sábado, 28 de maio de 2011

A Evasão da Coruja de Minerva da Universidade Brasileira

querido diário:
que podemos dizer do sistema de avaliação de produção intelectual adotado há menos de 10 anos pelos órgãos de financiamento à pesquisa? e, macacadamente, por todos os departamentos de economia do Brasil que têm ambição a meter a mão nesse dinheirinho? que é um "pobre papagaio", para usar a expressão com que Chico de Oliveira, em sua monumental "crítica à razão dualista"! ou seja, papagaios são corujas enganadoras. parlapatões, nunca chegaram a amar a sabedoria, como o simboliza a coruja.

primeiro, houve o enorme expurgo de professores (doutores de fato), (mas) despidos de titulação. depois os títulos de doutor começaram a ser distribuídos pelo sistema educacional brasileiro, sabidamente aquele que mais analfabetos abarca no mundo, se julgarmos pela qualidade literária da redação dos meninos de rua e seus iguais domésticos. eu mesmo já andei pensando em doutorar-me em "faisão ao molho branco", numa faculdade de culinária que terei ouvido será aberta ano que vem em nosso benfazejo hinterland. depois começaram as exigências de publicação. publicar ou morrer, foi a leganda que copiamos dos brincalhões com a academia americana. mas a questão era que, diferentemente dos Estados Unidos, ou melhor, a exemplo dos Estados Unidos, os professores de Brasília e Alegrete, Sampa e Crato, foram instados a publicar... nos Estados Unidos. tanto é que, por determinações judiciais ou correlatas, começou-se a valorizar a publicação "no exterior", o que fez proliferarem as revistas nos demais 199 países do mundo, pois o primeirão, Brazil itself, não poderia receber publicaçõs internacionais. mas, no final, também se decidiu que revistas do Rio de Janeiro e (vazio) também poderiam ser declaradas internacionais. afinal, é lá que temos o Aeroporto Internacional. mas já há gente pensando nas liminares para autorizar Porto Alegre a também ter sua revista internacional, pois tem um aeroporto e um consagrado clube de futebol internacionais.

a visão é endofóbica e parcial, cujos resultados encaminham ao suicídio acadêmico do sistema, muito mais do que sua revivificação. de fato, as incongruências identificadas no atual sistema de encino (eu disse ensino?) não se voltam a tornar produtivos os professores considerados por estes critérios imprestáveis, ou pelo menos improdutivos. elas voam sobre as carniças, elas matam, e transformam em carne pútrida ao tecido vivo e latentemente produtivo. "cortem-lhe a cabeça", bradava a Rainha de Copas. porque é endofóbica? porque é exofílista, não era isto? sempre penso no que poderia ser se tudo fosse ao contrário do que é: e se requerêssemos que as publicações fossem em órgãos de divulgação local (pelo menos das pesquisas aplicadas nas ciências sociais), direcionando-se para "iluminar a construção da política econômica"?

ora, o ataque antropocêntrico à província é algo odioso e lembra o que out of the blue a Lebre Marchadeira indagou a Alice, mutatis mutandis:

-Aceita mais um pouco de recursos para promover a pesquisa?

Alice, a inocente e interiorana menina de Oxford, responde em tom desgostoso:

-Até agora não ganhei nem um único penny, logo, como poderia ganhar mais?

Para salvação da Lebre Marchadeira, quem respondeu foi o Chapeleiro Louco, que estava num dia inspiradíssimo:

-Você não pode apossar-se de menos recursos, sendo muito fácil angariar mais do que nada.

Alice, claro, contrafeita, garrou de pensar nos critérios de avaliação e nos clubes de avaliadores, para não falar nas linhas de produção em que já aconteceu de cada autor ter escrito menos de meia sílaba do paper inteiro, dada a proliferação de número de autores e o extraordinário poder de síntese de tão contido exército. ter-lhe-ia dito Dina -ferina- que um amigo seu, também felino, já escrevera um artigo de meia página com meio milhão de parceiros. e mais, um daqueles milhares de amigos de Dina garrou-se a pensar em como uma política de encino dessente poderia ajudar, in due time, o estoque de antas a elevar-se a pensar como corujas.

é sabido até pelas jaulas do Zoológico de Sapucaia do Sul (talvez em vias de fechamento) que um trinômio que favorece o binômio ensino-pesquisa é constituído por bons alunos, bons professores e bom acesso à produção científica realizada do outer world. a eficiência nesta atividade transcende por muitos metros de altitude o critério de medir a produtividade dos indivíduos e seus coletivos departamentais pelo critério de páginas publicadas por pesquisador. departamentos de economia, por este Brasil afora, desempenham papel ativo na formação de administradores, advogados, contadores, economistas e outros profissionais de nível superior. da qualidade da formação dos professores depende em muito o que será realizado pelo país e pelos profissionais de nível superior.

fechar departamentos "improdutivos" e matar à míngua pesquisadores "improdutivos" não se constitui numa forma pró-ativa de melhorar o ensino nem expandir a pesquisa na província. seria muito mais sensato, respeitando algumas poucas idiossincrasias pessoais, criar incentivos materiais para os "grandes centros" associarem-se a pesquisadores dos "pequenos centros". ajudando-os, por meio de programas de pós-doutorado e assemelhados, a interagirem com os bons alunos e as boas bibliotecas, ferchar-se-ia o tripé de que falei acima. ou seja, falo de um "plano de qualificação docente", com um viés pró-ativo e não des-trutivo.

além destas iniciativas emanadas da própria administração pública e seus órgãos de fomento à pesquisa, devemos pensar que os próprios sindicatos docentes podem tornar-se mais ativos na luta por melhores condições de trabalho para seus integrantes. avaliar ensino e pesquisa e sua qualidade atende aos interesses de ambos: governo e ONG. o tripé -agora rawlsiano- da liberdade, oportunidades abertas a todos e uso da desigualdade em benefício dos menos favorecisos é fundamental para ser invocado ao discutirmos estas questões. em boa medida, este tripé representa um breve contra a meritocracia num país de enormes condições de dualismo. a periferia é tosca e bizarra, ao passo que o centro é delicado e erudito. claro que estas condições não podem ser vistas como perpétuas, e a solução não é destruir a periferia, mas construir mil centros. no caso, centros de pesquisa econômica voltada ao atendimento das realidades locais envolvidas com o ensino e a geração de conhecimento.

DdAB
p.s.: uma bela explicação para o significado de "coruja de Minerva" vem-nos do filósofo rortyano Paulo Ghirardelli: aqui. resumo: mascote de Athena, a deusa grega, traduzida para Minerva, a deusa romana. a imagem veio daqui, selecinada do Google Images quando digitei o título da postagem de hoje.

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