domingo, 29 de novembro de 2009

Leonardo e as Borboletas

querido Blog:
no maravilhoso fim-de-semana que ainda está longe de acabar, já ouvi "boa-noite" no telefonema de um teletáxi. pensei que pudesse ser alguém da Estrada de Caxangá, pois por lá deve ser noite. pensei em colocar a foto dos dois dedos tangenciando-se. pensei em Leonardo, na água e o tempo como um eterno fluir, dele e de antes dele. pensei que vou para o Parque Marinha do Brasil caminhar. prá frente é que se anda.
DdAB

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Dimensões Superiores

Querido Blog:
Sob o título desta postagem, achei, sem muito esforço, esta foto maravilhosa no Google Images. Também havia opções de roupas de "tamanho especial". Fiquei com as quatro dimensões, os quatro universos que vemos colados, por assim dizer, umbilicalmente. Pensando bem, eu poderia tentar adivinhar quem é quem, pois parecem-me preliminarmente figuras públicas.

Se entendi o que um menino de rua falou-me no outro dia, não poderemos cingir nossa compreensão do universo às estritas dimensões espaço-tempo e matéria-energia. Haverá, segundo ele, baseado no livro Flatland, com o Sr. A. Square, dimensões inferiores (no caso, o mundo plano do qual o Sr. Square foi resgatado e novamente restituído). E também dimensões superiores. Caso considerássemos cada ser humano uma dimensão, já teríamos 6 bilhões delas. Caso considerássemos que cada neurônio desses 6 bilhões, já nem saberíamos calcular, pois -seguiu o esmoler- as estimativas presentes do número dessas células na população é absolutamente incalculável, pois uns dizem que haverá -diria ZH- entre 10 e 100 bilhões de neurônios por cada.

As quatro dimensões -prosseguria o exemplar jornal- seriam encapsuladas pela famosa equação
E = m x c^2, onde E é o conteúdo de energia de um ente tridimensional, se me expresso bem, m é sua massa e c é a velocidade da luz. Usando um quadro negro que pendia de um cinamomo à beira do Arroio Dilúvio, o menino desdobrou E:
E = m x (d/t)^2, onde, adicionalmente, d é a distância e t é o tempo. Triunfante, ele disse: esta festejada equaçãozinha, que tanto agradaria neguinhos do porte de Leibnitz e Einstein ("Deus não joga dados", teria dito o segundo) tem lá seus severos limites. Por exemplo, os buracos negros não lhe dão qualquer sobrevida. Ela -equaçãozinha- passa a assumir na física moderna o mesmo papel que a equação da gravitação universal assumiu na física clássica.

Não pude conter minha estupefação: meninos de rua sabidíssimos. Mas ele não se conteve e citou dois autores que muito me agradam: Isaac Azimov e Richard Dawkins. O primeiro -teria dito o menino de rua objeto de meu relato- especulou que aquilo que chamamos de "universo conhecido" seria uma vesícula dentro de um buraco negro que -como tal- abarca tudo o que conhecemos, inclusive os milhões de buracos negros já catalogados ou especulados.

Dawkins, que ainda não passei das primeiras páginas, falou em "baby universes". Mas como estou lendo o livro em português, falha-me a memória, pois seria traduzido como "universos nascentes". E o termo que aprendi lendo o velho livro de Stonier & Hague (que eu ia jogar no lixo, mas o Prof. Sanson impediu-me e voltei a lê-lo com proveito) aplica-se: miríades de universos. Ou, como me veio das leituras de science fiction, "universos como grãos de areia".

Não quero especular excessivamente, mas nada nos impediria de dizer -seguindo o Prof. Harvey Leibenstein, e sua X-efficiency- que teremos uma dimensão X. E, claro, X será um vetor com bilhões de elementos, cada um com bilhões de elementos ad infinitum. Nunca o latim terá sido tão bem usado como neste caso. Não acaba nunca. Nunca de núncaras. O que é difícil de incorporarmos com proveito neste tipo de modelagem -a não ser sob o ponto de vista de uma chamada axiológica desnecessária- é o conceito de deuses, um ou mais deles. Claro que o vetor X poderia ser chamado de Deus, mas -claro- Deus, conforme conceptualizado pela tradição religiosa terráquea, também envolve E = m x c^2, ou seja, tudo o que conhecemos, inclusive contendo-se a si mesmo. O Aleph, de Jorge Luis Borges. A apoiese, algo que não foi criado, mas existe e não cessará de existir.

Mas a anti-matéria não fará tudo deixar de existir. Ou pelo menos foi isto que me disse o menino de rua. Mas quem confiará nele?

Pelo sim, pelo não, entendi que ele estava concluindo o assunto falando em economia política, na teoria do valor e no que ele -da mesma forma que eu- considera uma burrada dos economistas clássicos, nomeadamente, o entendimento completo do chamado problema da transformação dos valores em preços. Dias atrás, eu dissera aos Profs. Joal e Adalmir que o conceito de valor adicionado apenas faz sentido numa "economia de granja", definida como uma economia que produz apenas um bem. Ergo, pensávamos o menino e myself, se eu planto 50t de trigo e colho, digamos 1.000t do cereal, então o valor adicionado foi de 950t, não é isto?

Aí ele me disse (creio que soprou-lhe esta passagem o Prof. Horn): "meu chapa, trigo no ano passado não pode ser somado com trigo neste ano." Pensei diretamente na taxa de juros, mas não é apenas isto. As 1.000t de trigo colhidas -eu direi sem medo de errar- não têm absolutamente nada a ver com as 50t plantadas. Expandindo a metáfora para o mundo dos bebestíveis -e não mais dos comestíveis-, trata-se de vinhos de duas pipas. Ele -menino de rua- não precisou dizer, pois eu já intuía: o valor adicionado é um conceito que apenas pode ser pensado como quantidade monetária, no sentido de Leontief, mesmo para uma economia de granja. Segue-se que quem determina o nível de preços absoluto é a oferta de moeda. E que o salvador da humanidade é o presidente do banco central mundial. Tu entendeu?
DdAB

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

La Maison e Le Corbusier

Querido Blog:
O natal aproxima-se celeremente, acercando-se de nós à taxa de 24h diárias. A falta de assunto por esta época do ano é proverbial. Eu mesmo vejo-me perplexo com tanta perplexidade que a política, as artes e -worse of all- o Grêmio causaram-me durante os mais de 300 dias em que me mantive respirando.

Por falar em assunto, ocorreram-me frases que rendem assuntos:
.a. la maison est une machine à vivre: Le Corbusier
.b. é mais fácil fazer um arranha-céu do que uma boa cadeira - Mies van der Roe.

No outro dia, indaguei-me: por que os meninos de rua não ganham da Prefeitura Municipal de Porto Alegre cadeiras para sentarem-se à rua? Ou, pelo menos, cadeiras nas salas de aula e salas de assistência social, ou onde quer que seja, exceto na rua da amargura, onde estão condenados a viver pelas próximas 24 horas e milhares de outras, a partir de amanhã. E por que, já que estamos no assunto, não lhes dar casas, essas fascinantes máquinas de viver de que nos falou o velho Le Corbusier.

Nesse mesmo dia (o outro e não aquele ou este, esse etc.) o avô de um menino de rua, com seus 22-23 anos de idade (ou seja, um senhor de rua, pai de uma garota de 15 que portava um pivete -como ouvi de um político- de seus seis ou sete, quase atropelado por uma Rural Willis, pois -dizia eu- o avô dessa singela garotinha disse-me:

Eu sou infinito porque faço parte do universo, que é infinito (atemporal). Quando eu morrer, tudo o que fui e serei estará plantado para sempre no universo, pois sou apenas um subconjunto cambiante. Se houver seres de diensões superiores, quererei juntar-me a eles e não regredir a duas dimensões, como na história de Abbott [Flatland]. Eu quero a companhia de meus amados que se foram. E dos que eles amaram. E dos que estes amarão. Em resumo, a morte é mais inevitável do que viver debaixo da ponte das Avenidas Ipiranga e Cristiano Fischer.

Pensei se isto não seria dito apenas da boca para fora, um golpe que lhe permitisse ober uns trocados.
DdAB

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Erreiros

Querido Blog:
Eu sempre disse, desde que aprendi nas propagandas da Editora Civilização Brasileira, que "quem não lê mal ouve, mal fala, mal vê". Cada vez mais vejo que nada me faz ouvir melhor do que a leitura, se é que esta frase faz orgulho a Zero Hora, la Herrera e os erreiros. Catarina Herrera: por pura googlada, cheguei a ela. Descortina-se outro mundo, muito menos sisudo do que o que me leva às ingênuas postagens que faço sob os cândidos títulos de

Escritos
Economia Política (R^3 e R^i)
Lixo Urbano (ainda em fase de maturação precavida)
Vida Pessoal
.

Hoje li Zero Hora e nada achei que me entusiasmasse a postar o que quer que fosse para lembrar que penso no mundo todo santo dia. Daí uma de minhas legendas:

quem faz ginástica todo dia não precisa fazer ginástica todo santo dia.

DdAB

Twitter: Eppur si muove, como disse meu conterrâneo Galileu Galilei. De minha parte, fiz o exame de conhecimentos trânsfugas, ou o que seja, para renovar minha carteira de motorista. Tive um desempenho extraordinário, para os padrões que defini há dias. Cheguei a intuir que alguns candidatos viram com candura a alegria que me colheu quando percebi que não apenas fui aprovado com distinção, mas principalmente não demorei excessivamente até ter um táxi parado sob minhas ordens, com o objetivo de levar-me de volta a casa.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Brasil, 1 x Combinado Israel & Palestina, 1

Querido Blog:Era preciso que um poeta brasileiro,
não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,
girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver
como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,
era preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde nem sempre se usa gravata mas todos são extremamente polidos
e a opressão é destestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,

era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,

viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para dizer-te algumas coisas, sob color de poema.


Disse eu? Era ele! Era Drummond, era Lula e seu joguinho de futebol da seleção canarinha e o combinado Israel e Palestina. Era poeta, engoliu passarinho, como disse o goleiro Manga. Era Lula. Era ladrão, não interessa. Nem a visita do presidente do Irã empana estas iniciativas. Trapalhão por trapalhão, Lula também -diria Renato Aragão- dá suas cacetadas. Agora, sublime, sublime mesmo é -rortianamente- conseguir que essa macacada pense que é séria e comece a agir seriamente.
DdAB

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Chuvas By the Air

Querido Blog:Este é um momento histórico. Enquanto eu ouvia Luciana Santos, no disco "Tide", trabalhava na tricentésima postagem deste blog. Houve outros. Um dia, calculo quantas postagens fiz e farei até 31/12/2047, ano de meu centenário de nascimento.

Também busquei outra comemoração de 300 unidades. Vejamos:
Bem mais atraente do que as belicosidades que me ofereceu em primeiro plano o Google Images. Almanaque Disney a R$ 3,50? Eram tempos do novo dinheiro brasileiro que, altaneiro, fecha seus 15 aninhos de diferença. Juro que, sem mesmo olhar, a inflação foi de mais de 100%, ou seja, este livreto tão sublime deve custar hoje R$ 10,00, ou não me chamo Abujamra Fagundes.

Por outro lado, a capa de Zero Hora de hoje segue festejando os desmandos celestes sobre o Rio Grande do Sul, com chuvas desgarradas. Dizque em uma cidadezinha destas há uma população de 600 pessoas sitiadas, incomunicáveis, a menos que sejam acessadas (ou era acsessadas?) por meio de aviões ou barcos. Pensei: ribeirinhos? intralacustres? Não houvesse políticos -e lá vêm redundâncias- ladrões, teríamos vias hídricas fazendo o vai-vem das mercadorias o tempo inteiro. Nas estradas de rodagem, haveria um imposto tão pesado que o próprio Tio Patinhas iria benzer-se e fazer seus caminhões abarrotados de dinheiro buscarem rotas (hídricas) alternativas, evadindo-se, claro, das rotas transversais dos Srs. Irmãos Metralha.
Nâo sei se estou sendo claro: via aérea, apenas devemos consumir a www.accuradio.com, que toca, para orgulho pátrio os LPs da Sra. Luciana Souza. Via hídrica é que deveriam seguir as ajudas que têm chegado de helicóptero às populações desvalidas e desabrigadas pelas mais recentes incursões do clube da baixaria sobre o estado governado por ladrões (como, de resto, todos os estados e países governados por políticos).
DdAB

sábado, 21 de novembro de 2009

Sociedade Autoritária

querido Blog:
na sociedade autoritária, será que aqueles dois sequazes, digo, rapazes usando "golden gates" podem consideerar-se felizes? será feliz quem com seu par priva dos anos de vida que lhe restam cumprir sobre a terra?

Ispirando por MdPB, decidi ampliar a lista, que -otherwise- já está espalhada por este mais de ano e quase 300 postagens apenas nesta conta. Da primeira -no UOL- retirei o texto "Beliefs e Desires", que usei no curso de micro que dei no mestrado da PUCRS.

Vejamos:
.a. voto voluntário
.b. serviço militar voluntário
.c. Brazilians: fim da Voz do Brasil, fim do sindicalismo, fim do governo (sindicato de ladrões)
.d. orçamento público e universal
.e. definir que governo e oposição são governo
.f. definir que "estados" e "judiciário" são supérfluos
.g. querelas se resolvem em enquetes na internete em tempo realete
.h. admitir três instâncias de agregação de preferências: mercado, estado e comunidade
.i. exigir que a unidade de execução do orçamento-gasto deve ser territorializada, ou seja, estado e federação não gastam no município, mas haverá projetos intramunicipais que requererão agente de coordenação da ação coletiva, tudo nos conformes
.h. tira o poder judiciário e joga no lugar dele a polícia judiciária.
Gostou e -como tal- vale a pena melhorar? Ou desgostou e, como tal, vamos melhorar?

O problema é, como alertou-me a avó de um amigo meu, é que um troço destes pode descambar facilmente para a criação de 'comitês de defesa da revolução". E aí, babaus democracia.
DdAB

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O Jacaré Caroneiro e a Criança

querido Blog:
o que de mais achei parecido com o que me vai n'alma é a apóstrofe na alma. seja como for, a paralaxe pertiu ao gato ver-se leão e ao espelho fazer-se animal. por contraste, a figura da criança, de modo análogo à pomba da paz, é repleta de alegorias: a candura, a pureza, o porvir. Ainda que haja crianças estressadsa, impuras e que não pensam no futuro, a criança cordial, influenciável e forjadora do futuro é a representação da virtude.

associar a democracia brasileira a uma criança traz à luz todos esses atributros. ela precisa desenvolver-se para florescer, educar-se para sentir o que as aparêcias escondem e amputar seus própros vícios e fraquezas.

enquanto construto social, a democracia é uam espécie de média (harmônica e ponderada) das qualidades dos indivíduos que constituem a nação sobre a qual ela assenta. em sendo média, a estatística sugre qu há indivíduos mais virtuosos e outros, menos. os mais virtuosos contribuem para sua consolidação e mesmo para sua destruição. esta proposição invfelizmente também vale para o grupo menos virtuoso. sua ação destruidora da democracia, aparentemente, um mal em si, deve ser reciclada pelo grupop virtuoso, através da criação de salvaguardas à manutenção da sanidade social.

em 1889, passou-se a falar na res-publicana Brasil (na verdade, Estados Unidos do Brazil). exterminada a monarquia, alguns golpes intestinos chegaram a reduzir-lhe o grau. por isto, mesmo, pode-se começar a pensar ese período como de ciclos entre democracia e ditadura, froixidão e mão-de-ferro. oficialmente, uma ditadura civil e outra militar. do fim da civil, experimento democrátivo durou menos de 20 anos. a ditadura militar um quarto de século se considerarmos que José Sarney, além de ter sido eleito vice de uma chapa de eleição indireta legada pela ditadura militar, não foi empossado, pois o cargo de presidente da república não vagou. logo, Sarney caiu no governo como um maranhense, no sentido dos descalabros que o dicionário dá ao termo. depois Sarney chegou a pensar em plantar sua própria ditadura. dois dois anos que, se Tancredo tivesse assumido e morrido, lhe caberiam, ele achou-se credenciado a quatro, mudando para cinco, que foram os anos que lhe mantiveram no poder a gula.

faltou e ainda falta uma agenda de implantação de um verdadeiro projeto nacional. volta e meia, faço listas:
.a. educação-segurança
.b. assistência social e previdenciária
.c. corrupção e coisas comuns
.d. voto universal, facultativo e secreto
.e. sindocatos não corporativos
e por aí vai.
DdAB

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Droga Secular


Querido Blog:
Tinha na Zero Hora de 18/nov/2009, p.17 o artigo "O mal do século", de Walter Luiz Ferreira. Para este nome e sobrenome, há 35 mil entradas no Google Documents e 112 no Google Images. Entre as 112, achei esta do pingue-pongue. Achei que valeria a pena buscar algumas idéias do autor, declarado "técnico de segurança", deixando de lado coloquialidades que perpassam alguns de seus argumentos. Vou citar algumas passagens e comentar.

Primeira:

"...] o usuário de drogas é um dos principais responsáveis por toda a violência que assola o nosso país."

DdAB: pensei que o portador de sífilis também era o principal responsável pelas mortes e transmissão da doença do século XX. Um vilão, em outras palavras. Ainda bem que WLF não considera que o pai ou mãe do usuário, ou sua professora de "Organização Moral e Cívica" é que devem assumir a responsabilidade. O modelo de "incriminar a vítuma" já foi banido de qualquer tentativa séria de equacionar problemas de saúde pública. Mas a visão de WLF é apenas uma visão policialesca, despida de qualquer compaixão pelo doente. Dizer que o portador de câncer no pulmão é um vilão, pois envenenou-se durantes anos e anos é um crime que condenou ao opróbio alguns indivíduos voltados a problematizar questões de saúde pública. Resumo: devemos preparar-nos para o pior com o restante da leitura do artigo.

Segunda:

"Não existindo o usuário, não existiria o produtor, o fornecedor, o transportador e nem mesmo o vendedor."

DdAB: claro, da mesma forma, se não existisse streptococcus mutans, não haveria cárie dentária. Mutatis mutandis, não teríamos nem acidentes de carro, nem tuberculose, nem obesidade, nem nada. Mas acautelemo-nos, se não existissem problemas de segurança pública, tampouco teríamos técnicos em segurança pública, não é mesmo? De modo tristemente análogo, se não houvesse problemas econômicos, muitos de nós (disfarça e olha...) não teríamos ganho a vida ensinando estas drágeas da chamada ciência econômica.

Terceira:

"[...] descriminar o usuário e legalizar as drogas [provocará] danos de dimensões incalculáveis a toda a sociedade brasileira."

DdAB: parece que ele está coberto de razão. De modo análogo, estará coberto de razão quem diz -como o faço- que manter a atual política relativamente ao problema das drogas é uma droga. Primeiro, porque provocou e provoca danos de dimensões incalculáveis em toda a sociedade brasileira, por exemplo, o filho que matou o pai, a mãe que matou o filho, o avô que acorrentou o neto, o neto que arrancou a porta da casa e vendeu para pagar seu fornecedor de crack. E esse negócio de "incalculáveis"? Claro que o dano da legalização e o dano da criminalização podem ser calculados, com a mesma margem de erro concebível para milhares de outras aplicações da análise de custo-benefício. Frase retórica de WLF. Mas o ponto a salientar é que seu raciocínio simplifica o problema ao sequer cogitar de um pinguinho em idéias de avaliação do prejuízo social provocado pela atual política.

Quarta:

"[...] nossos legisladores e governantes deveriam fazer [...] leis realmente severas para inibir novos usuários. [...]. Se no Brasil a pena de morte fosse atribuída aos traficantes de drogas, como acontece em vários países, com certeza a circulação e o acesso a elas seriam dificultados [...]."

DdAB: rapaz! defender a pena de morte é indício de uma formação moral e intelectual que culmina pela defesa de soluções radicais para problemas humanos, sem clemência, sem qualquer abertura de margem de dúvida para a possibilidade de erro judiciário. Eu não preciso dizer muito mais do que citar Chico Buarque, mutatis mutandis: quem inventou o pecado deveria também preocupar-se em inventar o perdão. E o princípio da gradação das penas? Não ficaria bem apenas termos a prisão perpétua para o condenado e declarado culpado sem margem de dúvida? Se, depois de 45 anos de xilindró, surge nova evidência de que neguinho era inocente, ainda dá para libertar neguinho e não tentar procedimentos de exumação, que seriam um tanto inócuos, caso ele já tivesse recebido o gás, por assim dizer, hilariante... Mas não deixemos de comentar uma das bases da argumentação de WLF: vários países atribuem a pena de morte a traficantes. Posso assegurar que a pena de morte vigora em pouquíssimos países decentes. Nenhum da Comunidade Européia, poucos estados americanos. Então interessaria sabermos quais são os países que compõem variedade registrada pelo articulista.

Quinta:

"Nos últimos tempos, temos visto toda a violência advinda das drogas se propagar assustadoramente para todos os recantos do país, deixando rastros de destruição de famílias e lares por toda parte."

DdAB: é, temos visto mesmo, ou seja, a proposição é verdadeira, sô. Disto não segue que a pena de morte para traficantes ou que a dificuldade em algumas pessoas trabalharem com conceitos elementares de escolha pública (escolha e o trio crianças, criminosos e loucos) ou que seja mentira que as drogas legais e ilegais já destruiram famílias e lares, que essas três situações, enfim, pudessem reduzir em um átomo a severidade do problema das drogas. Argumento mal ajambrado para o tema destacado por, não posso calar, Zero Herra. Não é demais insistir que é precisamente a tentativa de evitar a ruína no bingo, no crack, na cachaçaria que requerem um tratamento baseado em premissas de saúde pública e não em segurança pública. A segurança pública deve assumir seu papel, qual seja, o de dar segurança, ao passo que a saúde pública deve dar saúde. Não é inconcebível que um viciado em crack, submetido a tratamento psiquiátrico e assistência social possa ter recidivas controladas e tornadas inócuas sob o ponto de vista do marco da porta de sua casa ou da qualidade de vida de sua mamãe assassinada. Ainda bem que não sou dono de bingo, pois esse consultor de segurança já poderia querer expandir a pena de morte para a negadinha que vicia a negadinha...

Quarto: primeiro, vou fazer o comentário:

DdAB: nunca devemos esquecer que há um trio que não deve ser autorizado a tomar decisões amplas sobre circunstâncias de sua vida: crianças, criminosos e loucos. OK, agora a mais cabal prova de despreparo de WLF para tratar de problemas de segurança pública:

"Não acredito sinceramente que nos dias de hoje a desinformação e a falta de cultura possam ser aceitas como desculpas para tantas pessoas se tornarem dependentes químicas, já que em todos os setores da sociedade, desde as pessoas mais cultas até as sem cultura alguma, os usuários existem e aos montes. Destarte, trata-se de opção de vida de cada um e não de doença como querem apregoar!"

DdAB II: é, não posso calar outro comentário: e se ele acreditasse, qual seria o problema? nada mudaria, dependendo das crenças do autor, exceto que não ficaríamos sabendo como há indivíduos incapacitados a exercerem determinadas profissões. Crianças, criminosos e loucos. Eu estou falando em loucos, os das drogas, os das análises retóricas metamorfoseadas em argumentação "técnica".

DdAB III: qual seria a qualidade técnica de um técnico em segurança para afiançar sem a menor sombra de dúvida que a dependência química resulta de uma "opção de vida", do mesmo porte da de ser economista ou de escolher entre sorvete de creme e férias em Veneza? Eu acho que ele não sabe do que está falando.

Concluo: por um lado, devemos procurar uma visão generosa da natureza humana, tentando combater a doença e não o doente. Por outro lado, o problema é mais severo: se queremos tratar o assunto com as facilidades que a ciência social contemporânea nos oferece, deveremos pensar racionalmente. Quer dizer: definir exatamente qual é o objetivo (acabar com os malefícios provocados pelo consumo de drogas) e erigir a melhor estrutura de incentivos para chegar a ele. Claro que em "estrutura de incentivos", há recompensas e punições. Eu acho que devemos acenar com recompensas para neguinho submetido às correntes do consumo compulsivo: puni-lo com a criação de mecanismos que o libertem.
DdAB

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Theatro São Pedhro e a Ladroagem

Querido Blog:
No sábado passado, li mais uma interessante coluna de Cláudio Moreno no Caderno Cultura de Zero Hora. Fiquei viajando sobre a incorporação na língua vernácula de palavras originalmente em outra língua vernácula, um troço assim. Por exemplo, ele falava que a palavra "mousse", do francês, está incorporada, ainda não se sabendo em definitivo se o falante escolherá atribuir-lhe o gênero masculino ou feminino. Eu mesmo já comi uma musse espetacular e outro musse de cair o queixo.

Outro dia, na revista dos professores da PUCRS, li um artigo de uma professora defendendo o uso de estrangeirismos, se é que todos usam... Ela não queixava-se, mas eu o faço, do deputado (desocupado?) Aldo Ribeiro, do PCdoB, que odeia os estrangeirismos. Ela disse, de um possível diálogo, sobre o paradeiro de Beltrano, um presumido namorado:
-Fulana, como está o Beltrano?
-Deletei.
Não é charmoso? Não, talvez, para o próprio objeto direto da conversa.

O deputado Aldo diria: "Mandei-o para a Sibéria", pois seguem sendo albanistas e stalinistas, um troço assim.

No mesmo sábado, voltei a queixar-me da desfaçatez dessa negadinha que fica mudando as regras ortográficas. Meu ouvinte tornou-se falante: "Me too", em visível provocação aos que odeiam anglicismos, galicismos, mas não o estalinismo... E hoje, preocupado em comprar ingressos para um festival de dança no Teatro São Pedro, vi que mal escrevi: o nome do bichinho é "Pedro", mas o prenome do santo é "Theatro". Então pensei: que dirá o Sr. Google Images sobre "são pedhro". Nada disse. Apenas "pedhro", quase nada, mas há blogs. Creio poder tratar-se de um termo em língua estrangeira, um estrangeirismo made in Índia ou alhures. Agora, entre nós, alhures é casca! Logo, decidi começar a chamar o concorrido teatro de "Teathro São Pedhro", como sugere o título desta postagem, pois roubaram-lhe a ele, a nós, à Baía de São Salvador, e a tudo o mais os milhares de livros que já foram para o opróbio porque o Sr. Evanildo Bechara e seus sequazes gostam de enviar a mão no bolso do povo.

De minha parte, fiquei viajando com este "delete" e "deletar", primeira conjugação. De modo análogo, supus que Moreno esteja implicando que a tendência geral, evidentemente vasada de exceções, é incorporarmos os substantivos encaçapando-os no gênero masculino. E a viagem 2 foi pensar que "to access" está incorporado como "acessar", mas um dia escrevi: "assessar", rimando com "assessorar", por contraste ao outro dia em que escrevi "acessar", rimando com "aceder". E "vasado" é "vazado"? Nunca lembro.

Ainda assim, o povo gosta de estrangeirismos e os utiliza como bem quer. A efígie de hoje lembra um chimango:

Nâo é passo de bicho estrangeiro
De girafa ou canguru
O chimango é brasileiro
Brasileiro prá chuchu.

Ou não é?
DdAB

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Vida Social em Porto Alegre ou elsewhere

também quero ser classe média:
carta capital
mino carta
:: falta-me habilidade para tratar do tema adequadamente
:: falta-me humildade para declinar de fazê-lo

O Homem Sabe

querido blog:
há quase um mês, li o seguinte aforismo: "o homem que não sabe que vai morrer é tão idiota quanto o que despende a vida a angustiar-se com isto". a poeta disse "el tiempo pasa y nos vamos poniendo viejos". eu criara o primeiro teorema da idade: "nunca fui tão velho como hoje".
DdAB

domingo, 15 de novembro de 2009

Filosofia Política do Emprego

Querido Blog:
Na página 3 do caderno "Dinheiro" de Zero Hora de hoje, lemos Paul Krugman:

"[...] a filosofia por trás da política de emprego pode ser resumida como 'se você crescer, eles virão. É isso. Não temos uma política para empregos. Temos uma política para o PIB."

Claro que Krugman quer uma política para os empregos. Claro que eu quero uma politica para a ocupação, pois ninguém quer emprego, todo mundo quer renda. Empregos devem render spectacula awards, por contraste às remunerações associadas à renda básica universal e aos estipêndios dos soldados -por asssim chamar- da Brigada Ambiental Mundial, uma organização preocupada com a ocupação da mão-de-obra, voltando-a à promoção de cuidados pessoais e ambientais. Na Brigada Ambiental Mundial, neguinho despenderá o tempo com:
.1. três horas de ginástica por dia (para manter a coluna ereta)
.2. três horas de aula por dia (para manter a mente quieta)
.3. três horas de trabalho comunitário por dia (para manter o coração tranquilo).
DdAB

sábado, 14 de novembro de 2009

Prolatando Chutes

Querido Blog:O blog do amigo do amigo do amigo etc. levou-me, mais uma vez, ao blog Chutando a Lata e a postagem comentando uma entrevista de Samuel Pessoa, um economista da FGV. Eu comecei um comentário que mostrou-se, logo aos primeiros toques, enorme. Mudei de idéia e decidi fazer, por aqui, uma postagem longa. Mas meu comentário lá remeterá para cá. Entre Seca e Meca, diriam Sêneca e Mégalo, algo assim. Segue-se um decálogo de 11 itens, pois o primeiro, fora da contagem posterior, dirige-se à tabela acima, que inventei há poucos instantes.

A moral da história que quero instilar com os dados de minha tabela é simples: quem mais investe está melhor do que quem menos investe. Se uma -diriam Samuel Bowles e sua turma- social structure of accumulation permite shares do investimento no PIB de 30% como chegou o Japão, 35%, como vemos pela Coréia e os 50% chineses, melhor para os chineses. Meus números não são, você já notou, do Japão, Coréia e China, mas estilizações. Inventei uma história de que os três países dobram o PIB a cada 10 anos, logo, em 30 anos, todos octuplicaram. Mas o investimento se mantém constante como share do PIB. Vemos um blim-blim-blim interessante na evolução da relação capital/produto em 30 períodos, ou seja, vemos promessas de mudanças nas funções de produção das economias que investem mais do que as outras. Minha simulação, com o Excel e 100 anos dá uma supremacia aos chineses: 4,48, 5,22 e 7,46. Antes de partir para a galhofa para cima dos chineses, deixa-me dizer que até agora não escrevi a palavra "poupança". De fato, considero-a irrelevante para o tratamento do tema, como tenho argumentado aqui milhares de vezes e elaborarei no decálogo abaixo. Com 60 milhões de membros no Partido Comunista Chinês, não há como negar que o negócio de emissão de carteirinhas de sócio, explorado capitalisticamente, é quase tão maravilhoso quanto o de vender ao governo os recibinhos de que o cidadão brasileiro está em dia com suas "obrigações eleitorais". Traço biográfico: eu não queria ser chinês, nem ser obrigado a votar no Brasil.

primeiro (verdadeiro). entendo que os substantivos "poupança" e "investimento", escapando da linguagem corrente consignada no Sr. Aurelião de R$ 3,00, assumiram significado técnico específico e restritíssimo. creio que todos nós -economistas- os incorporamos, no sentido de que, pelo menos, eles vêm sendo empregados na obra de John Maynard Keynes, James Meade e Richard Stone. e é neste contexto que pretendo alongar-me, se tiver companhia. a certa altura, serei incapaz de diferenciar o que é meu e o que é dos autores que mencionarei. tampouco acalentarei a esperança de esconder minha modéstia aqui e o salto alto acolá.

segundo. sem Keynes, Wassili Leontief, e Meade, talvez Stone não recebesse o epíteto que -talvez solitariamente- lhe atribuo de maior economista de todos os tempos. sem eles, Stone não teria inventado a matriz de contabilidade social - MaCS que inspira a visão que começo a expor assim que citar outros inspiradores de minha visão sobre o tema: os clássicos, Marx, Walras e os estruturalistas latino-americanos (Anibal Pinto e Madame Tavares).

terceiro. o bem-estar material de uma sociedade mede-se com o valor da produção (V) cuja criação é descrita por meio de uma função de produção tal como
V = f(L),
em que L é um vetor encapsulando variáveis como trabalho, capital físico, capital humano, capital social, insumos energéticos, insumos outros etc.. quando queremos medir o grau de eficiência com que os recursos são utilizados pela sociedade, devemos abandonar V, construindo uma variável que apenas existe no mundo das idéias: o valor adicionado v. apenas na granja, v tem existência física: produção medida em sacos de cereal frutificando em sacos de cereal (e o cereal tem que ser apenas arroz, ou trigo, ou milho, sei lá, nunca ambos os três...). ou seja, agregar um saco de milho com um porco é mágica alheia às três dimensões do planeta em que ora vejo-me encarnado. acho que Meade e Stone (mas já vi atribuição a Ragnar Fritsch) inventaram (no sentido que -em gauchês- damos a "campear") de inspirar-se nos mercantilistas, fisiocratas e clássicos para proclamar que o valor adicionado tem três óticas de cálculo. se a distância que nos separa tem duas óticas de cálculo (a tua e a minha), não devemos surpreendermos que haja coisas que terão duas ou mais óticas de cálculo. Polifemo é que tinha lá apenas uma... chega de piadinhas: o valor adicionado pode ser medido pela ótica do produto, pela ótica da renda e pela ótica da despesa. a FGV sabe isto desde sempre, mas juro que sabe no "manual das contas nacionais" (livro branco) lá de 1972, ou algo parecido.

quarto. o investimento é uma fração do valor adicionado (conceito artificial) apenas no caso em que decidirmos medi-lo pela ótica da despesa, o que o faz duplamente artificial, não é isto? ou seja, estamos falando a "absorção" (termo técnico que estou tentando inventar) da fração do valor adicionado que chamamos de investimento. se falarmos na ótica produto, somos proibidos -tomara- por Stone de falar em investimento, pois "produto" avalia a "geração" do valor adicionado e não sua "absorção". o produto mede a distribuição primária do valor adicionado, ou seja, a distribuição entre salários, lucros e impostos indiretos líquidos de subsídios. por fim, a ótica da renda -"apropriação", lá volto eu- mostra a distribuição secundária do valor adicionado, ou seja, a forma como esta modelagem entende que os [locatários dos] fatores primários de produção que alugaram seus serviços (seus, deles, lá, os serviços dos fatores) prestam contas dos ganhos a seus proprietários, nomeadamente, as instituições famílias (consumo), governo (gasto e tributos), firmas nacionais (compradoras de bens de capital dos produtores) e firmas estrangeiras (compradoras das exportações nacionais líquidas). deixando de lado algum probleminha de articulação da linha básica de meu argumento, não detalhando em excesso a natureza da equação keynesiana (y = c+g+i+x-m), somos forçados a concluir que em nenhuma das três óticas de cálculo do valor adicionado pode-se escrever a expressão "poupança".

quinto. talvez eu já esteja argumentando solitariamente há um ou dois parágrafos. em qualquer caso, dos quatro anteriores decorre minha primeira conclusão-comentário. poupança, que nada tem a ver com o valor adicionado, nada tem a ver com o investimento, que nada mais é do que uma componente de uma das três óticas de seu cálculo sinalizadas pela MaCS.

sexto. ainda que Keynes tenha discutido em incontáveis oportunidades a "esmola" (dole), esta não foi modelada em absoluto na sua "contabilidade social". isto o levou a considerar a identidade ex post entre poupança e invsetimento (o que é verdade mesmo na moldura da MaCS, como vou aprofundar). neste parágrafo, quero registrar que esta identidade levou a que muitos de nós pensássemos que, como Y = C+S e Y = C+I, então S = I. não está errado, repito, mas enganaram-nos a pensar que S faz parte da renda!

sétimo. a poupança é, na verdade, um conta de saldo entre receitas (e eu não disse "renda") e despesas (e eu não disse "despesa") das instituições. ela não tem existência "real", no sentido de que apenas existe nas economias monetárias (para podermos somar milho e porcos). a oferta total e a demanda total do modelo keynesiano são até mais familiares ao economista do insumo-produto do que ao macroeconomista. na linguagem de Stone (mas não na de Leontief), trata-se da receita dos produtores, ao buscarmos -como estou fazendo- entender a relação entre poupança e investimento, devemos abandonar os blocos de transações intermediadas pelos produtores (estes vendem "despesa" às instituições e compram "produto" aos [...] fatores). devemos deslocar-nos a outra visão dos blocos de transações mercantis. desta vez, interessa-nos esmiuçar as relações que as instituições mantêm como os [...] fatores. abandonando os conceitos de oferta total e demanda total, devemos fixar-nos agora em sua "receita total" e "despesa total". uma matriz de contabilidade social que registra lançamentos brutos nas contas das famílias, governo e firmas (domésticas e internacionais) cobre uma ligeira ambiguidade que pode resultar da leitura strita do argumento que venho desenvolvendo há uns três ou quatro parágrafos.

oitavo. a receita total das famílias é o montante de dinheiro (quantidade monetária, na genial sacada de Leontief) que vai ser aplicado em consumo, mais o dinheiro que a elas transfere o governo, mais os donativos que umas famílias (digamos, pobres) recebem de outras (digamos, ricas), menos os donativos que elas (digamos, as pobres) pagam às outras (digamos, as remediadas/um pai varredor de rua que deu um fogão a gás ao filho bancário), um troço assim. no final do período contábil, a diferença entre a receita total e a despesa total de cada instituição específica pode ser diferente de zero, pois as famílias (e o governo e as firmas etc.) podem endividar-se, inclusive, por exemplo, os pobres podem ficar devendo aos ricos (nota biográfica: eu mesmo terminei o exercício contábil da sexta-feira à noite devendo dois chopes a uns amigos com quem entretive uma happy hour).

nono. mutatis mutandis, este arrazoado ajuda a entendermos a natureza do crédito que cai na mão do governo que gasta mais do que arrecada e às instituições domésticas que exportam menos do que importam. neste ponto, podemos entender o fechamento contábil da MaCS que exige que a poupança seja igual ao investimento: a poupança das famílias mais a do governo mais a do setor externo, sendo impossível aritmeticamente o superávit ou déficit simultâneo das três: de alguma fonte haverá de buscar receitas o devedor.

décimo. não disponho de estatísticas recentes, o que me força a falar de 2002 (o que faço em um artigo que a Revista Econômica do Nordeste publicou com um esmero de corar frades de pedra, formatando pela ABNT a MaCS; as pedras da tumba de Stone -dizem- queriam um duelo à la Wyatt Earp com as dos burocratas mortos que se encarregam de publicar artigos econômicos, do Oiapoque ao Chuí, que por estas invernadas também andaram tosquiando-me as MaCS). penso em dar um certo toque empírico a esta postagem longa. naquele ano de 2002, houve superávit no orçamento das famílias ricas e no balanço de pagamentos em transações correntes, por contraste aos déficits do orçamento das famílias pobres e do orçamento governamental. segundo traço biográfico: sou adepto da teoria da grande conspiração, o que me leva a sugerir o seguinte. quem financiou a poupança dos ricos e das firmas estrangeiras foram os pobres e o governo nacional. além das inegáveis verdades contábeis que expressei, as interpretações são obviamente inspiradas por esta teoria (admitidamente, um tanto vira-lata): rico poupa com o dinheiro dos pobres. tudo isto leva-me a pensar que a causação que sustenta que o investimento é baixo no Brasil porque a poupança é baixa é outra manifestação desta mesma teoria da grande conspiração. esta, sabidamente, não é afeita às regras da lógica da dupla entrada, pois sustenta simultaneamente que A = ~A. por fim, falei que devo dois chopes e não que os bebi... se os tivesse ingerido, entenderia de uma vez por todas a função consumo keynesiana que sustenta que o consumo é uma função da renda, quando -sóbrio- entendo que o consumo é uma função da receita, tanto é que os pobres podem consumir mesmo sem ter renda, não é isto? mas, mais que isto, os aposentados consomem e não ganham renda! aposentado ganha transferência do governo. ah, esta common parlance.
DdAB

Crack: prá pensar

Querido Blog:
Primeiramente, devo declarar que uso óculos bifocais há mais de 22 anos. Não havia crack naquele tempo, o que não me impediu de sempre ter a sensação de milagre quando -ao lavar os óculos, que a própria gordura do ar os deixava fora de combate- percebia que ensaboava apenas um lado de cada lente e -em instantes- ambos os lados de ambas estavam ensaboados. Anos depois, já havia crack considerado como epidemia na sociedade brasileira contemporânea e -claro que independentemente disto- vim a descobrir que nada havia de milagre.

Todos sabemos que uma mão lava outra. Mal comparando, no caso, um dia, eu usava os óculos A e lavava os óculos B. Neste caso, a "resolução" visual do que eu fazia com as mãos, o sabão, os óculos e a torneira (e outros ingredientes não especificados) permitiu-me entender o fenômeno do ensaboamento de ambos os lados das lentes. Resolveu-se o mistério, fiquei mais velho mais de 22 anos, o crack tornou-se epidemia. O jornal Zero Hora lançou a campanha "Crack, nem pensar!".

Deuxièmement, hoje, o jornal Zero Hora, em um dos artigos assinados da página 17, cujo título é "Crack... como assim?", lemos o parágrafo final: "Acredito que, nesse sentido, temos que pensar o crack, sim, para que não continuemos a gerar outras armas de destruição de massas, como essa." Parece mentira. A postagem Crack e o MAL* e outras falam coisas similares. Em particular, lançou-se o dístico: "Crack? Vamos pensar nesta droga!!", ganhando em exclamações das interrogações por 2 x 1.

Se meus óculos não estão obnubilados pelo sabão, pela gordura do meio ambiente e por outras determinantes da opacidade do Universo Conhecido, estarei vendo na figura do Google Images que selecionei para ilustrar-nos nesta manhã nubladinha porto-alegrense um guri de, digamos, 9 anos de idade, mal saído da primeira infância. Mão direita, portando o que não seria um frasco de iogurte e mão esquerda está segurando um isqueiro Ronson & Ronson. As sandálias havaianas exibem, pelo que intuo, bom estado de conservação. A bermuda de bolsos laterais sugere que há uma camiseta ambas de boa qualidade literária, esta frase é que não nos saiu lá essas coisas. Manchas na parede de fundo sugerem que por ali esconde-se uma fuga dágua, ou -ao contrário- uma inflitração.

Troisièmement, torna-se claro onde quero chegar: ao final desta postagem. Não pretendo fazê-lo sem deixar claro como a foto e a frase misturam-se indissociavelmente em torno do conceito de Brigada Ambiental Mundial. Por que pensar na droga que é o crack? Premièrement, crack não deixa ninguém louco, a não ser um fumante de segunda mão. Ao contrário, podemos aceitar que neguinho com seus problemas psicológicos -ergo, desequilibrado- é que procura o crack como um alívio para as mazelas que lhe causa o sentimento de estar-no-mundo, como dizem os filósofos alemães (e todos os demais). Deuxièmement, o caminho da liberdade não é impedir a ocorrência de pensamentos deste quilate (claro que há técnicas cognitivas que poderão auxiliar-me a evitar certos pensamentos -digamos- desagradáveis). Ao contrário, o caminho da liberdade aponta para o enfrentamento da ameaça do crack, o exame criterioso das explicações para o funcionamento de seu mercado: oferta (crime, second hand smoking nos banheiros sociais do Grêmio Futebol Porto-Alegrense) e demanda (neguinho angustiado, neguinho já viciado, neguinho induzido, neguinho chantageado, neguinho enganado e todos os demais neguinhos relevantes, not to speak of determinates convencionais, como o preço, a renda dos consumidores, o número de consumidores, essas coisas que o estudante de Introdução à Economia deve sair sabendo a partir da primeira aula). Troisiemement, vício por vício, é melhor trocar o exercício da angústia existencial de estar-no-mundo pela angústia esportiva de superar-se, de progredir sempre. Num país que deseja o galardão de global player, é bastante irônico que as crianças (de sandálias havaianas, camisetinhas etc.) sejam jogadas a terem aulas dentro de containers, tenham 39 coleguinhas de aula, professorinha despida de maiores cuidados quanto à formação, à auto-estima etc.. No dia em que Garcia e Zorro puderem conviver harmonicamente, iniciaremos a equacionar o problema da educação fundamental, a base da criação de hábitos libertários ou escravitários, a base do consumo de crack ou de esporte. Quatrièmement, o crime organizado -que se nutre do dinheirinho do guri acima e milhões de outros- tem muito mais impacto numa sociedade de segundo time como a brasileira, comparativamente às sociedades de primeiro time, como a francesa. Cinquèmement, quem sabe contar até cinco com uma mão, que come mamão, que usa tênis, que visita a Disneyworld, que sabe francês, inglês e australiano, que conhece Bach, Bethooven, Bitels, Borodin e Rimsky-Korsakov não se vicia em crack nem em políticos ladrões.
DdAB

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

É um Tempo de Guerra, é um Tempo sem Sol

Querido Blog:
Veja o que eu achei como:
Postado por J Alexandre Sartorelli na terça-feira, 18 de agosto de 2009

(e lhe tive acesso em: 13/nov/2009).

Se não sei árabe ou hebraico, só imagina o alemão:

An die Nachgeborenen
Bertolt Brecht

I
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!
Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende
Hat die furchtbare Nachricht
Nur noch nicht empfangen.

Was sind das für Zeiten, wo
Ein Gespräch über Bäume fast ein Verbrechen ist
Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt!
Der dort ruhig über die Straße geht
Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde
Die in Not sind?

Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt
Aber glaubt mir: das ist nur ein Zufall. Nichts
Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen.
Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich verloren.)

Man sagt mir: Iß und trink du! Sei froh, daß du hast!
Aber wie kann ich essen und trinken, wenn
Ich den Hungernden entreiße, was ich esse, und
Mein Glas Wasser einem Verdurstenden fehlt?
Und doch esse und trinke ich.

Ich wäre gerne auch weise.
In den alten Büchern steht, was weise ist:
Sich aus dem Streit der Welt halten und die kurze Zeit
Ohne Furcht verbringen
Auch ohne Gewalt auskommen
Böses mit Gutem vergelten
Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen
Gilt für weise.
Alles das kann ich nicht:
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!

II
In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung
Als da Hunger herrschte.
Unter die Menschen kam ich zur Zeit des Aufruhrs
Und ich empörte mich mit ihnen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Mein Essen aß ich zwischen den Schlachten
Schlafen legte ich mich unter die Mörder
Der Liebe pflegte ich achtlos
Und die Natur sah ich ohne Geduld.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit.
Die Sprache verriet mich dem Schlächter.
Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden
Saßen ohne mich sicherer, das hoffte ich.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Die Kräfte waren gering. Das Ziel
Lag in großer Ferne
Es war deutlich sichtbar, wenn auch für mich
Kaum zu erreichen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

III
Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut
In der wir untergegangen sind
Gedenkt
Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht
Auch der finsteren Zeit
Der ihr entronnen seid.
Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd
Durch die Kriege der Klassen, verzweifelt
Wenn da nun Unrecht war und keine Empörung.

Dabei wissen wir doch:
Auch der Haß gegen das Unrecht
Macht die Stimme heiser. Ach, wir
Die wir den Boden bereiten wollten für Freundlichkeit
Konnten selber nicht freundlich sein.

Ihr aber, wenn es so weit sein wird
Daß der Mensch dem Menschen ein Helfer ist
Gedenkt unsrer
Mit Nachsicht.

Bath, baths

Querido Blog:Sempre que reflito sobre a natureza humana e suas 27 peculiaridades (número platônico elevado ao cubo), penso que não há tempo para pensar e repensar tudo o que já vivi, mais ainda para saber tudo o que já foi produzido pela humanidade nos últimos, digamos 10 dias. São 6 bilhões de autores de pensamentos e outras emanações das peculiaridades a que referi.
Também referi que a primeira vez que li "Funes, El Memorioso" tive uma espécie de vertigem (se bem que "espécie" não descreva bem o desfalecimento...). Quando Borges disse que ele, Funes, precisava de precisas 24 horas para narrar os eventos da última jornada, entendi o que ele, Borges, quis dizer com a historieta "Del Rigor de la Ciencia". O mapa do reino não pode ser produzido em escala 1 por 1, o dia não poderá jamais voltar a ser narrado, como um rio. Depois, ainda mais espécimes voltaram-me à mente, ao entender que, na realidade o único mapa impossível, a única narração impossível é a descrição 1 x 1. Com efeito, as fotos do Crescent da paradisíaca cidade de Bath e de seus próprios banhos romanos estão exibidas nesta simpática postagem precisamente por não se fazerem em escala 1 x 1. Ao mesmo tempo, aprendi com um romano, ou seu descendente, que -na arquitetura e mesmo em milhares de outras artes- a escala, digamos 55 x 23, sei lá, é extremamente útil para detalhar coisas. Diria Henry James no livro que li, editado pela Editora Civilização Brasileira, e de que nada lembro, a não ser a espessura (bem fininho), "outra volta do parafuso". Claro que, se quisermos entender todos os meandros de qualquer das voltas do parafuso, sua helicoidal, o que seja, precisamos detalhar em escala, digamos 4 x 4, o que lhe daria tração nas quatro rodas, se as portasse ele, o parafuso.
A vista interna dos banhos de Bath, se redundante me não torno, medeia-se por água corrente e quente, onde os romanos de antanho aproveitavam os tempos que lhes foram dados a viver sobre a Terra, agora citando, se bem lembro, Bertold Brecht, com tradução de Geir Campos. Se não lembro e finjo que lembro, que fazer? A inocente palavra é um despropósito. Quem está rindo é que não recebeu ainda a notícia terrível. Estará no Google Words?
Disse-me o Mr. Google Man:
:: Aos que vão nascer :: Bertold Brecht :: Geir Campos :: O.S.L.T.
1.
Realmente, eu vivo num tempo sombrio.
A inocente palavra é um despropósito. Uma fronte sem ruga
denota insensibilidade. Quem está rindo
é só porque não recebeu ainda
a notícia terrível.

Que tempo é este em que
uma conversa sobre árvores chega a ser falta,
pois implica em silenciar sobre tantos crimes?
Esse que vai cruzando a rua, calmamente,
então já não está ao alcance dos amigos
necessitados?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Porém, acreditai-me: é puro acaso. Nada
do que faço me dá direito a isso, de comer a fartar-me.
Por acaso me poupam. (Se minha sorte acaba,
estou perdido.)

Dizem-me: — Vai comendo e vai bebendo! Alegra-te
com o que tens!
Mas como hei de comer e beber, se
O que eu como é tirado a quem tem fome, e
meu copo água falta a quem tem sede?
contudo eu como e bebo.

Eu gostaria bem de ser um sábio.
Nos velhos livros consta o que é sabedoria:
manter-se longe das lidas do mundo e o tempo breve
deixar correr sem medo.
Também saber passar sem violência,
pagar o mal com o bem,
os próprios desejos não realizar e sim esquecer,
conta-se como sabedoria.
Não posso nada disso:
realmente, eu vivo num tempo sombrio!

2.
As cidades cheguei em tempo de desordem,
com a fome imperando.
Junto aos homens cheguei em tempo
de tumulto
e me rebelei com eles.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

Minha comida mastiguei entre refregas.
Para dormir deitei-me entre assassinos.
O amor eu exercia sem cuidado
e olhava sem paciência a natureza.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

As ruas do meu tempo iam dar no atoleiro.
A fala denunciava-me ao carrasco.
Bem pouco podia eu, mas os mandões
sem mim sentiam-se mais garantidos, eu esperava.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

Minguadas eram as forças. E a meta
ficava a grande distância;
claramente visível, conquanto para mim
difícil de alcançar.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

3.
Vós, que vireis na crista da maré
em que nos afogamos,
pensai,
quando falardes em nossas fraquezas,
também no tempo sombrio
a que escapastes.

Vínhamos nós então mudando de país mais do que de sapatos,
em meio às lutas de classes, desesperados,
enquanto apenas injustiça havia e revolta nenhuma.

E entretanto sabíamos:
também o ódio à baixeza
endurece as feições,
também a raiva contra a injustiça
torna mais rouca a voz. Ah, e nós,
que pretendíamos preparar o terreno para a amizade,
nem bons amigos nós mesmos pudemos ser.
Mas vós, quando chegar a ocasião
de ser o homem um parceiro para o homem,
pensai em nós
com simpatia.

O que a simpática revista não diz é que a tradução é de Geir Campos, nem que a publicação original ocorreu numa Revista Civilização Brasileira. Nem que talvez minha memória falhe hoje, como falhou ontem e, com sorte, falhará ainda por muitos e muitos anos. Pensai em nós, com simpatia.

Tenho pensado em quantas canções pode legitimamente um iPod conter, de sorte a permitir-me escutar música durante todo meu horizonte de vida. 6 bilhões de canções? Uma para cada terráqueo? Seis bilhões, três minutos cada canção, 18 bilhões de minutos, precisava viver 35.000 anos para aproveitá-las todas uma única vez. Se esta postagem também tivesse o marcador de "Vida Pessoal", eu iria contar uma coisa. Como não tem, nem o de Economia Política, vou contar outra, que pode ser enrustida como "Escritos". Quem quer iPod de 35 mil anos? As multinacionais vão elevar nosso tempo de vida com o diabólico objetivo de vender-nos iPods mais poderosos do que estes micuinzinhos que hoje compramos. Sendo iPod, eu as apoio. Sendo boi, eu os aboio e sendo flutuante, eu busco apoio. Ok, chega de poesia.

A irreversibilidade deste blim-blim-blim todo e a necessidade que temos por simpatia expressa por outros terráqueos -dos que ainda não nasceram e nem sabemos se nascerão, mas que devem nascer de qualquer jeito- prova, de modo irrefutável que precisamos de um programa de renda básica universal, não é isto? Substituir a luta de classes pela luta entre instituições, não é isto?
DdAB

Twitter: acabo de voltar de uma sessão de squash no Squash & Fitness da Av. Cristóvão Colombo. No caminho, um menino de rua disse-me que este troço de "luta entre instituições" já era. O negó (parecia saído das páginas d'O Pasquim) seria a busca da "harmonia entre as instituições". Ele mesmo, declarou, estaria disposto a harmonizar-se com um ricaço das cercanias (Rua Quintino Bocaiúva) que lhe oferecesse três refeições por dia, roupa lavada e uma viagenzinha que outra -vescoutra- à Disneyworld.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Decisões no Mundo Animal

Querido Blog:
Em boa medida, retorno à postagem de anteontem. Primeiro, buscando o diferencial homem-animal, voltei a consultar alguns livros que volta e meia examino. No ano festivo de Darwin, adquiri e não fiz mais do que leitura de contato "A expressão das emoções no homem e nos animais". Pensei que nesta foto do Google Images teríamos o setting adequado: dois animais e um bicho muito louco, o toureiro, a espicaçar o bichinho. É muita falta de um programa decente do que fazer. Só podia ser na Espanha, a tourada foi banida por Franco e restaurada com a restauração monárquica, a memória americana obliterada pela Opus Dei, ou era outro blim-blim-blim mais antiguinho.

Falando em Claude Lévi-Strauss, li o artigo vizinho do de Ondina Fachel Leal, de autoria de Kathlin Rosenfeld oslt, em que ela usava a palavra "comércio" num sentido que não me era usual: troca de corpos, encaminhamento da instituição do tabu do incesto, da cultura humana. A palavra "comércio" vem de "commercium" em latim, resultando da composição de com-junto, merx-genitivo(?) e mercis-mercadoria. Você já notou, né?, estou olhando a segunda acepção do Webster: "intercourse between individuals; mutual dealings in social life", e a terceira: "sexual intercourse (mais raro). Fiquei impressionado com a erudição de Kathlin e com minha, digamos, conformidade em aceitar centenas de palavras sem estudá-las em profundidade.

A que de melhor investiguei foi "grève", uma praia de pedras à margem do Rio Sena, à Paris. Mas aí bateu-me a curiosidade de saber outra: negócio. Eu juro (mas não juro-juro) que ouvi dos lábios de Fernando Henrique Cardoso que queria dizer "negação do ócio", numa visão das atividades dos burgueses medievais, que desprezavam os senhores feudais, que se dedicavam à vida ociosa voltada à dissipação. Pois diz o Prof. Webster que "negotiable" vem de negotiabilis, negotiari, mas em nada lembra a versão cardoseada.

O que é intrinsecamente humano? A seleção grupal não é. Entendo que meu amado Bowles (Tabela 4.1 da p.129 do livro de Microeconomia) inspirou-se num artigo de William Hamilton, de 1964, e disse:

A Taxonomy of Goods:
Características:::::Rival:::::::::::::::::::::Non-rival:::::
Excludable:::::::::::Private goods::::::::Spite goods:::
Non-excludable::::Common property::Public goods:

Não vou falar sobre isto hoje, ok? ainda assim, torna-se claro que os bens privados são apenas um caso de conjunção que favorece o uso da organização econômica intitulada mercado. Tá na cara que public goods ou common property goods não terão provisão adequada, caso sejam relegados à produção mercantil. Não terão.

Hamilton teria dito:

Types of behavioral interactions
Características Fitness change to recipient
::::::::::::::::::::::::::::::::::::Gain::::::::::Loss::::::::
Fitness change::::::Gain::Cooperative::Selfish:::
to donnor::::::::::::::Loss::Altruistic::::::Spiteful:

Tirei esta tabela da p.139 de David McFarland (Animal behavior). Por exemplo, diz lá ele, que "in cases in which the helper is altruistic, the breeding birds should benefit, while the helper loses individual fitness", e assim por diante. Por que um jovem pássaro ajudaria a alimentar os filhotes de adultos? Diz ele que há várias razões. Não quero alongar-me e deixo apenas uma: treinamento para poder alimentar seus próprios filhotes, quando chegar a hora.

Mas como sabemos que o pássaro tem uma função utilidade e que deseja maximizá-la de tal ou qual jeito? Pois temos três capítulos neste mesmo McFarland, que li, leio e lerei.
DdAB

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Animal, animalzinho, animalejo

Querido Blog:
Ou muito me enganam (meus dois olhos, se tantos), ou estou vendo mesmo Hércules em domínio completo e absoluto do Leão da Neméia. Mas, se entendo de psicologia de sorrisos leoninos, este leão, talvez por ser "cavalgado" por um Carneiro (Samuel R.), não parece contrafeito, ao contrário. Mais circunspecta, vemos abaixo a dupla em troca de deliciosas carícias.
Esta segunda foto do afamado leão e seu educador foi-me cedida pela Wikipedia portuguesa. Considerando que devemos estudar como se não fôssemos morrer nunca, declarei-me interessado em saber mais sobre mitologia grega, pois minha apresentação original, sucedida apenas por leves toques cognitivos, foi feita por Monteiro Lobato, com sua obra sobre os 12 trabalhos de Hércules e a relação de superioridade que lhe devotava Emília, a boneca de pano. Cuja dualidade global acaba de falecer, pelo que leio. Postagem curta.
DdAB

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Instituição, Linguagem, Liberdade

Querido Blog:
postagem longa, ilustração achada no Google Images com seu título. tem muita coisa no artigo "Instituição, Linguagem, Liberdade", de Hélio Pellegrino, intelectual de grande notoriedade há alguns anos e já falecido. achei uma referência textual no charmosíssimo blog de Melânia Costa. aqui, vemos a referência completa:
PELLEGRINO, Hélio. Instituição, linguagem e liberdade. In: ___ A Burrice do demônio, p.18, 3ª edição, Rocco, RJ, 1989.

este artigo de Pellegrini foi publicado no Jornal do Brasil de 27/mar/1982. naquele tempo, eu vivia em dois mundos: o da contabilidade social e o da economia de empresas (organização industrial, como dizem os americanos do norte). naquele março, minhas quatro patas (se tantas porto) haviam voltado a fixar-se em Porto Alegre por meio ano, ou seja, em agosto/1981, depois de 13 meses de Floripa. tanto tempo fa.

foram maus tempos, houve bons tempos. a vida humana não apenas rege-se por muitos ciclos de diferentes amplitudes, como alguns destes ocorrem simultaneamente. por exemplo, nessa época iniciava-se o ciclo FEE, que durou até outubro/1987 e acabava o ciclo de grandes mudanças iniciado em agosto/1977, quando fui pela primeira vez para a Europa e fiz o mestrado em economia industrial na University of Sussex. um, o mais remoto, iniciou-se há bilhões de anos, quando o cálcio que então compunha meus ossos fora gerado no interior de uma ou mais estrelas.

outra justaposição cíclica estava terminando a década 1972-1982, o primeiro sendo a obtenção do grau de bacharel em ciências econômicas. ele, ciclo, marcou o início de minha vida profissional enquanto economista. e a decisão de levá-la a sério, pois pouco aprendi durante os anos de formação. decidi estudar como se não fosse morrer nunca, como já andei alardeando. o ano de1982 viu-me iniciando a iniciar Introdução à Economia, além de um curso padrão de microeconomia no nível de graduação (o que já fizera na própria UFRGS em, digamos, 1979).

descontente com a literatura em língua portuguesa da área, associei-me a Adalberto Alves Maia Neto e traduzimos o texto de Stephen Hymer sobre "Robinson Crusoé e o Segredo da Acumulaçzão Primitiva". também li o ensaio de Edward Nell demarcando as diferenças entre a "corrente principal" a economia marxista. e também o ensaio de Oskar Lange sobre o método da economia, onde aprendi que há duas "ecnomias", dois paradigmas, o da alocação de recursos e o dos conflitos de poder. e ainda o livrinho de Ernest Mandel intitulado "Iniciação à Teoria Econômica Marxista". e ainda o livro de "Introdução à Economia" do pessoal da USP. a virtude de este da USP "ser pequeno" foi perdida as sucessivas edições. hoje temos um trabuco enorme, ensinando algumas coisas inadequadas para o nível do beginner.

com essa literatura, entendi que é importante diferenciarmos a ciência econômica da realidade econômica, que pode ser estudada por quem não entende um pingo de teoria econômica, que é o caso de alguns jornalistas, por exemplo (no offense intended). mas aí começou outra fase. digamos que nela li bastante. Shogun, de James Clavell oslt, a série Duna, de Frank Herbert, mais, mais. e O Nome da Rosa e caí em Umberto Eco, o que me levou a um livro de ensaios extraordinário: Viagem na Irrealidade Cotidiana.

semiologia, etnografia, psicanálise. li o resumo da Zahar da biografia de Freud escrita por Ernest Jones. queria ser antropólogo, queria ser sei-lá-o-quê. caí no interesse pelas sociedades animais. nesse tempo, ainda não chegara a entender que as instituições são "bens" escassos, ainda que soubesse -claro- que os mercados falham. mas meu entendimento sobre o uso social do mercado como máquina (mecanismo) de agregar preferências era perfunctório. não precisava ser, pois eu era dono de alguns livros de readings de microeconomia contendo textos clássicos, inclusive "uma teoria dos clubes", que agora me palpita que era de James Buchanan, mas poderia ser de outro.

Pellegrino lá, e eu aqui invadindo o Tennessee, ou vice-versa. o mais perto que terei chegado desta para mim nova temática, além do marxismo, foi ler Umberto Eco e lecionar macroeconomia. então comecei a entender um pouco da dinâmica dos mercados de trabalho e da relevância central da distribuição da renda para moldar -diria Milton Friedman, como agora entendo- a liberdade do indivíduo. não se pode ser menino de rua e livre ao mesmo tempo. era a frase de Naira Vasconcellos: não devemos falar em seu direito de ficar na rua, mas no direito de não ficar na rua. é uma postura interessante, é a postura da liberdade negativa de Isahias Rubin. é Pellegrino, em boa medida.

Pellegrino, Pellegrino. Pellegrino pensava pela esquerda. serei injusto, claro, ao lê-lo um quarto de século depois da publicação original sem conceder-lhe atenuantes. seu ambiente era 1982, águas de março fechando o verão, governo Figueiredo, ditadura dos militares eleitos. não basta ser eleito para ser democrático e não pode ficar mais de oito anos no poder sem ser ditador. Chávez, Stroessner, Franco, Somoza, essas famílias desventuradas que geram indivíduos com excessivos sentimentos de auto-importância, reeleições eternas, dinastias como a cubana e a coreana-do-norte. não basta ser eleito. tem que ter ausência de escravos, tem que ter voto feminino, tem que ter voto voluntário. não basta oferecer crescimento econômico. Pellegrino, instituições boas e más. isto é importante. naquele tempo o Exército Brasileiro era instituição má, o Banco Central também, era tudo ilegítimo, ainda que hoje não tenhamos lá muito mais legitimidade, que o digam o menino de rua e seus amáveis pais.

o lado alegre apontado por Pellegrino é que "Sem instituições, haverá desordem". hoje eu diria -e ele não disse porque não quis, pois juro que ele conhecia, diferentemente de mim, que estamos encaminhando-nos para o mundo de Hobbes e a idéia de que a desodem é a "luta de todos contra todos". ainda assim, naquele período do início dos anos 1980s eu começava a enquadrar-me, entendendo que

.a. o lado alegre da economia é a ciência econômica
.b. o lado alergre da ciência econômica são as ciências sociais
.c. o lado alegre das ciências sociais são as sociedades
.d. o lado alegre das sociedades são as sociedades animais
.e. o lado alegre das sociedades animais é que se deixa de ser antropocentrista.

e aí eu comecei a querer saber mais sobre as sociedades animais, o que me levou, na próxima década ou mais, a João Rogério Sanson, Edward Wilson, álgebra linear o doutorado oxfordiano, o Zé Roberto das capivaras, o Axelrod (evolution of cooperation), o Dawkins (blind watchmaker), Hargreaves-Heap e associados, os jogos, mais jogos, mais sobre sociedades humanas, mais sobre sociedades animais, mais com Bowles. Bowles me levou a um ponto de novo ciclo lá por 2006-7 em Berlim, pois eu o levara (na mala, pois não tinha tempo de lê-lo como devia em Porto Alegre) para trás da cortina de ferro. a instituição Partito Comunista da DDR fazia parte do mesmo clube da baixaria de Chávez e Figueiredo, essa macacada toda. pois olha o que digo agora, buscando interlocução com Hélio Pellegrino. falar em Hobbes força-me a pensar também em Locke, Rousseau, Kant e Rawls. do lado de Rawls e seu conceito de sociedade justa, fica-me o jogo liberdade-necessidade, que vou explorar abaixo.

em estilo esfigmonanométrico, começo a falar sobre o texto manifestando certa inquietação com o próprio título. por que a segunda vírgula? não era o caso de ter usado o conetivo "e"? ele quer falar no papel das instituições na vida societária. diz que a linguagem ergue-se sobre um pacto e um consenso sobre a renúncia que cada um faz sobre suas "representações imaginárias, pessoas e intransferíveis". se o indivíduo humano não renunciar a esta individualidade absoluta, como tal não se integrando ao uso comum da linguagem, então ele não reconhecerá os demais indivíduos. como tal, ele não será capaz de inventar-se a si mesmo. finalmente, sem saber-se indivíduo humano, este não será capaz de exercitar sua liberdade.

muito bem. o resumo de 15 parágrafos apenas foi possível porque eu próprio usei 117 palavras... certamente meu comentário será mais longo do que o próprio artigo original ao qual ele -comentário- se destina. inclusive porque haverá, de minha parte, muitos apartes -como este de rimar parte com aparte, o que lembra Lourdette. Pellegrino não define formalmente o que entende por instituição, o que não é um problema, pois -ao longo da leitura- vemos que o melhor mesmo é entender o termo de modo amplo, sem amarras, pois esta elasticidade com que ele usa o conceito permite-lhe chegar a resulados interessantes, como veremos. se pensarmos, como o faço, apenas que a instituição é um bem econômico, cairemos na economia dos contratos, o que é maravilhoso, mas foge ao escopo (já bastante amplo) da mensagem de Pellegrino.

no terceiro parágrafo, ele diz que -sendo a instituição um bem e um mal-, precisamos contextualizá-la por meio da "definição de que a liberdade é o conhecimento da necessidade". esta frase intrigou-me há anos. Jorge Amado e o "Ciclo do Cacau"; se bem lembro é a epígrafe de um daqueles livros, não é mesmo? Engels? ou é frase tão velha quanto o mundo? como o é a frase: "a necessidade é a motora da ação", que vale para bactérias e massas revolucionárias? se a necessidade me leva à ação libertadora, então agir contra algozes me torna livre, não é isto?

claro, "em todos os casos em que a estrutura institucional se põe a serviço, não da necessidade em sua justa e necessária medida, mas de privilégios, injustiças e iniquidades." ou seja, estamos vendo o primeiro item constituidor da sociedade justa de John Rawls e a concepção ricardiana de economia política como sendo o estudo da distribuição da renda entre as classes sociais.

no quinto parágrafo, Pellegrino insiste que "[a] instituição se mantém como um mal necessário [...] quando serve à liberdade", começando a fazer a transição para a linguagem: a instituição "favorece o desenvolvimento dos sujeitos humanos, a partir da livre construção de suas respectivs práticas e discursos." chegamos mais perto de minhas buscas da singularidade humana, que não encontro muito bem, até hoje, com as preocupações com a distribuição do excedente, o que leva Pellegrino a falar de democracia: "o mal necessário, o esforço de racionalidade pelo qual o sacrifício e o trabalho de todos irão reverter em benefício, prazer e liberdade para todos."

lá segue ele: por que nos instituímos em nações, igrejas, exércitos, famíias? diz ele tratar-se de uma lei geral, uma condição necessária para a própria busca da liberdade. e não diz, mas entendo que poderia ter dito, que sua importância decorre da medida em que permitirá uma organização da sociedade que viabilize a produção de maior riqueza material, que é uma pré-condição da chegada ao alcance liberdade: de não ser deglutido por onças, de não morrer de infecção dentária, de ingerir três refeições por dia, de olhar além das 12 constelações zodiacais.

os próximos parágrafos permitem ver que Pellegrino é mais antropocentrista que eu, pois entende que praticamos um "pecado original" ao romper com "a Lei que rege o sol, as estrelas, as plantas e os bichos." minha questão, depois de ver cercadas algumas questões anteriores, agora é: "por que o homem foi o único animal que, ao transformar a natureza, transformou sua própria natureza, produzindo um corte permanente com essas leis citadas por Pellegrino". não vejo corte muito abrupto na linguagem, pois os macacos vervet dispunham de um léxico de 10 palavras, os lobos caçam em grupo, muitos animais alimentam estranhos (ainda que dentro do bando), todos têm diferentes autonomias decisórias.

no sétimo parágrafo (citado integralmente) há um erro:

"O animal, através do instinto, obedece integralmente à relojoaria cósmica. Ele não se extravia, não erra, não tem errância. O animal traz consigo, pronto, o mapa da mina. sua certez vem avalizada por milhões e milhões de anos. O instinto é memória imemorial, resposta eficaz, esplendor da espécie, indene à dúvida."

claro que as frases são lindas, mas não podemos esquecer o experimento (que li) de crueldade relativa: tomaram-se 10 cães de sei-lá-daonde, jogaram-nos sei-lá-aonde, e os abandonaram. muitos voltaram a suas casas originais. alguns nunca voltaram. podem ter morrido tentando, podem ter-se aquerenciado (epa, gauchês) em outras plagas, podem ter apenas usado bússolas menos eficientes do que seus fellow-dogs. mas esta busca de instintos na natureza primitiva do animal também me leva a pensar na racionalização dos cuidados parentais. cuidamos de nossos filhos, pois fomos selecionados, na linha do determinismo da "relojoaria cósmica". que se manifesta, mesmo para os humanos, como um traço fundamental. não são as instituições humanas que nos levam a cuidar dos filhos (cuidados, às vezes, precários, é verdade). parece que cuidamos dos filhos, pois fomos selecionados. quem não cuida de filho não deixa descendentes, tem sua estirpe eliminada. e fim da picada.

seja como for, os dois parágrafos seguintes também insistem neste ponto que considero apenas um elogio do antropocentrismo, o que me desagrada, mas não me desagrada sua transição. ele chega na necessidade de organizar o mundo, domar a natureza "pelo trabalho e pela linguagem". mas isto não impede -hoje entendo- que também os animais tenham desenvolvido culturas, como aponta o livro de J. T. Bonner (The evolution of culture in animals). mas não discordo o tempo inteiro, pois vejo com curiosidade o estabelecimento que ele faz da distinção entre a sexualidade humana e a animal. na humana, diz ele:

"Para que o desejo possa servir à espécie e ao esforço civilizatório, ele precisa ser institucionalizado, através de uam gramática que oestruture. O Édipo -descoberta nuclear de Freud- é esta gramática do desejo."

claro que fui à Wikpedia e a outras fontes quando ele disse que "Para o ser humano, a sexualidade não é instinto - é pulsão." achei interessante o que disse Arturo S. Blanco, tornando mais claro (para mim, claro) o que Hélio Pellegrino quis dizer.

parece -acabo de aprender com Ondina Fachel Leal- que o homem, ao criar o tabu do incesto, também cria a cultura: o desejo do indivíduo e a interdição social de seu desejo. e a mulher institucionaliza a cultura. diz nossa Ondininha, comentando o passamento de Claude Lévi-Strauss:

"[...] há uma troca de pudins e de comida cozida do lado feminino, por caça e peixe do lado masculino. Isso coloca a mulher na posição de agente transformador da natureza - é ela quem cuida do fogo e cozinha. É ela quem torna a cultura uma instituição. Para Lévi-Strauss, o papel feminino é o de reprodução social (de formas produtivas, isto é, de homens), com a capacidade de gerar cultura. Homens teriam que dominar as mulheres para se fazerem parte da cultura, para terem controle sobre a reprodução social."

ou seja, o homem cria a cultura e a mulher torna a cultura uma instituição. retenhamos este ponto e passemos ao 11th parágrafo de Pellegrino, comentando o exemplo do parágrafo anterior de outro tipo de instituição: a linguagem, enquanto novo "exemplo fundamental de institucionalização libertadora da necessidade humana de intercâmbio alteritário." lá vai:

"Para que o código linguístico seja comum a todos, ele exige -de todos- um pacto e um consenso. Tenho que abrir mão de minhas representações imaginárias, pessoais e intransferíveis, para inscrver-me no simbólico. O simbólico exige uma gramática, uma sintaxe, um código que seja comum a todos. Ele implica, portanto, uma renúncia de todos [itálico no original] - extensiva a todos -, para que a comunicação se torne possível."

se bem entendo e rapidamente finalizo, a própria linguagem exerce dois papéis: o de escravizar-me, pois requer que eu abandone minhas representações imaginárias intransferíveis, para imergir nas representações comuns a todos. sem linguagem (mesmo que de lobos), não posso caçar em harmonia com meus fellow-hunters. sem cooperação (que Pellegrino não trata exaustivamente, pois está fazendo "monografia", ou seja, apenas alguns temas, focados num núcleo irradiador; dois núcleos deixam de ditar "monografias"), não há civilização, nem sociedades animais, não há nada. sem competição tampouco. o conceito de cadeia alimentar é casca grossíssima: somos forçados por leis siderais a predar outros seres vivos, folhas de alface e vacas leiteiras.

dou um saltinho e chego a sua síntese geral: "Nela [a linguagem], a necessidade serve à liberdade, o peso ao vôo, a dimensão comunitária à aventura da pessoa, que se inverte." Liberdade é o conhecimento da necessidade. O trabalho excedente viabilizou a troca, a transformação da natureza em escala não igualidade pelos outros animais. É isto?
DdAB

Twitter: Vida Pessoal pura é eu dizer que estou concluindo um tratamento com antibiótico para desmoralizar/desmobilizar outro ataque bacteriano sobre minha barriga (diverticulite, como Tancredo, o homem que não foi presidente do Brasil, ergo Sarney não vice, mas foi presidente, ergo troquemo o Figueiredo por outro gorpe, epa, isto é Economia Política:R^3). além disto, por causa do sedentarismo causado pelo repouso causado pelas bactérias, uma enorme contração muscular que me deixa para jambrar. isto poderá ser considerado como explicação para a ausência de postagem por alguns diazinhos.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A Arte Imita a Vida

Querido Blog:
Busquei "a arte imita a vida" no Google Images. Encontrei esta simpática imagem. Queria falar de Quincas Berro Dágua, segundo alguns o segundo livro que Jorge Amado escreveu quando começou a cair no abismo da mediocridade. O Ciclo do Cacau do milenar baiano é que seria sua grande viagem. Eu li tudo dele, ainda que lembre de pouco. Talvez até lembre de coisas de "Os Subterrâneos da Liberdade", tinha um carinha que roubava dinheiro do PCB que ele -carinha- angariava em doações de filiados da clandestinidade. Nada alheio à política brasileira: todo político é ladrão! Ok, volta e meia falo em "O Mundo da Paz", livro de viagens pela finada União Soviética. Li-o como uma espécie de antídoto a "Gato Preto em Campo de Neve", uma introdução maravilhosa à civilização americana e cartão de visita da obra de Érico Veríssimo. Pois bem, reli o "Gato Preto", li "A Volta do Gato Preto", li "México" e "Israel em Abril". Li mais vários Éricos em 2008/9, e lerei em 2010. Em Berlim, comprei "Capitães de Areia", os meninos de rua da Bahia lá dos seus 1930s, ia lê-lo, que já lera algumas coisas de Graciliano e Osman Lins, ao que parece. Pois bem, simplesmente odiei os tais precursores dos meninos de rua. Larguei-o e dei-o de presente a quem jurou-me que iria valorizar o presente.

E o Quincas? Aparentemente, a arte da história que tanto me agradou ("A Morte e a Morte de Quncas Berro Dágua", em francês, se bem lembro de contracapas ou o que seja, era algo como "as três mortes" dele, Quincas) acaba de repetir-se, na vida real, como comédia. Marx e sua história da história ocorrendo inicialmente como tragédia e, pela segunda vez, como comédia, creio que a propósito de algumas restaurações monárquicas na França, ou sei lá o quê.

Pois não é que Zero Hora de hoje, na p.42 fala que um pedreiro do município de Santo Antonio da Platina (pode?, sete vereadores, cada um com sete assessores, dá 49, elevando ao quadrado, temos quase 2.500 políticos, parentes, cunhados, todos empregados) compareceu ao próprio enterro. Quincas, meu chapa, puro Quincas, que também compareceu ao próprio enterro, embriagou-se. O porteiro já chegou -diria Lourdette- chumbado, e acabou com a farra: disse que o morto não era ele, o morto calou-se e desfez-se o mal-entendido.

Mais ainda, mas agora já não sei se é bem coincidência, ou a notícia fantástica alcançou Olyr Zavaschi, o jornalista da antepenúltima página de ZH. Hoje tem uma piadinha, como sempre, às vezes muito boa, chamada "Identidade":

O sujeito morreu e está sendo velado. No loca, apenas a mulher, dois filhos e meia dúzia de vizinhos. Na hora da cerimônia, o padre se estende em elogios:
-O finado era um bom marido, um excelente cristão, um pai exemplar...
A viúva, ouvindo a prédica, volta-se para um dos filhos e lhe diz no ouvido:
-Filho, dá uma olhada para ver se é mesmo teu pai que está no caixão.

É ou não é? Imita ou não imita?
DdAB

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Workers of All Countries!

Querido Blog:
Você não é minha, eu não sou de você! Era assim? Ultraje a Rigor, 1985? Seja como for, era: "nós somos do Independente Futebol Clube". E eu agora digo: também estaríamos enterrados se fôssemos do "Highgate Futebol Clube", também no sentido de que é lá, no Highgate londrino, que Karl Heinrich Marx (05/maio/1818-14/mar/1883) foi enterrado. Esse clube de ludopédio localiza-se em Birmingham, ou Shirley, certamente nos Midlands, a terra de Bourton-on-the-Water. Deu-mo o Google Images, "m'o" era o Highgate Foot-Ball League, ou o que seja. Deu-me a dica sobre a cidadezinha de Bourton-on-the-Water o matemático Ian Stewart, num livrinho sobre caos determinístico. Claro que li o livro e claro que visitei a cidadezinha que tem uma casa que tem um terreno que tem uma miniatura da cidadezinha que tem uma casa que tem um terreno que tem uma miniatura, e por aí vai. [Esta postagem está cheirando a "Escritos" e "Vida Pessoal", não é mesmo?]

Voltemos a Marx, à conclamação de que os proletários de todas as nações devem unir-se, numa -e vem John Lennon- brotherhood of men. Eu já falei que acho o nacionalismo o fim da picada, ou seja, o mato virgem, o mato das feras e das tribos inimigas, o mato da morte, o mato do enterro, o mato de Highgate e outros cemitérios menos concorridos, o mato da briga de torcida de clube de futebol, o mato do bebê de oito meses de idade cuja rostinho risonho, com olhos vívidos, que vislumbrei na televisão inglesa, cujo bracinho fora decepado por uma bomba na guerra civil da Iugoslávia. Nacionalismo, meu? Inclua-me fora!

Examinemos Zero Hora de hoje. Na p.26, temos o que é -para mim- uma das melhores notícias do ano: "Fim do impasse; 'Constituição européia' supera o último entrave." Uma vez ouvi pessoalmente (ela em pessoa e eu, de ouvidos em pé na frente da TV) a Baronesa (ainda era simples mortal) Margareth Tatcher dizer: "somos europeus, o que não somos é federalistas", quando o Iuquêi recusou-se a ingressar no clube do euro. Achei bela retórica, mas decisão equivocada. Quando a Dinamarca recusou-se a referendar essa constituição eurupéia, sofri quase tanto quanto o rebaixamento do Grêmio me fez penar. Houve outras recusas, e a retomada -digamos- universalista. É um bom momento, o de hoje, para pensarmos nas origens.

Depois de todas as guerras da negadinha européia, culminando com a fragorosa vitória russo-americana em 1945, agora por lá só vale guerra civil, como a da Iugoslávia. Seja como for, acho que as contradições do capitalismo levaram os povos unidos em busca de paz a ver com simpatia a criação da Comunidade Européia do Carvão e do Aço, a BeNeLux, algo assim, o Tratado de Roma, essas coisas, que culminam hoje com a "constituição européia", que dá enormes poderes ao federalismo daqueles desventurados 27 países.

Mas eles, a partir de agora, têm mais chances de pararem de se agredir, feito crianças de periferia (epa, os preconceitos...). Quando surgiu o euro, eu sugeri a um menino de rua que, no momento em que houvesse também uma união monetária entre o Banco Central Europeu, o Banco Central Americano e o Banco Central Japonês, teríamos implantado o governo mundial. Claro que era retórica, e ele não caiu nesta. Ainda assim, hoje acrescento a China, faço um ou dois reparos e pago-lhe um BigMac que estou certo de que ele concordará. By the way, speaking of BigMacs, também prevejo que os povos unidos melhorarão quando o McDonalds abrir sua lojinha no último dos 200 países do mundo e criar seu sindicato internacional de trabalhadores. Para mim, são dois símbolos civilizatórios, o banco central mundial e o primeiro sindicato internacional de trabalhadores. Se Marx e Trotszky sonharam, Stálin e Béria infernizaram.

O último a assinar, diz ZH, foi o presidente da República Checa, o quase-palindrômico Vaclav Klaus (eu ainda sou do tempo de Puskas e Di Stefano, algo assim). Ele disse: "Com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, a República Checa deixa de ser um Estado soberano." Diz ZH que se trata de um "tom claramente exagerado." O coroa é um alarmista, ou apenas um retórico. Ainda assim, sou pela perda de autonomia daqueles estados que favorecem a tortura, a discriminação da mulher, e por aí vai. Mas parece tratar-se de ganhos induzidos pela inexorável marcha do capitalismo. Epa, agora sou eu defendendo a teoria da grande conspiração.

Mas não fiquemos por aí: devemos substituir o governo dos homens pela administração das coisas. Primeiro: dinheiro mundial, depois, fim do estado nacional, depois, fim do sindicato mundial em favor -nem digo da luta entre instituições, mas - da harmonia universal. O presidente do Banco Central Mundial transformará os pay-offs d e todos os jogos em "Caça ao Cervo", tratando de preservar a vida dos cervos, servindo -diria Lourdette- apenas electric sheeps, como no Blade Runner (remember? do androids dream of electric sheeps? e parece que os andróides sonhavam mesmo! E sabiam tocar piano.

Neste caso, somos forçados a concluir que o próximo passo será a criação da Brigada Ambiental Mundial. Adicionalmente à renda básica de US$ 100 mensais, cada indivíduo humano maior de 24 anos (maioridade da ILO) que se alistar na BAM ganhará mais US$ 900 (ou menos, durante algum tempo, mas com o comprimisso de chegar a US$ 10,000 mensais em 20 ou 30 anos) para:
.a. fazer três horas de ginástica por dia (para manter a coluna ereta)
.b. fazer três horas de aula por dia (para manter a mente quieta)
.c. fazer três horas de trabalho comunitário por dia (para manter o coração tranquilo).
DdAB

Twitter:
Primeiro: queres ver a extraordinária qualidade do jornal Zero Hora? Então clica aqui! E há outro extraordinário artigo de convidados, acessível ao simples clicar aqui para ler "Tempo de ler Clarisse. Hilda Simões Lopes trata, em linhas gerais desta coisa de brotherhood of men e mesmo de temas que mexi em meu "Tempo e dinheiro", que lhe está à esquerda (em página lindeira...).

Segundo: 45min depois de postar os acimas, fiz o primeiro twitter; mais 2h34min foram-se até este: sou muito inquieto com as críticas convencionais (demorei para achar este tempo, e precisaria procurar mais para descrever o que meu coração requer) à teoria econômica. Há dias, nos blogs de Leonardo Monastério e Cláudio Shikida (na ordem inversa da descoberta), vi uma remessa a um paper de David Colander, que li e amei e que resolve certos problemas conceituais, economizando-me de pensar muito a respeito. Dito isto, digo que vim a perceber que também tenho contestações radicais. Em particular, quando descobri o que quer dizer MV = PQ, ou seja, que o valor adicionado medido pela ótica da renda é dado pelo presidente do banco central, mais que nunca tornou-se clara minha crença (emergente da matriz de contabilidade social) que devemos substituir a luta de classe pela luta das instituições. Pobre não é pobre porque é trabalhador, mas porque são os ricos que avançam em maior fração da renda, em resposta a transferências que lhes faz o governo ou mesmo um mercado de trabalho enviesado, digamos, em favor de juízes, traficantes de drogas, promotores, médicos e jogadores de futebol.

Terceiro: este gráfico do blog do Leonardo Monastério é casca grossa. É hora de quem achou que acabara o império americano passar a acreditar na máxima: "não espereis demasiado do fim-do-mundo".
Isto evocou-me (e vice-versa) o artigo da p.2 da mesma Zero Hora, de onde tanto citei acima. Claudia Tajes é fulminante, ao dizer: "O fim da linha, o fim da carreira, o fim do mundo, oba, não estão próximos."