, o que me impede de também vê-lo no passado? Só mesmo redistribuindo a renda...

DdAB