sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Ricardianas, mas não apenas...

querido blog:
nem tudo burro é cordato, mas o que agora vemos é-lo (diria Jânio Quadros, típico político mato-grossense). e tem burros ultra-arrogantes, como David Ricardo, myself e milhares de outros. ou melhor, não era isto o que eu queria dizer. David Ricardo foi um dos maiores gênios do pensamento humano. ou seja, não o destaco apenas entre os economistas. ele, como poucos, tinha em mente a diferença clara entre o que hoje Cirne-Lima ensinou-me a chamar de realidade realmente real e mundo da realidade imaginada.

dentro deste último, meu R^i -por contraste ao R^3, encontra-se a percepção da realidade induzida pelos métodos científicos. Ricardo inventou estas coisas. claro que, pelo que sabemos, apenas para a ciência ecômica, configurando-se como um de seus founding fathers e figurando no panteão do pensamento econômico eternamente (ver Maurício Coutinho no livro "Técnicas de Pesquisa em Economia; transformando curiosidade em conhecimento").

pois bem, para Ricardo, o capitalismo do século XIX deixava ver que a melhor forma de modelar o dinamismo do sistema era pensar na distribuição funcional da renda, ou melhor do produto (e lá isto ele não sabia), ou seja, a distribuição que cabe a trabalhadores e os residual claimants, os capitalistas. claro que Marx e milhares de outros o seguiram, eu mesmo tendo repetido até aqui neste blog. no outro dia (há muitas e muitas luas atrás), Sérgio Monteiro me disse entender que o objeto da economia política é o estudo do processo decisório. "decisório ponto", pelo que bem entendi. então até podemos explicar o processo decisório de uma pedra ao tomar a liberdade de ser atraída por todos os demais corpos do Universo e, em particular, digamos, a cabeça de um político brasileiro (para não falar nas baixarias do Irã...; lá é linha dura e aqui falo apenas metaforicamente sobre punições físicas à ladroagem nacional). desta parte, vim a entender que podemos pensar que o processo decisório mais desafiante é mesmo, por antropocentrismo e outras razões relevantes, o humano.

e como ligar "estudo da distribuição do excedente entre capitalistas e trabalhadores" e "estudo do processo decisório das sociedades animais superiores"? não sei bem, mas acho que poderíamos argumentar na linha de que os meninos de rua (filhos bastardos da classe trabalhadora, ou melhor, do proletariado, ou melhor, dos rapazes sem bens, sem patrimônio) encontram-se onde estão em resposta a um processo de escolha coletiva (decisão coletiva, pois não?).

e aí começo a concluir. isto significa, para Ricardo, Marx e os atuais burros endeusadores da soberania absoluta do mercado para tomar todas as decisões relevantes para a vida social, e milhares de outros etc., o menino de rua merece manter esta condição, pois não tem nenhum recurso relevante de sua propriedade. ou seja, nada tem a vender que o mercado valorize de forma mais consentânea com nossos valores de três refeições diárias, escovação de dentes após elas, um banhozinho, cadernos, castigos, recompensas, esse troço todo que faz a alegria do pedagogo. mas não é apenas ele: o desempregado (seu pai?, avô?) também mostra-se incapaz de ver seus talentos reconhecidos pelo mercado e merece o oprópio econômico, isto é, um emprego precário ou simplesmente o nada. good for nothing, dizem lá nossos patrões.

e qual é a moral da história?

.a. que não devemos aceitar uma distribuição da renda baseada exclusivamente nos direitos de propriedade das instituições (famílias, governo, empresas nacionais/investmentos e empresas estrangeiras/exportações) sobre os fatores (ou seja, devemos pensar em donativos)

.b. que devemos pensar em nos organizarmos em torno do orçamento público para, por meio dele, exercermos com exação o processo de escolha pública!
DdAB
p.s.: tudo o que eu disse sobre falar mal antes de falar bem é anulado agora. nunca vi ninguém falar tão bem quanto David Coimbra na p.2 de Zero Hora de hoje! você não pode perder. tem que ler. abaixo o relativismo cultural, abaixo a burrice, por mais cordata que seja! Disse ele, entre milhares de pérolas: "A intocabilidade do corpo é o mais sagrado [de todos os direitos universais]."

3 comentários:

Daniel Simões Coelho disse...

Belo post...

passando aqui para lembrar do nosso dia, hahahaha

abraços

maria da Paz Brasil disse...

Aí, Duilio!
Gostei de tudo.
Tenho andado ocupadíssima!
Beijão
MdPB

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

ei, Daniel e Da Paz!
feliz dia do economista! nem sempre temos uma profissão cheia de ócio. certo estava Ricardo, que enriqueceu antes de começar a escrever...
DdAB