terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fetichismo: novas manifestações

querido diário:
desde que li "O Capital", de Mr. X, passei a pensar no fetichismo, nas relações fetichizadas, no que ele chamou de fetichismo da mercadoria. que é ele? é a ideia que temos sobre a origem dos bens e serviços que adquirimos no mercado. parece que eles vêm do dinheiro que despendo. pois isto é verdade, mas o nível aparente dela, verdade. no nível da essência, o que fiz foi qualificar-me para ingressar no circuito distributivo da geleia (oba, encontrei outra palavra para escrever com a nova ortografia, a exemplo de ideia) geral do trabalho social. ou seja, o que estou trocando (não digo eu, myself, velhinho aposentado) é horas de trabalho na atividade A por horas de trabalho socialmente necessário que outro agente econòmico despendeu na atividade B.


claro que pouco ou nada há de mais distante de nossa experiência contemporânea do que pensarmos que trocamos horas de trabalho por horas de trabalho. ou seja, o fetichismo tomou conta de nossas vidas tão profundamente (e não estou dizendo que isto seja mau ou anacrônico) que Beatriz anunciou a Donetti:

-A pizza está subindo.

pensei: pizzas não sobem. Marx ensinou-me: se a mercadoria não vai ao mercado, seu dono a leva à força. mas é claro que, no caso, provavelmente, Tezza estava falando que era o moto-boy que carregava elevador acima uma caixinha de papelão avermelhado com uma pizza do lado de dentro.

Beatriz? sabe quem é? Donetti, sabes quem é? Tezza? pois é o seguinte. tudo na p.66.

TEZZA, Cristovão (2010) Um erro emocional. Rio de Janeiro: Record.

acho que este livro pode ser um belo presente de natal de quem gosta de ler e presentear para quem gosta de ler. happy christmas, December is arriving! e só não posso dizer, como a canção de John Lennon que "the war is over" porque o cheiro de pólvora no Rio de Janeiro está intenso.
DdAB

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Feira, feirinha, feirão: lições de dialética

querido blog:
por herança militar, ou o que seja, em minha casa de nascença, falava-se em "fazer o rancho" para aquilo que aprendi em Santa Catarina, Floripa, ser "fazer a feira". segue-se logicamente que hoje fiquei um tanto como direi ao ver a expressão "mega-feirão".

pensei: o mundo começou -provavelmente- com uma feirinha. esta cresceu, transformou-se em feira. esta cresceu e transformou-se em feirão. este cresceu e transformou-se em mega-feirão. o mercado transformou-se em supermercado. e a síntese dialética entre estes dois dizeres -diz-de-lá, diz-que-diz- é o hipermercado super-feirão mega!
DdAB
do título da postagem, veio a seguinte (aqui) imagem.

domingo, 28 de novembro de 2010

Lustro Efeminiano

querido diário:
explico, explico: efeminiano quer dizer "do FMI", ou do IMF, o Fundo Monetário Internacional. como cheguei ao FMI para esta postagem? foi a notícia de que Alexandre Tombini, o novo presidente do Banco Central do Brasil, a partir de 2011

o pai de Alexandre, o economista Tildo Noelmo Tombini, não foi propriamente meu mestre, como o foram o Prof. Accurso e meu amado Walter Hahn (Accurso, claro, não menos amado; interessante é que Walter ensinou-me pilhas e não o vejo portando o título de professor). mais por esquecimento não lhe dei créditos na página de meu site em que relaciono mestres. seja como for, lembro dele com enorme simpatia. a Zero Hora de hoje fala até em seu automóvel GM - Camaro, objeto de que sou testemunha da existência remota. eu apenas pensava ('todo gringo gosta de motores').

ok, eu queria dizer de Tildo Tombini que aprendi com ele a noção de "coeficientes de planejamento", que seria o fim mais nobre dos "indicadores econômicos" que coletávamos para a FEE e fizemos a revista que carrega este nome. claro que não sei bem qual foi minha reação na hora, mas hoje entendo que Andras Bródy tem razão, ao sugerir que tudo no mundo econômico são proporções (ou quase...). então acho importante sabermos o número de telefones por empresa, telefones por família, partos por adolescente etc. e claro que isto lembra os coeficientes técnicos da matriz de insumo-produto e de sua envoltória, a matriz de contabilidade social.

e com o filho dele, o que aprendi até agora? uma coisa que me marcou foi o lustro (período entre 2001 e 2005) em que ele trabalhou no FMI. não sou contra, ao contrário, acho que a estabilização da economia brasileira é que foi o principal responsável pela tíbia tentativa de redistribuição que o índice de Gini está procurando afanosamente... seja como for, ganha peso minha tese de que Pedro Malan foi treinado por lá durante 10 anos para ser o grande ministro de Fernando Henrique. seja ainda mais como for, confirma-se, agora de maneira insofismável, que estamos no limiar do início do quinto governo FHC. não tenho nada contra epítetos, amedrontando-me apenas com o nacional-desenvolvimentismo, com a vacuidade da lei do orçamento público e com a incapacidade da sociedade brasileira de exigir as reformas de que tanto falamos: tributária, política etc..
DdAB
a foto peguei-a da internet como sendo o próprio sítio do FMI. será?

sábado, 27 de novembro de 2010

Autorreferências

querido diário:
esta é uma postagem auto-referenciada (se é que não é autorreferenciada, que a gente nunca sabe este troço de ficarem trocando o jeito [geito?, gesto?] de escrever. digo autorreferenciada no sentido de que ela escreve sobre si mesma, ou melhor, o que nela está escrito é o que ela é. A = A diz o primeiro princípio da filosofia e, com ele, da racionalidade humana. se a cachaça A fosse diferente da própria cachaça A, iríamos, no horário das refeições -ao mesmo tempo- bebê-la (o que nos deixaria tontos) e não bebê-la (o que nos deixaria tontos). ou até algo pior. (mais detalhes sobre fonte do 'copo' aqui).

numa destas epifanias, poderíamos congelar o tempo, uma vez qu ele nos é dado pela equação:

E = m * c^2.

segue-se que:
t = (m * d^2/E)^0,25
se é que Einstein e seus epígonos não vacilaram na hora H. se não congelá-lo, o que poderia não nos convir, pelo menos poderíamos dar-lhe jeitos interessantes (ou era geitos intereçantes?) com gestos incontidos (jestos?). [N.B. se, como sabemos par coeur, E = m * c^2, então não saberemos que E - m * c^2 = 0? smesmo que A não seja diferente de A, então o tudo é igual ao nada, não é isto?

segue-se logicamente que, assumindo a postagem de hoje o número 559, chegamos a ele ao somar 63+248+248. como sabemos, 248 (ou 2^1 @ 2^2 @ 2^3) é o número de postagens de 2009 e 63 (id est, 3x2 e 1x2) são as postagens do ano passado. nem todas, admito, correspondem a um dia perfeito daqueles terráqueos de 24 horas. algumas postagens ocorreram no mesmo dia e, por razões óbvias, nem todos os dias houve postagens.

segue-se logicamente que as autorreferências de hoje dizem respeito ao récord do número de postagens em um único ano. no concurso de uma postagem por dia, que é meu objetivo maior com este blog ('melhor do que palavras cruzadas', disse-me um especialista na doença de Alzheimer), tecnicamente bati o récord! se eu enfurecer-me em ir batendo récords sucessivos, em 2011, poderei postar todo santo dia, o que significa 365 postagens e aí, finis Africae. ou melhor, em 2012, ano de eleições municipais no Brasil, ergo, ano bissexto, terei novo récord, com 366 postagens.

como melhorar este récord sem postar mais de uma vez por dia? dadas duas premissas importantes:

.a. este blog se intitula Planeta 23, onde clamo viver, por perder uma hora diária em ginástica...
.b. a solução do problema da inelegibilidade de Luciana Genro por questões de filiação resolver-se-iam se ela fosse adotada: passaria a assinar-se Luciana Nora, despistando a justiça eleitoral,

segue-se logicamente que poderei melhorar meu récord, num ano bissexto, escrevendo diretamente do Planeta 23, pois
.a. na Terra contamos com 24 x 365 = 8.760 horas ou até 8.784 horas, nos anos bissextos.
.b. 8.784/23 = 382 dias.

desesperado, não me resta outra opção, dadas as limitações da equação acima, de postar mais de uma vez por dia até os engenheiros -esse poço da incompetência e maravilhência humana- resolverem este probleminha: extrair a raiz quarta da multiplicação entre matéria e quadrado da distância.
DdAB

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Leontief & Einstein

querido diário:
existem duas equações que mostram que minha tese sustentando que a lei da oferta e procura é mais atrativa do que a lei da gravidade (indústria das aeronaves e espaçonaves, etc.).

a primeira é a tradicional equação reduzida do modelo de insumo-produto, de Wassili Leontief etc. dispensa apresentações. ela -ambos dispensam apresentações?- diz, em vetores:
x = B * f
em que x é o vetor da produção setorial societária, B é a matriz inversa de Leontief, que rastreia todos os requisitos diretos e indiretos para a produção de cada mercadoria (isto é, de cada elemento do vetor x) e f é o vetor da demanda final. o modelo diz que, se tivermos coragem de sustentar que a demanda final determina a produção, então ao a conhecermos e conhecermos os coeficientes de produção determinaremos o que será produzido em cada setor da economia. a matriz B também nos informa se a economia é viável ou se não consegue produzir nem para sustentar a produção, que dizer do consumo?

de sua parte, Albert Einstein escreveu uma equação que mostra que tudo o que conhecemos é energia, ou conversível em energia:
E = m x c^2
onde E é a energia contida no sistema, m é a massa de matéria e c^2 é o quadrado da velocidade da luz. em tempos de outrora já andei falando até da dimensionalidade dela, quando veremos que também o espaço e o tempo (pois c^2 = distância ao quadrado dividida pelo tempo ao quadrado) transformam-se em energia. como tal, podemos explicitar diferentes formas e ver que espaço-tempo-matéria-energia constituem um quarteto da maior importância universal, apenas cedendo lugar à lei da oferta e procura promulgada no Planeta Terra.

ou seja, se a lei da oferta e procura é mais importante que a lei da gravidade, segue-se logicamente que x = B * f é mais importante do que E = m * c^2.
DdAB
p.s.: ilustração daqui, que veio quando pedi precisamenteo que intitula a postagem que iguala o número de postagens feitas no ano passado! é postagem, é bobagem, é pensamento, é anti-matéria..

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Semântica Transferencial: a anedota

querido diário:
decidido a cair numa posição estranha, achei que alguns escritos poderiam ser sobre semântica transferencial. iniciando o research programme nesta área, tentei pensar no que diabos poderia ser isto. achei que o primeiro exemplo associa-se à transformação da expressão de saudação "bom-dia". desde que a academia transformou a língua portuguesa num poço de livros arcaicos (mais uma vez, by the way), nem mais sabemos se bom-dia tem um ou dois hífens. no caso, tornou-se que "tchau" substituiu a saudação "bom-dia". deste modo, ontem, ao dar "bom-dia" a um menino de rua, ele apenas devolveu: "prô senhor também". como ele tratou-me por "senhor", de baixo para cima, decidi quebrar meu voto de "não dê dinheiro para quem não sabe gastar", tornei-me um falsificacionista ad hoc e dei-lhe o dinheiro, pensando que aquele menino de rua em particular sabe gastar.

em resumo, a Academia Brasileira de Letras é responsável pelas condições de analfabato retidas pelo menino de rua, desde Capitães de Areia, de Jorge Amado, de Nilson Pereira dos Prantos, com Sônia Cyntra.
DdAB
p.s.: ainda que eu tenha, por instantes, pensado que a expressão "semântica transferencial" tivesse sido inventada por mim há instantes, vi-a ser anunciada em quase dois milhões de documentos do Google e apenas 27 mil imagens. por isto capturei isto e recortei.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Retrato do Brasil: drama, revista.

querido blog:
como sabemos, volta e meia critico a linha editorial/redacional/gráfica/etcétera do jornal Zero Hora. tempos atrás, comecei também a criticar a Carta Capital (que leio, mais ou menos, desde o mesmo tempo em que me tornei -em tempo contínuo- assinante do jornal). pois hoje farei uma rápida postagem sobre a revista Retrato do Brasil (ISSN 1980-3796, n.40 R$ 8,00), que leio erraticamente, mas assino de qualquer jeito ('para ajudar', pediu-me um mendigo amigo, falando -claro- de outro assunto...). parece-me que no outro dia também andei baixando-lhe o sarrafo. revista irrelevante, postagem irrelevante, memórias irrelevantes.

mas o que me tráz a postar hoje é o número de novembro. recebi-o há poucos dias, já adiantado o mês, pelo menos seu primeiro decêndio. não é difícil de provar. ocorre que, neste número, cuja capa anuncia a reportagem sobre o SUS: tá na unha... só que o "ponto de vista" da Editora Manifesto (p.4-7) simplesmente sugere que votemos em Dilma no segundo turno. se bem lembro, o segundo turno ocorreu precisamente milhões de anos antes de eu ver a revista. serão socialistas? serão felizes? aparentemente não foi graças a este editorial que ela foi eleita. são incompetentes!

o retrato do Brasil, para ser sério, tem que ser um drama (clique aqui). a Retrato do Brasil é um drama. meu drama é que não conheço uma imprensa de esquerda que me agrade.
DdAB
p.s.: nunca esquecerei que apliquei à "Retrato do Brasil" o mesmo qualificativo que ouvi tachado sobre  o corpo de trabalhadores de uma ONG britânica que muito me beneficiou: "felizes, socialistas, incompetentes".

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A Droga do Aborto

querido diário:
procurei no Google Images os seguintes roteadores da ação humana: maconha crack lança-perfume ópio cocaína. capturei o que vemos acima. por quê o fiz? 'por quê' tem acento? um dia ainda lerei sobre isto... e que tenho a ver com uma lista de drogas que nem sequer obedece a (é 'à'?) lei da ordem alfabética (lexicográfica)? tudo se explica neste mundo quando a racionalidade é usada em benefício das reformas democráticas, you know the rest... e é 'diz não' ou 'diga não'? elas dizem não, elas, as enfermeiras e o próprio enfermeiro Baltazhar. ele diz não, ele é o ministro da saúde. todos dizemos não ao aborto, não é mesmo? todos dizemos não às drogas, todos dizemos não a qualquer dependência, inclusive a dependência que os juízes criaram dos R$ 30.000 mensais que em breve estarão recebendo.

de minha parte, chamou-me a atenção a frase de Ricardo Darín, o festejado ator do filme "O Segredo de seus Olhos", da festejada Argentina e da festejada página 8 do Caderno de Cultura do festejado jornal Zero Hora do festejado dia 22 do festejado novembro do festejado ano de 2010. é muita festa. diz a frase:

Eu simplesmente não posso acreditar que, no século 21, ainda se discuta a legalização do aborto e tratem como se fossem demônios as pessoas como eu, que defendem sua regularização.

meu, cara, bicho, gente, pessoa, indivíduo. esta frase está deslocada temporalmente da festejada (epa!) campanha eleitoral do Brasil. ela ajudaria o encaminhamento da passeata feminista que não deu as caras contra a hipocrisia da dupla Serra-Dilma, a chapa branca que venceu as eleições de 2010, como andei espalhando, e que fugiu do enfrentamento da questão do aborto provocado. vou escrever para o  jornalista Klécio Santos da mesmíssima Zero Hora, fazendo a propaganda da ideia mais consentânea com a consentaneidade da importância maiúscula da lei da oferta e procura relativamente à lei da gravidade. não fosse a oferta e a procura, o fato de que elevar-nos do concreto ao concreto (ver Karel Kosik para saber mais sobre a elevação do abstrato ao concreto...), da terra aos ares, não seria possível. ou seja, a lei da oferta e procura venceu a lei da gravidade, tanto é que hoje em dia, neste preciso momento, há milhares de pessoas trafegando pelos ares do planeta que por ora habitanos.

se a lei da gravidade curvou-se à lei da oferta e procura, que dizer de leizinhas menores, como esta que proibe o aborto (ou seja, incita a criação de mercados clandestinos de tal procedimento médico) ou como a outra que proibe o comércio de drogas do tipo das que dão título à postagem de hoje? parece-me que a negadinha que se recusa a entender o aborto como um problema médico, da mesma forma que a dependência às drogas, às compras, às bombachas, e a tudo o mais que é feito em excesso está incentivando -ela, negadinha- a consolidação de mercados ilegais. neles, nem o governo nem a sociedade (seu lado saudável) têm como meter a colher.

há muitos anos, aprendi como breve a um dos indutores do ódio à humanidade (no caso, minha brincadeira sobre dieta, estudo e exercício físico), no caso, a dieta: você só observa aquilo que controla. então quer controlar a menininha de 13 anos que vai morrer devido a uma intervenção intra-uterina mal sucedida? quer impedi-la, caso se salve, de incidir na mesma burrada de ver-se exposta a mãos incapazes? quer? então joga ela no hospital da rede pública que tratará do assunto, inclusive, quem sabe, uma eventual adoção do fruto de seu ato ilegal de engravidar antes dos 14 anos e 9 meses de idade! quer impedir que os 100.000 assaltos de meninos em busca de dinheirinho para pagar traficantes de drogas? e mesmo as mortes de uma fração dos meninos assaltantes? quer? então dá um jeito civilizado no problema das drogas, dá o mesmo jeito que a lei da oferta e procura deu na lei da gravidade!

a moral da história é a seguinte: o mercado é um mecanismo mais poderoso do que a lei da gravidade para agregar preferências coletivas. enquanto houver necessidade de saltarmos de quedas dágua, e houver escassez destas, surgirá, por meio do mecanismo de preços, um agente interessado em ganhar dinheirinhos de saltantes. e salteadores? claro que haverá! há mercado para tudo, no capitalismo. no capitalismo, disse o Karl, tudo, tudo, tudinho vira mercadoria. eu acrescento: drogas (caso do menino de 15 anos), vidas  humanas (caso da menina de 13 anos), honra (caso dos juízes).
DdAB

domingo, 21 de novembro de 2010

Pessoa Humana: Clara Moreno

querido blog:
sigo com reflexões que me levaram a serem feitas ontem. falei do esdruxulês da forma "hora de as onças beberem água". o que eu queria mesmo ter dito era falar sobre o artigo de Cláudio Moreno do Caderno Cultura de Zero Hora do finado sábado. contra-exemplo maravilhoso este, lá dele, de um ditado que ninguém negará ser bom português. já imaginou um integrante do povão falando isto? então fui ao Google Images e achei a maravilhosa montagem que vemos com os olhos e tirei do Sapo. e tenho um conselho: procure você também e irá deliciar-se com sublimes e ridículos. entre nós, há de tudo, como pude depreender. no caso, parece que voltamos a dar em ovos. evitaria o parto convencional e permitiria inovações espantosas...

Clara Moreno, digo, o título da postagem é uma homenagem ao quarteto Alba, Branca, Clara e Nívea lá da sra. Isabel Allende. e, claro, brincalhona com o sobrenome do articulista. Cláudio Moreno, como sabemos, é, claro, da gema! por isto, ele confronta-se com uma turminha que condenou 

[...] a expressão pessoa humana (sic), apresentando um argumento que lhes pareceu suficiente para fumliná-la: "Existirão por acaso pessoas suínas - ou asininas?".
   Não, é claro que não, seus engraçadinhos, mas existem as pessoas jurídicas (sic), as pessoas físicas (sic), ana (sic), as pessoas divinas (sic), etc.

argumentando sofisticadamente, Moreno conclui que não há nada de errado em falar-se em pessoas humanas, e eu acrescentei as pessoas gramaticais, que são -como sabemos- três, bem na linha da pessoa divida, se bem lembro, o pai, o filho e um terceiro...

e onde mais vou eu para o assunto? um pouco de transição entre "Escritos" e "Economia Política". claro que, para nós -economistas- falar em indivíduos humanos é perfeitamente lógico. e até ouvi dizer que o prédio anexo à Faculdade de Odontologia da UFRGS não poderia ser iniciado imediatamente, pois havia tratativas para a remoção de alguns indivíduos arbóreos (os indivíduos humanos que defendiam seus colegas arbóreos não se deram conta de que um indivíduo arbóreo como os que poderiam virar lenha levam no máximo uma década para crescer. e que preservá-los sob a alegação de que eles têm sentimentos é uma brutal inversão de valores, uma enorme manifestação de antropocentrismo, somente comparável com a estupidez de posições de seu antônimo, o relativismo cultural).

pois, na linha das pessoas asininas, ouvi há tempos gente reclamando que não deveríamos falar em indivíduos, mas em pessoas. eu -amante do individualismo metodológico- claro que fiquei chocado: qual é mesmo o problema em diferenciar "indivíduo" de "cidadão"? seria o caso de mudarmos toda a literatura antiga e passarmos a confrontar pessoa x cidadão? pessoa arbórea? cidadão arbóreo, em favor do qual a negadinha entrou com uma limitar proibindo sua derrubada?
DdAB
p.s.: e mandei um e-mail mais ou menos com este conteúdo ao prof. Cláudio Moreno:
fiquei pensando no segundo tema, tentando puxar a brasa para meu lado -economista. fui viajar no dicionário (o melhor que tenho, para o caso é um Webster, pois meus "brasileiros" não remetem à origem), olhando de onde veio a palavra "pessoa", por aproximação, chegando em "person". claro que eu sabia ser latim, mas ganhei a viagem. cito sem formatação:
"person, n. [L. persona, lit, a face mask used by actors on the stage, hence, a character, a person, from personare, to soud through; per, through, and sonare, to sound].
1. etc."
concluo: a pessoa humana é o humano que usa a máscara (sem ironias contra os 'engraçadinhos').

em seguida, fiquei viajando na condenação que alguns fazem ao uso que os economistas dão a "indivíduo", associando-o a pessoa humana. e querem que se diga apenas "pessoa". no caso desta outra intolerância o que merece mais intolerância de minha parte é que -se ficamos querendo esquecer os grandes mestres, deixaremos de lado o confronto -no economês escorreito- entre indivíduo e cidadão. claro que o primeiro não é um indivíduo asinino, nem o segundo é uma bruta duma cidade. para os economistas mais canônicos, o indivíduo tem as ações movidas essencialmente pelo egoísmo, ao passo que o cidadão move-se por meio de motivações altruísticas.

sábado, 20 de novembro de 2010

Hora da Onça Beber Água

querido diário:
tem um belíssimo artigo de Cláudio Moreno na p.7 do Caderno Cultura de Zero Hora de hoje que me fez exultar por dois motivos. o segundo, do qual não falarei, diz respeito ao eventual abuso por redundância da expressão "pessoa humana". talvez eu fale nisto amanhã. mas explico. fui ao Google Images para buscar uma ilustração para a postagem que pensava fazer sobre a diferença entre pessoas e indivíduos humanos, ou melhor, os designativos de gente como a gente. fosse agora o que aconteceu há pouco, eu começaria procurando isto, lá no Google Images, "gente como a gente". não fiz, não procurei. o que procurei são as três imagens que hoje exibo e que, por razões de incompetência, perdi completamente a possibilidade de rastrear.

no uso figurado de onça bebendo água (que vemos na figura 1), achei engraçadinha a seguinte caricatura (fonte identificável judicialmente). eu, que não ia mais falar das eleições, não estou falando, né?, apenas escrevendo... ao capturar a imagem, nen notara que, além de biciclo x triciclo, temos rodas tipo A e tipo B. também, pudera, torna-se claro o que levou à derrota de Serra!
e também capturei a seguinte, que me lembra a sigla sei-lá-daonde, talvez militaresca, talvez da Força Expedicionária Brasileira que lutou na "campanha da Itália", o que não foi meu caso... falava-se que BTL não era propriamente signa de "batalhão" mas de bafo de tigre louco. acho que é pouco para essa viagem de lutar em guerras.
o milico ao lado tê-lo-á sentido, se é que onças e militares ainda usam mesóclises, coisa que faço, contrafeito, pois é reveladora de minha idade e da escorreita alfabetização a que fui submetido no final dos anos 1950.

pois bem, cadê a ligação com a crônica de Cláudio Moreno? mesmo falando de "pessoa humana" (inspirando-me para falar, talvez, domani), ele iniciou fustigando um certo subclube de submacacada que fala coisas como "hora de a onça beber água". diz ele:

[...] é português do melhor quilate combinar a preposição com o artigo que acompanha o núcleo do sujeito ('na hora da onça beber água', em vez do artificial 'na hora de a onça beber água'). [tudo sic]

eu anotei isto aqui e enchi de onças, políticos e milicos a fim de lembrar que Moreno diz isto, que isto é bem-dito e que admito que a primeira forma moreniana para a onça beber água é muito mais sonora. e que aprendi português há anos. e que andei defendendo que já falamos brasileiro. e que a idade me impede de adotar plenamente as estúpidas e desnecessárias regras do novo português brasileiro de 1st/jan/2009, exceto quando escrevo a palavra "ideia" (cá entre nós, para os gramáticos da academia de letras, estas (ambas, letras e idéias) é que estão faltando...). claro que não me ocorreria esta explicação (que já me foi dada pelo Prof. Conrado Abreu Chagas), essa questão do núcleo do sujeito. lá ia eu lembrar-me que sujeitos têm núcleos? o ponto é que a questão do núcleo deve dizer respeito ao gramático e não ao falante. e o falante tanto fala que, no final das contas, muda a própria regra. esse negócio das preposições ainda vai receber enormes censuras populares e veremos tudo mudado, quando o português brasileiro tornar-se uma canopla de idioletos, se bem lembro a expressão de Roland Barthes, no sentido de comunidades de poquíssimos falantes.

e não lembro se já citei aqui, que li há poucas semanas, a p.329 do primeiro volume da edição de 2008 das obras machadianas completas. estamos em "A Mão e a Luva": "são horas da baronesa dar seu passeio.". cara, bicho, gente, indivíduo, pessoa! é o descolamento da preposição ao núcleo do sujeito. é machadiano. é Moreno. é claro, há muita gente precisando reencarnar para não ser "maven", na linguagem de Stephen Pinker. bye now.
DdAB

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Cargos, Tarsos, Casa Civil

querido diário:
um dia, na faculdade, disseram-me que o centro de toda a ação governamental localizar-se-ia num plano de desenvolvimento que se desdobraria num orçamento plurianual e este seria implementado por meio das leis anuais do orçamento (fixando a despesa e estimando a receita). e que tudo isto seria centrado no Ministério do Planejamento oslt. mais adiante, mandaram-me esquecer tudo o que eu aprendera e, claro, não pude esquecer este tipo de coisa, afinal, parecia lógico: bota na lei de meios, empenha a verba, liquida a despesa e paga. todavia senão entretanto vim a entender, nos dias que correm, que os loteamentos de cargos, ministérios e tudo o mais é o loteamento de formas de evadir a lei do orçamento. e parece que quem determina o destino das verbas públicas não é ministério de planejamento nenhum, mas a Casa Civil. lá rolou o PAC, lá rolaram milhões, emendas, votações.

o leilão de cargos e partidos é interessante: antes falava-se em "tempo de TV", para consolidar propostas de alianças. agora, fala-se em cargos, secretarias, onde há mais verbas. as verbas deveriam estar na lei do orçamento, não era isto? pediram-me para esquecer tudo o que aprendi. estou fazendo força. Tarso Genro, visitando a Espanha e Portugal também negocia lá seus cargos. já andei ouvindo dizer que vai nomear seu neto, jogador de futebol, como CC. PAC? Programa de Aceleração do Crescimento. CC? Cargo em comissão, emprego público que não tem provisão por meio de concurso público. casa civil? parece aquele troço acima, mas que -diferentemente da casa dos mais férreos porquinhos (ver)- não cai com sopros. ela é a chave do poder, ela é a chave de evadir a lei do orçamento. esta, se fosse cumprida, levar-nos-ia irremediavelmente a uma democracia igualitária.

pode, claro, ter lobby no mercado político, mas tem que ter um mecanismo de compensação. para não insistir na lei do orçamento, falo apenas de uma de suas rubricas: o imposto de renda!
DdAB

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Cabazes do Passado Recente

querido diário:
 o passado recente refere-se a dois momentos. o momento em que o Brasil tinha (e ainda tem) o mecanismo de redistribuição de oportunidades de consumo por meio de um programa de distribuição de uma "cesta básica". e o outro momento é o em que vi no blog Vento Sueste uma postagem indagando se não seria mais simples dar dinheiro aos pobres, ao invés de dar-lhes a cesta básica. quer detalhes sobre esta postagem do Vento Sueste? clique aqui: http://ventosueste.blogspot.com/2010/11/nao-seria-mais-simples-dar-dinheiro.html. ao fazê-lo, seremos reendeerçados para: Cabazes de ajuda alimentar geram desperdício e são pouco diversificados.

suspeitei que "cabaz" é "cesta". não é palavra do português-brasileiro contemporâneo. nem chega a ser uma diferença semântica, dizia-me a Profa. Iracema de Alencar (ou outra). trata-se apenas de palavras mais usadas aquém-mar do que além-mar, se é que o "aquém" quer dizer Portugal. nem lembro bem onde foi que vi esta palavra, mas o fato é que, dada a suspeita ligada ao assunto e a consulta ao dicionário, tornou-se claro que eu já a vira, ouvira ou lera. e eu sempre soube que, em espanhol, canasta é a mesma coisa, o que me lembra Mato Grosso e as canastras, para não falar no jogo carteado. dito isto, voltemos ao tema.

no Brasil, os mecanismos redistributivos do tipo "cesta básica" estão sendo progressivamente substituídos pela renda básica da cidadania. como sabemos, esta é obrigação legal do governo brasileiro, que oficializou-a por meio da lei n.10.835/2004, ou seja, mais de um lustro. veja a respeito o seguinte link:  http://www.rendabasicadecidadania.org/page1.php. se o assunto está engrenando, ver também: http://recivitas.org.br/artigosepublicacoes.php.e, claro, a www.basicincome.org/bien/ .

e, já que estou falando no assunto, olhar meu "eu sou". parece-me óbvio que a renda básica universal tem que ser universal, tem que ser renda (não pode ser dada em espécie, em cabazes, ou onde quer que queiram os poderosos, vendedores de alimentos, correlatos).

da BIEN, somos remetidos a: http://www.bien2010brasil.com/, que apresenta informações e papers do congresso brasileiro de junho-julho/2010 em Sampa
DdAB

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

As Férias Mexicanas de Jean e Jane

querido diário:
de minha parte, evoquei a frase de Henri Agel Rimbaud: "puisque l'impossible accède à la catégorie du vrai, le vrai, à son tour, peut accèdre à la catégorie de l'impossible." (ver). eu falava de Buenos Aires, no final de julho/2010. e via coisas surrealistas para aquela antigamente garbosa cidade. vi papeleiros,  ouvi que milhares de taxistas afanaram milhares de turistas, até acho que vi meninos malabaristas de sinaleiras...

um impossível que acedeu à categoria de vrai foi o que hoje Zero Hora noticiou na p.29: "Aos 50, mãe e avó de um mesmo bebê", com a divertida chamada de "dupla emoção". "Cá entre nós", pensei, "que tipo de arranjo parental pode ser feito para se alcançar um desarranjo da natureza desta natureza?" animais? tá cheio de animal que é seu próprio filho, ou sei lá. Moll Flandres, se bem lembro, pariu na Inglaterra, abandonou o rebento, migrou aos Estados Unidos, o filho seguiu-lhe os passos -sem o saber-. conheceram-se, casaram-se, procriaram. não é nada, comparado com esta caso mexicano, de acordo a notícia. a mãe de um rapaz de 31 anos -de nome Jorge-, declarado GLS, na conexão G, induziu-o a envolver-se com ela, por meio de uma inseminação artificial. tudo no estado Jalisco, que tem sua noiva chamada Guadalajara.

pois bem. no outro dia, postei alguma coisa aqui falando nas possibilidades conjugais que se abrem com a possibilidade de casamentos GLS (mais, claro Gs e Ls, que muitos Ss, como é meu caso, sempre casaram; eu mesmo o fiz uma boa meia dúzia de vezes...). imaginei comunidades poligínicas ou poliândricas, comunidades mistas. e agora chego a prever que haverá naves casamenteiras com, digamos, 1.000 homens e 3.146 mulheres, todos casados entre si. mas isto não é nada. o problema anterior diz respeito à adoção. qual será o tipo de família enlargecida que poderá adotar filhos? já que filho pode procriar com a mãe, que tal também pensarmos nas regras da adoção? pois imaginei o seguinte, que é uma pérola a criticar o moralismo da macacada.

Jean e Jane (ver captura; espero não estar sendo inconveniente) são duas astronautas muito amigas, ambas inclinadas irremediavelmente para a heterossexualidade, mas são solteironas convictas. pois elas decidem, cada uma, adotar uma criança. Jean gostaria de adotar Jean (João, em francês) e Jane adotaria Jean (Jane, ou Joana, em inglês). pois cada uma contrata seu advogado -do setor pertinente de outra nava  do mundo da lua povoada exclusivamente por eles...- e o juiz proibe, pois mulher solteira não pode adotar. então elas decidem casar-se, o que lhes dá o direito também à adoção de pimpolhos. encerrada a cerimônia do casamento (com separação total de bens), os mesmíssimos advogados -instruídos pelas autoras- entram com um pedido de divórcio, com separação de corpos, e a guarda dos filhos sendo dividida: Jean fica com Jean e Jane fica com Jean. tudo muito claro e explícito, uma menina com a menina e a outra menina com o outro.
DdAB
p.s.: esta postagem deve, em alguma medida, inspiração às frutuosas discussões que tenho mantido sobre a natureza humana com Marcelo Baimler, da Rádio Baimler FM, e Olga Veiga, terráquea de primeira qualidade. pelo que imagino, eles ainda não viram nada, se imagino que vou impactá-los positivamente com a proposta de um novo tema para nossa filosofia.

P.S. de 15/dez/2015: às 11h20min de hoje, troquei o nome de Rimbaut lá no alto do texto pelo que consta. A memória falhou ao citar aquele "puisque l'impossible..." E de onde tirei esta citação, eu, que nunca li o mr. Henri Agel? Da epígrafe do livro "O Púcaro Búlgaro", de Campos de Carvalho.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

CPMF: receita e despesa

querido diário:
sigo preocupado com o noticiário brasileiro e gaúcho, os assuntos do momento escolhidos pela imprensa a que costumo ter acesso. trata-se do loteamento dos cargos públicos, algo que deveria ter sido feito há meses, quando a alianças partidárias iniciaram. mas entendo que, naquele tempo, tratar de qualquer assunto sério era perfunctório, pois o grande tema era mesmo pensar em quantos segundos no programa gratuito da TV seriam ganhos com a atração de tal ou qual partido.

e do CPMF. acabo de ler que os empresários estão insurgindo-se contra esta manobra de oportunismo pós-eleitoral. alegações peculiares: o CPMF poderia isentar "rendimentos" inferiores a 10 salários mínimos. esta "amenização" do lado amargo do tributo é simplesmente risível. deve-se a indivíduos irresponsáveis que ingressaram na política sem sequer terem feito um curso elementar de teoria da escolha pública. obviamente o que eles não sabem é que o imposto é distorcivo mesmo com esta exceção pueril. e o que é pior é o desconhecimento da influência deste tributo regressivo sobre os preços relativos interesetoriais e -como acabam de dizer-me pessoalmente- joga contra a desintegração vertical.

o pior de tudo é que há defensores da CPMF que não sabem com precisão a diferença entre receita e despesa. como é isto? CPMF é uma receita do governo. ela, como tal, como tem acontecido nos últimos milhares de anos, pode ser gasta em bebida, corrupção, assassinatos, obras viárias, essas coisas. ou seja, a receita não é gasta, a menos que se a gaste. a CPMF é uma receita que alguns sugerem seja desviada dos gastos em corrupção e seja injetada nos gastos em saúde. o que eu sugiro é que usemos o primeiro teorema da receita pública: ela é igual a 100% de si mesma e tiremos uma parte dela para destinar à despesa em saúde. e que, principalmente, tentemos zerar o gasto em corrupção, assassinatos, bebida, etc.. manjou?
DdAB
p.s. achei a charge que aqui achei muito oportuna e divertida.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Tropelias públicas e corporativismo indigitado

querido diário:
a grande notícia de Zero Hora de hoje é, naturalmente, a vinda de Paul McCartney a Porto Alegre. como referi ontem, não indo ao show, decidi homenageá-lo fazendo meus 64 assim que possível. já é suficiente. lembro do lançamento da canção, parecia uma data a ser encontrada apenas no infinito. lembro de, quatro anos atrás, quando se comemoraram os sixty-four do próprio McCartney. mas, na Zero Hora de ontem, o show já se avizinhava e a notícia marcante foram alguns dados sobre uma causa judicial que os juízes condenaram o estado a pagar-lhes quantias variáveis, a mais invejável delas alcançando R$ 800 mil. ou seja, se tu conseguires casar-te com o filho ou filha de um juiz nos próximos tempos, poderás pedir como dote um apartamento um milhão de reais.

em minha opinião, justiça no Brasil não apenas rima com mulher pelada, mas principalmente, é uma piada. por isto tenho defendido o fechamento completo do Poder Judiciário e a transferência de todos os julgamentos, inclusive do nepotismo que eles andaram praticando há milênios e os crimes de lesa-patrimônio público, à Corte Internacional de Haia. por meio de um simples convênio com o CIE-E, esta poderia contratar estagiários entre os estudantes de direito das faculdades européias e enviá-los ao Brasil para administrar a justiça!

uma das maiores causas das mazelas do Brasil é a lentidão das ações do poder judiciário, este estamento de homens e mulheres que talvez algum dia tenham tido alguma dose de pudor, mas hoje em dia o que vemos é uma inominável desfaçatez exibida à sociedade por meio de seus representantes corporativos.

o dinheiro que sobra aos juízes falta, claro, à saúde, levando mesmo um infeliz médico a dizer um descabelado absurdo no artigo que Zero Hora de hoje publica à p.17. ele disse -e eu não cito fora de contexto, mas sem a frase inteira: "[...] saúde é uma chaga [...]". dos tempinhos de minha participação no Conselho de Justiça e Segurança do Bairro Menino Deus, eu vim a entender que a única saída é a criação de uma lei decente para o orçamento público. sem "emendas" parlamentares, sem corrupção, apenas cumprindo o que foi programado por eles, os eleitos, os ungidos.

com esta de ver a saúde como chaga, eu pensei cá comigo: ok, ok, não é bem isto que este neguinho está querendo dizer. eis que -senão quando- olhei para a outra página e vi meu artigo intitulado "CPMF: logo agora?", em que reclamo da hipocrisia dos governantes brasileiros que hoje respondem pelo nome de "governadores", como se está chamando os que defendem a volta de mais este imposto regressivo, ergo, distorcivo. uma vez que outra, neste blog, reclamei do caráter sanguíneo do jurista Paulo Brossard, que escreve todas as segundas feiras na página selecionada por Zero Hora para publicar meus scribbles.

tem o deputado Mendes Ribeiro, filho do locutor da Copa do Mundo de 1958, que também chegou a deputado e morreu, cogitado para ser ministro do governo Dilma Vana (diz o mesmo jornal que sua mãe, a sra. Dilma Jane, declara-se a verdadeira Dilma). diz Mendes que o CPMF até que é bom! eu, que já estava mesmo com a mão no copo, exclamei; só bebendo!
DdAB
p.s.: procurando apenas "tropelias públicas", cheguei a (clique aqui), logo eu que não falo palavrão nestes escritos, nem cultivo a exposição de fotos eróticas.
p.s.2: disse-me a sra. Avó do Badanha: não entendo o que queres dizer com "tropelias públicas". eu disse que são os 800 mil de indenização que os juízes se condenaram a receber. e ela seguiu: e "corporativismo indigitado"? eu disse: só posso estar-me referindo a este troço do médico que quer melhores salários e clama que a saúde é uma chaga. e, além dele, ao  dep.Mendes Ribeiro, que quer mesmo a CPMF e, ademais, aos juízes que não ganharam estes 800 mil no tempo em que eu estava no mercado de casamentos, que não me faria qualquer mal um dote destes! ela disse: ok.

domingo, 7 de novembro de 2010

Guascas McCartianos

 
querido diário:
nascido o Sol em Porto Alegre, já mais de 6h00min do horário solar, dia mais claro do que o quarteto Clara, Nívia, Branca, Alba, olho para frente, vejo minhas tradicionais (e efêmeras) imagens e, no início do terço final na chegada do infinito, se as perspectivas mensuram-se deste jeito, o Estádio Beira-Rio. vejo luzes no local em que presumo ser o placar eletrônico. hoje é dia de Paul McCartney. em Porto Alegre. um guasca. outro guasca. nunca pensei em ir ao show das 21h00 (HBV) de hoje. no final da tarde, quando o Sol tiver feito sua travessia, já postado por detrás do Rio Guaíba, pretendo aproximar-me (3km) o Estádio, para ver, como diriam os guasca, a confas, ou seja, a confusão, o povo a movimentar-se, jovens e velhos, mente nova e novamente...

é dia de cachimbo, dia de entortar a boca, os olhos, a pretty face. Paul no circuito. Machado de Assis falava em uma gaúcha, uma guasca. Aurelião simplesmente diz que guasca é originário do quíchua, significando uma corda de couro, mas também transformado em sinônimo de sul-riograndense (Elsewhere, op. cit.). minha visão do evento é que -mais do que Porto Alegre ter-se internacionalizado- o que aconteceu é que a internacionalização chegou a Porto Alegre.

minha homenagem a tudo isto, Paul, meus velhos tempos, John, dos Passos, Mary McCarthy, Andrew, tudo o mais, será completar meus sixty four assim que possíve!
(p.s.: e, em nenhuma hipótese, depois de julho do ano vindouro).
DdAB

sábado, 6 de novembro de 2010

CPMF: clima eleitoral - eu bem que avisei

querido diário:
parece que não existe nada mais certo no Universo Expandido do que a aprovação de novo imposto sobre as movimentações financeiras. meu jornal passou a falar nisto com a maior frequência e franqueza. disque todos os governadores querem de volta a Contribuição Provisória sobre as Movimentações Financeiras. provisória por uns 250 anos, talvez. dizem que, sem ele, não há dinheiro para se gastar em saúde, em confronto direto com o primeiro teorema do PIB (o PIB representa 100% do PIB, e se gastarmos menos, digamos, em senadores, teremos mais para a saúde ou as endoenças, sei lá.).

como sabemos, dependendo de quem paga, o imposto (ou a contribuição) pode ser classificada em "direta" e "indireta". a direta ocorre quando o devedor é o próprio pagador, como o imposto de renda. e a indireta aparece no caso do devedor comprar um sorvete, por exemplo, deixar a parte do imposto incluída em seu preço na mão do vendedor do frígido e este, o vendedor, recolher o imposto devido ao governo.

no caso dos impostos indiretos, eles sempre serão regressivos, pois -por exemplo- se compramos um Häagen Dasz por R$ 20 (preço exagerado nos supermercados locais) e pagamos, digamos R$ 2 de imposto, isto representará, digamos, 1% de minha renda -que ganho R$ 100 mensais- e 0,1% da renda de qualquer político de terceira linha que tem uma FG que lhe dá apenas R$ 1.000. ou seja, oneram mais os mais pobres. como a população brasileira é especializada em pobres, claro que os impostos indiretos contribuem -já não vou dizer para a pobreza- para a desigualdade. o rico paga mais em termos absolutos, mas o pobre paga mais em termos relativos.

por contraste, o imposto de renda poderia ser regressivo, neutro ou progressivo. nunca ouvi ninguém apregoar as virtudes de um imposto de renda regressivo, ou seja, quanto mais pobre mais paga. para pobre deixar de ser bobo, diria algum antepassado gaúcho. em geral, e ao par com a noção de sociedade justa (a desigualdade será tolerada se beneficiar os mais pobres), a negadinha fala que o imposto de renda deveria ser progressivo.

pois agora, os governadores recém eleitos e reeleitos dizem -diz o jornal- que precisamos deste escroncho imposto sobre os cheques. se bem lembro, ideia estrambótica do ex-deputado Luiz Roberto Ponte (ver o clube que dizem ter sido criado por este tipo de iniciativa clicando aqui). o problema com os impostos indiretos, ou seja, os que são incluídos no preço de venda cobrado pelos produtores às instituições (famílias e empresas nacionais/investidoras e empresas estrangeiras/importadoras e governo (cafezinho e viagens de avião dos deputados) e devolvidos pelos produtores ao governo, é que eles são distorcivos do sistema de preços. até que não seria mal se eles se ativessem aos bens de demérito. mas -inserindo-os os indiretos- em bens e serviços com as movimentações financeiras, a energia elétrica e a telefonia, eles elevam o preço de oferta desses setores e os distorcem e esgravateiam qualquer ideia de eficiência alocativa.

o entusiasmo deste imposto leva-me a lembrar o pior possível. eu bem que avisei: está começando o quinto governo FHC.

só bebendo!
DdAB

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Hobbes, Inglês e Tradução

caro blog:
mantendo-me fora do clima eleitoral que agora mostra loteamentos de cargos, nepotismo, discriminação, subsídios cruzados, o cão chupando manga e por aí vai, decidi pular para os grandes autores de filosofia política. nem tudo li, nem, menos ainda, lerei. ou melhor, não é bem isto... seja como for, diz-se em português o seguinte:

   Com isto [ou seja, as três principais causas de discórdia: competição, desconfiança e glória] se torna manifesto que, durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens. Pois a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente conhecida. Portanto a noção de tempo [sic] deve ser levada em conta quanto à natureza da guerra, do mesmo modo que quanto à natureza do clima. Porque tal como a natureza do mau tempo não consiste em dois ou três chuviscos, mas numa tendência para chover que dura vários dias seguidos, assim também a natureza da guerra não consiste na luta real, mas na conhecida disposição para tal, durante todo o tempo em que não há garantia do contrário. Todo tempo restante é de paz.
   Portanto tudo aquilo que é válido para um tempo de guerra, em que todo homem é inimigo de todo homem, o mesmo é válido também para o tempo durante o qual os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida por sua própria força e sua própria invenção. Numa tal situação não há lugar para a indústria, pois seu fruto é incerto; consequentemente não há cultivo da terra, nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas pelo mar; não há construções confortáveis, nem instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande força; não há conhecimento da face da Terra, nem cômputo do tempo, nem artes, nem letras; não há sociedade; e o que é pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta.

o que é é que é casca grossíssima. e, em inglês:

   Hereby it is manifest, that during the time men live without a common power to keep them all in awe, they are in that condition which is called war; and such a war, as is of every man, against every man. For WAR [sic], consisteth not in battle only, or the act of fighting; but in a tract of time, wherein the will to contend by battle is sufficiently known: and therefore the notion of time [sic], is to be considered in the nature of war; as it is in the nature of wheather. For as the nature of foul wheather lieth not in a shower or two of rain; but in an inclination thereto of many days together: so the nature of war, consisteth not in actual fighting; but in the known disposition thereto, during all the time there is no assurance to the contrary. All other time is PEACE [sic].
   Whatsoever therefore is consequent to a time of war, where every man is enemy to every man; the same is consequent to the time, wherein men live without other security, than what their own strenght, and their own invention shall furnish them withal. In such condition, there is no place for industry; because the fruit thereof is uncertain: and consequently no culture of the earth; no navigation, nor use of the commodities that may be imported by sea; no commodious building; no instruments of moving, and removing, such things as require much force; no knowledge of the face of the earch; no account of time; no arts; no letters; no society; and the life of man, solitary, poor, nasty, brutish and short.

e se era casca grossa em português, thou can imagine este troço com os arcaísmos ingleses. lembra o que já postei há tempos sobre Platão, a desigualdade e a guerra civil! seja como for, o texto em português encontra-se nas p.75-6 do capítulo XIII (Da condição natural da humanidade relativamente à sua felicidade e miséria), de Thomas Hobbes, da coleção Os Pensadores, da editora Abril Cultural. de sua parte, o texto em inglês retirei-o do box da p.325, intitulado War and Peace, de Hargreaves-Heap, S. et al (1992)  The theory of choice; a critical guide. Oxford, UK & Cambridge, USA: Blackwell. In fine, eles dizem: Hobbes, 1651, ch.13).
DdAB
p.s.: esta foto, um tanto inspiradora do clube da baixaria, veio daqui.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Literalidades (poucas)

querido diário:
tentando ver-me livre das eleições, ontem andei campeando coisas gracilianescas. hoje passo a algumas machadianas. tudo porque o loteamento dos cargos públicos que vejo iniciar-se nos governos central e regional deixa-me contrafeito. teria dito tia Zulmira, a personagem de Stanislaw Ponte Preta: "ou todos nos locupletamos ou restaure-se a moralidade". [procurei a fonte na Internet, que devo ter lido com ambos meus dois olhos, mas achei apenas citas também ao Barão de Itararé, este já devidamente personagenzado]. eu, claro, como cidadão, prefiro ver a inversão da ordem lexicográfica: restaure-se a moralidade ou todos nos locupletamos, fazendo justiça com as próprias mãos. por isto, depois de muito meditar, lancei a legenda cachorra: "abrace a política: sufoque um político". [esta de "cachorra", parece-me, parece vir de "Incidente em Antares", não é isto?]

bis do primeiro parágrafo: em "Helena", ele não fala no "ambos os dois", de que falei apenas em "ambos meus dois olhos" acima [sem falar que já inventei pilhas de frases com "ambos os três quatro" etc. mas fala ele em "ambos eles". quer ver? folhemos daqui e folhemos dali e cheguemos nas p.438 e 499, para citar apenas as que, fortuitamente, assinalei. na p.438 (capítulo 12), ele diz: "Ambos eles viam que se detestavam cordialmente [...]". isto, claro, cheira a pós-modernismo, não é mesmo? na p.444 (capítulo 26, ambos os dois em romanos), vem: "Ambos eles os baixaram à terra, medrosos de si mesmos." Os, no caso, começando frases com pronomes átonos, quer dizer "os olhos".

primeiro depois do bis: nem sei a página, mas chamou-me a atenção, ao folhar daqui e dali o primeiro volume da nova edição (mais) completa da obra machadiana e vi "vede verso". pensei: toda a vida ouvi e pensei que era "vide verso". fui ao Aurelião e simplesmente a forma "vide" não existe. e não é revide... o mais próximo é "virdes". e que tal em "vir"? também tem um "virdes". pode?

segundo: no texto científico, uma das formas de expressar ideias é usar "entradas paralelas". se digo "por um lado A", segue-se necessariamente "por outro lado ~A", ou até "por outro lado, B, C e D". mas não podemos dizer "por um lado, há apenas um lado", já seria abagunçar, como disse João Bosco, num assunto que não tem absolutamente nada com o presente contexto. se começo uma dissertação de mestrado dizendo "por outro lado...", não apenas tomar-me-ão por louco como, paralelamente, irão reprovar-me. a sorte é que já fui aprovado em dois destes pega-cachorro-louco.

terceiro. vortano a Machado: Machado não diria "vortano", no máximo falaria em "Vulcano", o que tampouco teria algo a ver com o assunto. seja como for, vortano às entradas paralelas, na p.612 (capítulo XVI de Iaiá Garcia),  vemos: "Mas duas circunstâncias a induziam ao desfecho: era a primeira a revelação de Procópio Dias, confirmação de suas suspeitas; a segunda foi o espetáculo que se lhe ofereceu aos olhos naquela noite, logo depois de se despedir do noivo." sugiro que meu leitor diligente e seu gentil feminino procurem e respondam por Sedex a quem se referem os pronomes: "a", "suas", "se", "lhe" e "se". e que troço é este de "era a primeira" e "a segunda foi"? pretéritos imperfeito e perfeito? para quê?

quarto: de minha parte, se algum dia eu conseguir completar um dos milhares de romances que estou escrevendo, deixarei que leiam:

Assis redarguiu: -Para nós, você e a  vida primitiva que, evolucionariamente, os antecedeu já é um espantoso milagre, equiparado apenas -talvez- com o milagre de os havermos encontrado.

e, dito isto, terei que inventar pilhas de coisas para colocar antes e outros montes depois. se conseguir ir seguir sinuosamente... inclusive este troço dos pronomes "você" e "os".
DdAB

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Ironias: nos escritos e na economia política

querido diário:
como sabemos, meus "marcadores" de postagens não são excessivamente úteis: Economia Política, Escritos e Vida Pessoal. mais de uma vez, recorri a todos eles, de sorte a dar conta de uma postagem ou outra específica ou também. vejamos hoje alguma coisa dos dois primeiros. para ambos os dois primeiros, escolhi a imagem que retirei daqui. será que a liberdade é o antônimo do paraíso? será apenas uma contrariedade? uma contradição irremediável? apenas dois bairros com nomes inspirados em noções que nos movem a querer ser livres e a ganhar o paraíso?

Escritos
Essas moças tinham o vezo de afirmar o contrário do que desejavam. Notei a singularidade quando principaram a elogiar o meu paletó cor de macaco. Examinavam-no sérias, achavam o pano e os aviamentos de qualidade superior, o feitio admirável. Envaideci-me: nunca havia reparado em tais vantagens. Mas os gabos se prolongaram, trouxeram-me desconfiança. Percebi afinal que elas zombavam, e não me susceptibilizei. Longe disso: julguei curiosa aquela maneira de falar pelo avesso, diferente das grosserias a que me habituara. Em geral me diziam com franqueza que a roupa não me assentava no corpo, sobrava nos sovacos. Os defeitos eram evidentes, e eu considerava estupidez virem indicá-los. Dissimulavam-se agora num jogo de palavras que encerrava malícia e bondade. Essa mistura de sentimentos incompatíveis assombrava-me e pela primeira vez ri de mim mesmo. A doçura picante não me reformava, é claro, mas exibia-me como eu poderia ter sido se a natureza e o alfaiate me houvessem dado os recursos indispensáveis. Satisfazia-me a ideia de que a minha figura não provocava inevitavelmente irritação ou desdém, e as novas amigas surgiram-me compreensivas e caridosas.

em mais de uma oportunidade, creio, referi o texto de Graciliano Ramos, que acabamos de ler, em postagens anteriores. mas nunca tivera a meu lado o próprio livro: Infância, São Paulo, Rio de Janeiro: Editora Record, (circa 1995), p.184-185. ao transvrevê-la agora, vi-me corrigindo o Graça: onde ele escreveu "vantagens", eu assinalara "virtudes". achei melhor, mas ele não... isto não o faz, a meus olhos menos perfeito. ele é, na verdade, mais que perfeito! há dias li que alguém acha que "Infância" é seu melhor livro. ele foi publicado originalmente em 1945, 12 anos depois de "Caetés", que -sabemos- levou alguns anos entre a conclusão e a publicação. nessa ordem se bem lembro e me não falham as fontes, veio "São Bernardo", em 1934, "Angústia", em 1936, [...], "Insônia", em 1947, "Vidas Secas", em 1938, mais [...], o próprio "Infância", outro [...] e "Memórias do Cárcere", de 1954 ou 1955 e mais um ou mais [...], fora algum omitido.

eivada por pleno esplendor da mais pura coincidência, "Insônia" foi o primeiro livro que li (se é que não o fiz antes com a dupla "Vidas Secas" e "São Bernardo", por motivações sinuosas), do ano de meu nascimento. não quero dizer que li ainda analfabeto, nem que tenha nascido alfabetizado, you know... e se não o li em 1947 e se tampouco foi o primeiro, o certo é que juro que o li na Biblioteca do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, e isto poderia ser comprovado (o certo é que não disse que é "certo", mas que é "certo que juro") nos registros que assinávamos ao entrar e sair, e a ficha estará facilmente localizável nos arquivos dos anos 1962 (quando entrei) e 1966 (quando saí), ainda que não tenha ficado por lá preso todos esses anos. aliás, não me chamo "Dilma" e, portanto, nunca fui parar no xilindró, mesmo tendo lido algo subversivo ("Memórias do Cárcere", por exemplo) naquela fase.

Economia Política
CC: Que outros temas seriam interessantes na reforma política?
EC: Calendário eleitoral único, como eleições municipais, estaduais e federais. Fim da reeleição. O PSB já se posicionou contra a reeleição e favorável ao mandato de cinco anos. 

o fato de que eu reproduzo este "CC", de Carta Capital, na p. 31 da edição desta semana e este "EC", de Eduardo Campos, governador reeleito de Pernambuco, não é ironia: é pura crítica mesmo. a ironia, talvez, foi -na postagem de ante-ontem- eu ter-me referido a ele como um político (ergo...) que poderia levar o Brasil adiante, sob o ponto de vista da modernização. seu menino, este cabra parece-me defender um programa de atraso. ele foi incapaz de falar no voto obrigatório, no voto proporcional, no presidencialismo, em um monte de coisas retrógradas. se algo há de progressista nesta herança dos escombros de democracia pós ditadura militar (e pré também...) é precisamente o programa que o Mr. Fields deseja botar abaixo: assincronia entre as eleições. já imaginou a concentração do poder político se todo mundo for eleito ao mesmo tempo, do vereador e prefeito aos deputados e presidente e ainda juízes do supremo tribunal? ele quer é um arremedo de reforma política. inclusive -depois de ter sido reeleito- o fim da reeleição. e, a exemplo do Marechal Ernesto Geisel, o mandato de cinco anos. não seria melhor o de seis, como Geisel presentou a Figueiredo? ou apenas dois, como Sarney propôs e, mudando de ideia, ficou cinco? não daria para entender que tanta reeleição como tem acontecido no país significa apenas que o povo gostou do mecanismo?

deixe-me recuperar o bom-humor, a esperança de galgar o pé de feijão e alcançar o paraíso. volto a Graciliano. quê que tu achas da frase: "A doçura picante não me reformava, é claro, mas exibia-me como eu poderia ter sido se a natureza e o alfaiate me houvessem dado os recursos indispensáveis." claro que isto merece também o marcador de "Economia Política", pois é uma introdução à análise contrafactual ("poderia ter sido"). e mesmo economia política propriamente dita: a natureza (da terra) é a mãe e o (trabalho do) alfaiate é o pai da riqueza. (como pude ver em Marx citando William Petty, no finalzinho do oitavo parágrafo da segunda seção do capítulo 1 do primeiro volume do Capital; mas não fui capaz de achar em Petty proper).
DdAB
p.s.: o alto astral é o político João Agripino -oslt- querer dialogar e encaminhar alianças a favor da modernização. e o baixo astral é o filho de político Nelson Marchezan dizer que a popularidade de Lula assemelha-se à de Hitler. a direita é estranha, mas o corte -talvez- seja entre neuróticos e oportunistas.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A Composição dos Governos

querido diário:
as festanças continuam. minha euforia é que as eleições acabaram, as denúncias vão parar, os times de futebol vão continuar sua trajetória em heróicas tentativas de não se desligarem do clube da baixaria, os mendigos seguirão na rua, os assantantes seguirão exercendo suas funções. pelo menos por uns tempos. a questão é quanto tempo, quanto tempo. será que algo mudará, digamos, num ritmo que nos permita ver que mudou o ritmo?

vivo falando no conceito de sociedade justa trazido à agenda da filosofia política por John Rawls num livro de 1971 e que foi publicado -in due time- pela Universidade de Brasília. diz Rawls que, na sociedade justa, a liberdade é o princípio absolutamente soberano. eu sempre digo: sou livre precisamente por não ter direito de ter escravos (pois obviamente o assunto começou com o direito do "outro" de não ser escravo). depois, Rawls fala que, na sociedade justa, todos terão livre acesso aos cargos públicos. ou seja, não teremos nepotismo nem, talvez, loteamento de cargos. qualquer um, como a turminha da figura capturável (aqui), poderá ser dirigente da Petrobrás, não apenas os amigos do rei (ou, agora, da rainha).

(por fim, Rawls fala que, na sociedade justa, se houver desigualdade, esta deve ser administrada de sorte a favorecer os menos aquinhoados. entendo como imposto de renda e, mais recentemente, depois da argúcia de Milton Friedman, o imposto de renda negativo e, assim, a renda básica universal).

o que me deixa preparado ao desencanto é observar que os políticos (logo, ladrões, remember?) não falam tanto de programas de governo, mas de ganhar "pastas" quetenham gordos orçamentos. que quer dizer gordos orçamentos? num país de controles orçamentários edêntulos, sabemos bem do que estão falando: das propinas, dos 10%, dos desvios de verbas, dos presentes "por fora", das associações, do nepotismo, desta série infindável de burlar não apenas o princípio da abertura dos cargos públicos a todos. mais que isto, o que vemos é que, por petitio principii, entram os parentes e a "companheirada" e depois a companheirada ajuda a melhorar o desempenho distributivo privado dos amigos dos amigos.

e de onde irei tirar forças para arrancar alegria ao futuro? creio que do resíduo deste gasto público que pode ajudar a criar condições para a mudança em certo e longínquo horizonte de tempo: gasto em educação, gasto em segurança pública, gasto em saúde e saneamento, esses gastos que, ainda que gerando propinas, uma vez feitos, tornam-se redistributivos. 

mas ainda tem mais. caso o mundo mantenha-se próximo a uma depressão prolongada e ativadora de uma corrida cambial e protecionismo (coisas que previ -usando não mais que o prefácio de meu livro de graduação de macroeconomia- precisamente no dia em que comecei a pensar na crise de setembro de 2008, juntamente com desemprego e inflação). e isto tem a ver com exercícios de análise estrutural por decomposições propiciada pelo modelo de insumo-produto: as fontes do crescimento econômico brasileiro sempre estiveram majoritariamente associadas ao mercado interno. é possível que agora um programa de "redistribution with growth" possa fechar estas duas pontas da ponte. em boa medida, foi isto o que aconteceu durante os últimos 10 anos.
DdAB

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

As Eleição: final definitivo


senhor blog:
em homenagem à estrondosa vitória infligida pela economista Dilma Rousseff ao economista José Serra na cidade de Jaguari (52 x 48% dos votos), à estrondosa vitória de Serra sobre Dilma em Porto Alegre (120 mil votos), à estrondosa idem idem do Rio Grande do Sul (51 a 49%) e a estrondosa de Dilma sobre Serra no Brasil (56 x 44%), busquei -sob o título "as eleição", gauchês escorreito- ajuda ao Google Images. encontrei o que se torna minha ilustração de hoje (ver). com esta imagem, posso evitar o título de "eleições: só bebendo" para a postagem. antes, porém, de beber em homenagem ao Professor Hariovaldo Almeida Prado, eu já estava puxando a garrafa em homenagem ao artigo de Paulo Brossard (jurista e ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal), da p.33 de Zero Hora de hoje:

[...] em verdade, o debate pré-eleitoral foi substituído pela divulgação de pesquisas de opinião; e, na medida em que forem confirmadas nas urnas, não faltará quem diga que o ato supremo da cidadania ativa se tornou ocioso, pois o resultado era conhecido antes da eleição.

o radicalismo de ambos é algo interessante de analisarmos, a fim de tentarmos conter nossas próprias paixões em todos os assuntos, exceto os you know... o que não sabemos é quando não estamos expressando paixão nenhuma, apenas usando fria ironia. o Prof. Hariovaldo, se for este o caso (que não lhe examinei mais o blog do que a postagem que destaquei), é campeão:

Com o talento de um goleador nato, José Serra, autêntico representante dos homens bons, vem acumulando glórias sucessivas nesta campanha eleitoral, demostrando porque é o mais bem preparado político brasileiro de todos os tempos e o único que tem condições de remir a pátria o esquerdismo atroz de Lula e Dilma, um verdadeiro fenômeno. Não existe bolas fora e nem balas perdidas para Serra, cada movimento seu é friamente calculado de modo a obter o máximo de sucesso, cada palavra emitida é milimetricamente estudada para ter grande êxito,enfim, um verdadeiro gênio da política apesar da grande humildade, talvez o maior de todos da atualidade.

Um candidato assim é imbatível e os petistas sabem disso, por isso choram nos butecos das vilas e das grandes cidades, e como ébrios insuportáveis e deserdados do poder, se entregam ao aguardente inspirados todos nós sabemos por quem. Bendita hora em que forem todos varridos do poder pelo grande almirante do Tietê. E essa hora há de vir bem antes do que eles pensam pois pesquisa após pequisa, começando pelo Dataprado, passando pelo Datafolha e pelo Ibope, já demostra claramente que a vitoria de Serra é irrevogável e inadiável e que o tempo da ditadura lullopetista se conta agora em dias e não mais em meses.

pode um erro de previsão desta magnitude? acho que apenas no caso de ser movido pelo ódio. agora resta a este tipo de abordagem um teste empírico: saber se o Brasil vai acabar durante o mandato de Dilma Rouseff. estou apostando que não. mas nem sempre venço minhas apostas, devo admitir. e que esperar, assim, de Dilma, já que não espero o fim do mundo? em boa medida, espero um governo de esquerda, ou seja, igualitarista. em boa medida, espero um governo mais nacionalista-intervencionista do que eu gostaria. mas o saldo é que dirá. e o saldo se contabiliza ex post. na p.33 de Zero Hora, Carolina Bahia também acredita no aprofundamento do corte igualitarista sem repetição do estilo Lula: "Só quem não conhece Dilma para acreditar que será tudo igual."

no discurso de ontem, que ouvi mas não vi a integra em 'meu' jornal, ela -Dilma- orgulhou-se da coalizão de 10 partidos políticos que a levaram ao poder. eu me indago se haverá outros atraídos pela retidão de suas ofertas de vantagens e se os atuais acompanhá-la-ão até o final de seu mandato. há um problema interessante nesta questão, sobre o momento adequado de um partido como o PSB -vencedor inequívoco- com um nome do porte de Eduardo Campos, deixar claro que pleiteia mais do butim do que lhe está reservado. como tal, qual o momento adequado para sair do governo, tornar-se oposição e lançar-se candidato à sucessão. não pode ser na véspera da eleição, mas tampouco poderá ser no próximo dia 2 de janeiro de 2011, claro. a backard induction terá lá uma equação que poderá ajudar-nos a prever o momento propício. talvez uma mistura de popularidade do governo Dilma com a estimativa subjetiva do sucesso de negociações com o epicentro do projeto sobre quem a sucederá. já referi que li na Carta Capital o anúncio de um partido de centro-esquerda liderado pela dupla vencedora Aécio-Eduardo.

vejamos agora algumas áreas em que Zero Hora diz residirem "Os desafios da próxima administração"
Agricultura, Assistência Social, Educação, Energia, Reforma Tributária, Saneamento, Saúde, Política Externa, Previdência, Transportes.

na p.37, Maria Isabel Hammes fala sobre "Os seis grandes desafios de Dilma:
Câmbio, Infraestrutura, Trabalho, Contas Públicas, Impostos, Juro.

de minha parte, acrescentei, não sem alguma duplicação:
Reforma Agrária, Reforma Política, Reforma Tributária, Política Comercial, Segurança Pública, Administração Pública, Reformas Sociais e Relações Industriais.

que quero dizer com isto, que nem sempre é o mesmo que eles querem? quais os contornos de um programa de governo que encaminhe reformas democráticas, reformas de cunho igualitarista? uma tentativa de resposta vai na seguinte listagem:


Administração Pública: forçar o cumprimento da lei do orçamento público (tornando-o universal), reduzir as “emendas” parlamentares à lei que deveria ser lei, criar mecanismos de zelo por seu cumprimento, reforma do poder judiciário, criação de mais mecanismos de controle de todas as instâncias da coisa pública, com certo exagero, até a criação do “Ministério da Corrupção”, que também poderia combater alguma coisa do próprio setor privado. Manter o orçamento equilibrado, usando déficits ou superávits fiscais (moderados) como instrumento de política contra-cíclica. Profissionalizar a administração pública, extinguindo os afamados “cargos em comissão”. Favorecer a mobilidade nacional dos funcionários públicos, mantendo um cadastro de reserva para eventualidades. Modernizar, modernizar, modernizar!

Agricultura: além dos programas de favorecimento aos pequenos agricultores, e ampliação por meio de uma reforma agrária e atração de agricultores sem terra para a Brigada Ambiental Mundial (serviços rurais, como uma verdadeira guarda-florestal) e favorecimento aos grandes agricultores!, sem esquecer os cuidados ambientais rurais.

Assistência Social: transformação do Programa Bolsa-Família em Renda Básica Universal a própria criação da Brigada Ambiental Mundial, o serviço municipal de que tanto falo, retirar toda a população moradora de rua de suas casas, ajolá-la em casas decentes, combinando com estes empregos decentes, dar-lhe acesso à educação, embalada no título de “empreendedorismo”, esperança de que muitos, no devido tempo, possam demitir-se da BAM e montar suas empresas, retendo apenas os estipêndios da renda básica universal. Políticas habitacionais e de contenção migratória para grandes cidades.

Educação: expandir ainda mais a quantidade, buscando melhorias localizadas na qualidade e criação de mecanismos de auto-propagação dos avanços qualitativos. Minha legenda de ‘três horas de aula por dia’ deve alcançar a todos, crianças e adultos que sejam identificados em situação de risco.
Infraestrutura: estradas, energia, transportes, água e saneamento, irrigação. Procurar o princípio da provisão para a maior parte das frentes de expansão nesta área. Buscar a criação de sindicatos de trabalhadores encarregados de montar a estrutura administrativa-gerencial destes novos empreendimentos. Criação de diferenciais de impostos para o transporte rodoviário de passageiro ou carga, aproximando seu custo privado do custo social.

Política Comercial: mudanças nas políticas de câmbio e juros, promoção das exportações, negociações bilaterais para orientar importações, encaminhando-se para transformar a economia brasileira em um sistema totalmente aberto.

Política Externa: não manter relações comerciais com países totalitários, requerer soberania para a Corte Internacional de Haia.

Previdência: estabelecer uma remuneração razoável a todos os aposentados, reduzindo a idade de ganho do benefício e financiando o gasto com verba do Tesouro Nacional, como complemento à renda básica universal. Não atrelar os proventos da aposentadoria a qualquer  indicador que venha a criar absurdos econômicos (e.g., o salário mínimo, uma percentagem da renda nacional ou o crescimento da inflação ou do PIB per capita).

Reforma Política: parlamentarismo, voto facultativo, voto distrital, financiamento público das campanhas, proibição de duas reeleições (ou seja, mandato, releição e aposentadoria). recall eleitoral. talvez seja boa ideia ter eleições de dois em dois anos para tudo, com apenas duas reeleições permitidas e abertura de espaço para os outros.

Reforma Tributária: dar-lhe o mais perene caráter igualitarista. Redução dos impostos indiretos apenas aos bens de demérito, expandir a arrecadação dos impostos diretos, como o imposto de renda, da riqueza e da herança.

Reformas Sociais: ampla gama de reformas sociais, modernizadoras dos costumes, colocando o Brasil ao lado de países mais avançados do mundo: aborto, drogas, estado laico, GLS, Hora do Brasil, ‘pronunciamientos’ de governantes. Criação de um Fundo Nacional de Desenvolvimento, em que todo o patrimônio público seja transformado num fundo de ações intransferível, pagando rendimentos diretamente a cada brasileiro que alcance a maioridade biológica, ou seja, 24 anos de idade. Com isto, “privatiza-se” a produção de “bens de mercado” e financia-se o que for necessário de um programa de renda básica universal.

Relações Industriais (alguns chamam de ‘trabalho’): incentivar o crescimento da produtividade do trabalho nas empresas, criando mecanismos de recolocação dos excedentes de mão-de-obra a serem alcançados na Brigada Ambiental Mundial, mudar a política de encargos sociais sobre a contratação de trabalhadores, talvez eliminando-a, o que poderia criar um choque benévolo de oferta, por meio da redução generalizada dos preços das mercadorias. Eliminar completamente o sindicalismo herdado dos anos 1930.

Saúde: aplicar o princípio da universalidade do orçamento, hierarquizando a abrangência dos tratamentos clínicos ou cirúrgicos (não fazer transplante cardíaco enquanto houver barriga dágua). Criação de salas de consumo para usuários de drogas, associando-lhes tratamento psiquiátrico e assistência social

Segurança Pública: revolução nas práticas da área, especialmente criando um programa de transição à legalização das drogas, e deslocando para a área da saúde o tratamento das crianças, criminosos e loucos que se dedicam a sua produção, comercialização e consumo. Expandir as experiências de privatização das prisões.

Reforma do Sistema Judiciário: além das questões da segurança pública, há outras fundamentais que transcendem as iniciativas rotineiras do poder executivo, mas que dele devem emanar: a proposta ao legislativo de mudança radical no sistema judiciário nacional. isto inicia-se, naturalmente, com a chamada à razão dos juízes que insistem em receber remunerações nababescas.
DdAB
post scriptum convencional: andei fazendo previsões ridiculamente falsas. quer ver? clique aqui.
Post Scriptum: tá aqui o primeiro discurso dela:
"Minhas amigas e meus amigos de todo o Brasil,

É imensa a minha alegria de estar aqui. Recebi hoje de milhões de brasileiras e brasileiros a missão mais importante de minha vida. Este fato, para além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade.

A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode!

Minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso, registro aqui outro compromisso com meu país:

- Valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz social.

- Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.

- Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto.

- Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados em nossa constituição.

- Zelarei, enfim, pela nossa Constituição, dever maior da presidência da República.

Nesta longa jornada que me trouxe aqui pude falar e visitar todas as nossas regiões. O que mais me deu esperanças foi a capacidade imensa do nosso povo, de agarrar uma oportunidade, por mais singela que seja, e com ela construir um mundo melhor para sua família. É simplesmente incrível a capacidade de criar e empreender do nosso povo. Por isso, reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras.

Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem.

Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte. A erradicação da miséria nos próximos anos é, assim, uma meta que assumo, mas para a qual peço humildemente o apoio de todos que possam ajudar o país no trabalho de superar esse abismo que ainda nos separa de ser uma nação desenvolvida.

O Brasil é uma terra generosa e sempre devolverá em dobro cada semente que for plantada com mão amorosa e olhar para o futuro. Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível.

Reconheço que teremos um duro trabalho para qualificar o nosso desenvolvimento econômico. Essa nova era de prosperidade criada pela genialidade do presidente Lula e pela força do povo e de nossos empreendedores encontra seu momento de maior potencial numa época em que a economia das grandes nações se encontra abalada.

No curto prazo, não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas.

Longe de dizer, com isso, que pretendamos fechar o país ao mundo. Muito ao contrário, continuaremos propugnando pela ampla abertura das relações comerciais e pelo fim do protecionismo dos países ricos, que impede as nações pobres de realizar plenamente suas vocações.

Mas é preciso reconhecer que teremos grandes responsabilidades num mundo que enfrenta ainda os efeitos de uma crise financeira de grandes proporções e que se socorre de mecanismos nem sempre adequados, nem sempre equilibrados, para a retomada do crescimento.

É preciso, no plano multilateral, estabelecer regras mais claras e mais cuidadosas para a retomada dos mercados de financiamento, limitando a alavancagem e a especulação desmedida, que aumentam a volatilidade dos capitais e das moedas. Atuaremos firmemente nos fóruns internacionais com este objetivo.

Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade. O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável.

Por isso, faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos serviços públicos. Mas recusamos as visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços essenciais à população e os necessários investimentos.

Sim, buscaremos o desenvolvimento de longo prazo, a taxas elevadas, social e ambientalmente sustentáveis. Para isso zelaremos pela poupança pública.

Zelaremos pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência do serviço público. Zelarei pelo aperfeiçoamento de todos os mecanismos que liberem a capacidade empreendedora de nosso empresariado e de nosso povo. Valorizarei o Micro Empreendedor Individual, para formalizar milhões de negócios individuais ou familiares, ampliarei os limites do Supersimples e construirei modernos mecanismos de aperfeiçoamento econômico, como fez nosso governo na construção civil, no setor elétrico, na lei de recuperação de empresas, entre outros.

As agências reguladoras terão todo respaldo para atuar com determinação e autonomia, voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade dos setores regulados.

Apresentaremos sempre com clareza nossos planos de ação governamental. Levaremos ao debate público as grandes questões nacionais. Trataremos sempre com transparência nossas metas, nossos resultados, nossas dificuldades.

Mas acima de tudo quero reafirmar nosso compromisso com a estabilidade da economia e das regras econômicas, dos contratos firmados e das conquistas estabelecidas.

Trataremos os recursos provenientes de nossas riquezas sempre com pensamento de longo prazo. Por isso trabalharei no Congresso pela aprovação do Fundo Social do Pré-Sal. Por meio dele queremos realizar muitos de nossos objetivos sociais.

Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança.

O Fundo Social é mecanismo de poupança de longo prazo, para apoiar as atuais e futuras gerações. Ele é o mais importante fruto do novo modelo que propusemos para a exploração do pré-sal, que reserva à Nação e ao povo a parcela mais importante dessas riquezas.

Definitivamente, não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só migalhas. Me comprometi nesta campanha com a qualificação da Educação e dos Serviços de Saúde. Me comprometi também com a melhoria da segurança pública. Com o combate às drogas que infelicitam nossas famílias.

Reafirmo aqui estes compromissos. Nomearei ministros e equipes de primeira qualidade para realizar esses objetivos. Mas acompanharei pessoalmente estas áreas capitais para o desenvolvimento de nosso povo.

A visão moderna do desenvolvimento econômico é aquela que valoriza o trabalhador e sua família, o cidadão e sua comunidade, oferecendo acesso a educação e saúde de qualidade. É aquela que convive com o meio ambiente sem agredi-lo e sem criar passivos maiores que as conquistas do próprio desenvolvimento.

Não pretendo me estender aqui, neste primeiro pronunciamento ao país, mas quero registrar que todos os compromissos que assumi, perseguirei de forma dedicada e carinhosa. Disse na campanha que os mais necessitados, as crianças, os jovens, as pessoas com deficiência, o trabalhador desempregado, o idoso teriam toda minha atenção. Reafirmo aqui este compromisso.

Fui eleita com uma coligação de dez partidos e com apoio de lideranças de vários outros partidos. Vou com eles construir um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país será o critério fundamental.

Vou valorizar os quadros profissionais da administração pública, independente de filiação partidária.

Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio.

A partir de minha posse serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política. Nosso país precisa ainda melhorar a conduta e a qualidade da política. Quero empenhar-me, junto com todos os partidos, numa reforma política que eleve os valores republicanos, avançando em nossa jovem democracia.

Ao mesmo tempo, afirmo com clareza que valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. Os órgãos de controle e de fiscalização trabalharão com meu respaldo, sem jamais perseguir adversários ou proteger amigos.

Deixei para o final os meus agradecimentos, pois quero destacá-los. Primeiro, ao povo que me dedicou seu apoio. Serei eternamente grata pela oportunidade única de servir ao meu país no seu mais alto posto. Prometo devolver em dobro todo o carinho recebido, em todos os lugares que passei.

Mas agradeço respeitosamente também aqueles que votaram no primeiro e no segundo turno em outros candidatos ou candidatas. Eles também fizeram valer a festa da democracia.

Agradeço as lideranças partidárias que me apoiaram e comandaram esta jornada, meus assessores, minhas equipes de trabalho e todos os que dedicaram meses inteiros a esse árduo trabalho. Agradeço a imprensa brasileira e estrangeira que aqui atua e cada um de seus profissionais pela cobertura do processo eleitoral.

Não nego a vocês que, por vezes, algumas das coisas difundidas me deixaram triste. Mas quem, como eu, lutou pela democracia e pelo direito de livre opinião arriscando a vida; quem, como eu e tantos outros que não estão mais entre nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade. Por isso, não carregarei nenhum ressentimento.

Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silencio das ditaduras. As criticas do jornalismo livre ajudam ao pais e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório.

Agradeço muito especialmente ao presidente Lula. Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda para a vida toda. Conviver durante todos estes anos com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu pais e por sua gente. A alegria que sinto pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida.

Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós. Baterei muito a sua porta e, tenho certeza, que a encontrarei sempre aberta. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade. A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado. Saberei consolidar e avançar sua obra.

Aprendi com ele que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados uma imensa força brota do nosso povo. Uma força que leva o país para frente e ajuda a vencer os maiores desafios.

Passada a eleição agora é hora de trabalho. Passado o debate de projetos agora é hora de união. União pela educação, união pelo desenvolvimento, união pelo país. Junto comigo foram eleitos novos governadores, deputados, senadores. Ao parabenizá-los, convido a todos, independente de cor partidária, para uma ação determinada pelo futuro de nosso país.

Sempre com a convicção de que a Nação Brasileira será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ela.

Muito obrigada."