terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Fim da Picada Chega ao Trânsito

 queridas senhoras e senhores:
não são poucas as pessoas que desaprovam minha pretérita iniciativa de pedir demissão irrevogável da condição de professor convencional de economia. menor número sabe que, secretamente, prossigo preocupado com as questões do ensino e do aprendizado do animal humano. por exemplo, agrada-me ajudar as pessoas a desenvolverem habilidades que as levem a contar o número de patas de um burro. e, mais ainda, contribuir para que estas entendam sutilezas do processo de medida, algo mais refinado do que a simples contagem. por exemplo, podemos medir o Quociente Intelectual do muar. no caso, contei no mínimo uma pata na efígie acima e nada apurei com relação a inteligência.

tudo isto, em minha modesta, porém escrita, opinião, justifica que eu poste mensagens, frequentemente, marcadas como "economia política". por ter decidido abandonar o ensino, passei a ter mais tempo para estudar a ciência bicentenária: preços e lucros, acres e mãos fazem dela a mais mensurável de todas as ciências sociais. bela frase, apenas não sei a autoria. pensava ser de Deirdre McCloskey (ainda no tempo de Donald), mas aparentemente ela não lembra e não pude rastrear todas as origens do ocorrido...

pode-se medir o Q.I., não é mesmo? ele obedece à escala intervalar, a mesma que nos ajuda a medir temperaturas. que têm estas duas medidas em comum? temperatura não tem zero absoluto, quando medida nas escalas "farenheit", "celsius" e assemelhadas. portanto, precisamos de uma equação afim à linear, voltada a permitir-nos fazer a correção. se bem lembro, F = -32 + 1,6 x C, não é isto? e podemos medir a correlação entre o Q. I. de um burro, digamos, por anos carregando livros, e o de governantes brasileiros, digamos, ganhando estipêndios milionários.

ocorrem-me como exemplo os atributos financeiros e intelectuais dos resolutivos do Conselho Nacional de Trânsito (CNT). pelo menos é o que me leva a "filosofar" a notícia da p.38 de Zero Hora de hoje. diz-se que os Centros de Formação de Condutores do Rio Grande do Sul (os que se viram envolvidos no caso de propinas e roubo de R$ 40 milhões há alguns meses) insurgiram-se contra a determinação do CNT de elevar a qualidade do ensino, comprovando-a por meio da aprovação de 60% dos candidatos à carteira nacional de habilitação para dirigir veículos automotores.

como sutilmente podemos entender, uma vez que burros não dirigem veículos, e -mesmo que o façam- estes não são "automotores", no sentido de serem "semoventes" (ou não o serem), os semoventes (muares) não serão capazes de portar carteirinhas de motorista (também servíveis como cédulas de identidade). não preciso ser um ás no processo dedutivo para entender que, uma vez que, por exemplo, o burro que ilustra a presente postagem está despido, não haverá bolso para ele carregar sua carteira e, com ela, talão de cheques, cartões de crédito e a discutida carteira de habilitação para dirigir veículos automotores.

por que eu abandonei o ensino ativo? por idade, por aposentadoria e por causa da fraude. sempre amei aguçar a curiosidade de jovens, dirigindo-me por formação para esgrimir situações para as quais a economia política tem algo a dizer. mas vi que a fraude levou a que a substantiva maioria dos racionais que frequentavam minhas aulas crescentemente preferiam "outros" aos assuntos que eu lhes agendava para reflexão. uma vez que eu usava a escala racional para avaliar conhecimentos, os casos de absoluto descaso pela reflexão e o estudo eram sinalizados com a nota "zero", o que se relacionava com a nulidade de proveito das respostas. por exemplo, um dia indaguei na aula de "Introdução à Teoria da Escolha Pública" ministrada a estudantes de direito: "por quem advogais?" e um burro respondeu: "a, e, i, o, u".

pensei em compensar esta situação com a ingestão de fortes bebidas alcoólicas 15min antes de cada aula.  com algum mescal, eu viajaria ao México, país do qual li no livro de mesmo nome de Érico Veríssimo que, pelo menos naquele tempo, ao cruzarmos por um burro nas estradas nacionais, deveríamos gritar "burro". agora, porém, que burros poderão ter carteiras de motorista, passarei a beber em silêncio cada vez que precisar tomar o caminho da rua.
DdAB

2 comentários:

maria da Paz Brasil disse...

Duilio, é impossível acompanhá-lo como eu gostaria. Fico um dia sem internet e quando chego aqui tem quatro inéditas...
I can't keep up with you!
MdPB

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

oi, Da Paz!
na verdade, na postagem de ontem, que intitulei de "Manifesto Pré-Eleitoral...", escrevi um desabafo eleitoral, pensando que poderias entender-me.
DdAB