sábado, 31 de outubro de 2009

O Problema da Transformação dos Valores em Preços

Querido Blog:
Primeiro, devemos ter presente que existe uma diferença fundamental na forma como o homem se apropria da natureza, comparativamente, por exemplo, a uma abelha. Em segundo lugar, também no que diz respeito à apropriação da produção. O abelheiro tem regras de distribuição bastante simples, mas que foram deixadas para trás pelos vertebrados. O mapa do Brazil que selecionei do Google Images mostra uma distribuição da produção, ou das belezas turísticas.

Mas, quando falamos na distribuição entre os indivíduos, começamos a ver a perversidade da simetria com a distribuição entre as abelhas. A desigualdade é enorme entre os humanos, em parte devido a uma peculiaridade da sociedade rica: se pouco existe, pouco será distribuído. É a idéia de Simon Kuznets para explicar a regularidade parabólica entre renda per capita e índice de Gini.

Entre as abelhas, há divisão do trabalho que não chega a permitir qualquer comparação nem com lobos nem com humanos. Ficando com os humanos, já sabemos que esta, a divisão do trabalho, gerou enormes possibilidades de crescimento da produtividade. Com isto, gerou-se mais abundância, mais bem estar, mais divisão do trabalho, maiores ganhos de produtividade. Tudo isto implica que o conteúdo de trabalho de cada mercadoria reduz-se ao longo do tempo. Claro que a massa de valores que hoje vemos gerada em qualquer economia é muito maior do que aquela que existia sob condições ridículas de produtividade, mas o conteúdo de trabalho para cada equivalente é menor. N'est ce pas?

Por que Marx acabou o primeiro capítulo do Capital com uma seção intitulada "O Fetichismo da Mercadoria e seu Segredo"? Segundo muitos pensadores importantes, a razão da existência desta seção é a própria raison d'être do próprio capítulo e de toda a teoria do valor marxista. Ou seja, precisamos pensar numa economia monetária simples para podermos entender sua evolução e, como tal, a crescente divisão do trabalho, os ganhos de produtividade e a queda no valor das mercadorias. Insisto: o valor total deve estar crescendo, pois há novas mercadorias, e tudo o mais. Ademais, mesmo que a negadinha trabalhe menos, digamos, daqui a 10 anos, o valor poderá seguir crescendo. O trabalho cada vez torna-se mais produtivo (reduzindo o valor), mas a massa de mercadorias torna-se cada vez mais volumosa em virtude da redução do -lá no dizer dele- do exército industrial de reserva.

E qual a relevância de pensarmos no problema da transformação dos valores em preços? Na economia muito simples do volume 3 do Capital, há indicações da solução do problema, o qual foi definitivamente sepultado pelo "sistema de emprego do modelo de Leontief" e, se tivesse ainda sobrado algo insepulto, o livro da teoria da produção de Luigi Pasinetti teria dado a pá de cal. Não entendo tanto do livro de Pasinetti quanto entendo da singeleza cristalina do sistema de emprego de Leontief. Se tu me acompanhas:
L = m^D x B x f
onde L é o vetor do emprego dos setores (produtores da MaCS), m^D é a matriz diagonal cujo elemento característico é o coeficiente de emprego por quantidade-monetária (valor $ da produção), B é a inversa de Leontief, ou seja, segurando os requisitos diretos e indiretos da produção de cada mercadoria e f é o vetor da demanda final pelos produtos dos setores produtivos (e "x" é a operação de multiplicação de matrizes e vetores).

Claro que nesta visão leontiefiana estou equalizando os elementos do vetor L com os do vetor f. E claro que na visão puramente algébrica isto se deve a duas arbitrariedades:
.a. joguei na parada a matriz B
.b. joguei na parada a diagonal m^D.
Não há muito a falar sobre B, exceto as considerações feitas em qualquer livro texto de respeito. Mas vale a pena pensarmos um pouco no elemento característico de m e os correspondentes elementos de f e L. Os elementos de f são medidos em quantidades monetárias, ou seja, reais, ou seja, preços vezes quantidades. Os elementos de L são medidos em horas de trabalho.

Claro que temos um problema dimensional de conversão de $$$ em hhh. E claro que ele é resolvido pelas matrizes de transição m^D e B. Mas há algo ainda mais interessante na matriz L. Este algo aponta para o fato de que a solução matemática do sistema de equações simultâneas (nomeadamente, L = m^D x B x f), quando alcançado (e, uma vez que pudemos montar nossa tabela de insumo-produto, concluímos que ele foi efetivamente alcançado), implica que o problema da transformação já está -como não poderia deixar de ser- simultaneamente resolvido.

Em L temos horas hhh de trabalho, em f temos reais $$$ realejos. Um (hhh) transformou-se no outro ($$$) e o outro (hhh) gerou o outro ($$$), como diz a velha piadinha da região localizada a oeste da Espanha e da França. Mas voltemos a pensar em que mesmo é que é mais interessante na matriz L. É que, entre os elementos de L, vemos horas de trabalho também dedicadas a atividades improdutivas, como é o caso das obturações dentárias, cirurgias cardíacas, cortes de cabelo, essas irrelevâncias da vida cotidiana declaradas improdutivas pelos economistas clássicos e especialmente por Marx. Em outras palavras, para produzir $$$ 1 em dinheiro gasto em cortes de cabelo, são necessárias, digamos, 1hhh horas de trabalho. Claro que agora o adjetivo "necessárias" diz respeito a uma simples equiparação algébrica. Ou seja, não nos estamos referindo à concepção de "trabalho necessário e trabalho excedente", ainda que estejamos examinando a complicada (e, parece, errada) questão da relevância da distinção entre "trabalho produtivo e improdutivo".

Em outras palavras, a questão do trabalho necessário x trabalho excedente é improcedente para o caso e a do trabalho produtivo e improdutivo é irrelevante. O fato é que o modelo de Leontief permitiu-nos rastrear todos os requisitos diretos e indiretos de trabalho socialmente necessário, inclusive aqueles alocados nas horas de trabalho declaradas improdutivas (como os cortes de cabelo realizados -comprados e vendidos- no mercado)

Claro que não estou dizendo que esta equação resolveu o problema da transformação dos valores em preços, não é isto? (ou eu disse acima e agora estou corrigindo?). Seja como for, é evidente que estamos vendo correspondências entre a demanda final de cada setor e o número de horas de trabalho direta e indiretamente necessários para produzi-la (à demanda final daquele setor). Ou seja, o problema da transformação não foi resolvido em negrito, mas ele foi resolvido num sentido mais mundano: uma hora de trabalho vale uma unidade monetária. Claro que também este "vale" foi escrito em negrito, pois também este verbo tem dois significados (vale quantidades monetárias e vale quantidades de trabalho social).

O que estou certamente dizendo é que o sistema de preços que faz com que os elementos de f compareçam precisamente com os valores que por lá podemos ler depende de todos os demais preços de todos os demais elementos de f, ou seja, tudo está sendo criado simultaneamente. Ou melhor, tudo foi criado simultaneamente. Neste caso, devemos lembrar que, ainda que a equação L = m^D x B x f seja "equação de comportamento", os valores de L e f do ano passado não foram "de comportamento", mas valores verdadeiros reais verídicos. Assim mesmo é que eles foram gerados pelo mundo.

O mercado foi aberto, digamos, no primeiro dia de janeiro e iniciou-se um processo de ajustamentos, algumas transações sendo realizadas e outras sendo postergadas para o dia 2. No dia 3, tudo repetiu-se, e assim por diante, até o dia 365, quando o mercado foi fechado e nada mais será vendido ou comprado. Nesse momento, por exemplo, as horas de trabalho despendidas na extração de ouro que não foi comprado (e que tem meia-vida de apenas um segundo) simplesmente não geraram valor, ou seja, foram desperdiçadas.

Talvez meu argumento ainda seja insuficiente para tirar duas conclusões, mas estou certo de poder fazer todas as mediações para chegar a elas. A primeira implicação é que o banco central é que determina a massa de valor (monetário, monetário, meu!) a ser distribuída entre os diferentes "ramos" industriais (os setores, id est, produtores da MaCS). Ao mesmo tempo, ao falarmos assim, estivemos pensando apenas como a figura que nos ilustra na postagem de hoje: divisão geográfica num lado e divisão setorial no outro. Ou seja, estamos deixando de referir que o valor adicionado pode ser distribuído geograficamente, mas além disto também terá lá sua distribuição setorial, pessoal etc.. Em outras palavras, o valor adicionado terá três maneiras de ver sua distribuição mensurada: a ótica do produto, a da renda e a da despesa.

A segunda impliação é mais contundente para a orientação da política pública (tenho em mente a sindical, pois todo político é ladrão e não adianta falar nada sério com essa corja). Não existe exploração de um trabalhador individual específico por um capitalista individual específico. Ou seja, ao falarmos de exploração, estamos pensando na ótica do produto da mensuração do valor adicionado? Claro que não podemos falar nisto, pois -neste caso- teríamos que dizer que um trabalhador de um setor é mais explorado do que o de outro, coisas assim. E isto é um inominável absurdo. O que, obviamente, podemos dizer é que o trabalhador da indústira química (ascensoristas) tem produtividade maior do que o da educação (motoristas), se ambas forem mensuradas em quantidades monetárias. E isto não implica que L seja igual a f, claro, né? Assim, oh, é que os valores -dados em horas de trabalho- que são iguais, depois de certas correções corriqueiras, foram fetichizados pelo mercado. E os preços de mercado que fetichizaram os valores emergiram precisamente da solução do problema de equações simultâneas que Marx buscou afanosamente lá no Livro III. Não é isto?
DdAB

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ladrão ladrão ladrão

Querido Blog:
espero não estar capturando coisa que não devia do Google Images. por exemplo, se a figura da caricatura fosse, digamos, o avô do Bruce Lee, sei lá. seja como for, esta figura foi-me oferecida quando pedi singelamente imagens com "ladrão ladrão ladrão", três vezes ladrão. não lembro se é uma canção: "se alguém gritar 'pela ladrão', não fica um meu irmão". claro que isto rima, em meu presente estado de sinapses com "Brasil, ame-o ou deixe-o" e "o último a sair deve apagar a luz do aeroporto". singelezas.

o Sr. Armínio da Rosa, presidente do Tribunal de Justiça (do RGS), cuja lata vemos estampada na p.11 da you-know-what, dizque:

O fato é que o Supremo reajustou seus subsídios. Não podemos ficar com subjustiça. Se deixarmos isso, não poderemos reclamar da menor qualificação dos nossos magistrados.

cara, só bebendo. minhas citações, em geral, vêm indentadas em 'courier' e fonte pequena. esta saiu-me com o mesmo 'courier', mas não o tamanho avantajado não pôde ser evitado. (tem acento em 'pôde', oh, clube da ladroagem?). o princípio da cascata quer dizer: mentira e tomar carona na iresponsabilidade dos demais. comentário frontal a esta criatura, o Armínio, que se pensa, penso eu, pelo menos, um semideus, para não dizer um dos deuses do clube da baixaria do Brazil de Pero Vaz de Caminha (essa ortografia cambiante...).

no outro dia, anunciei que os R$ 27.000 dos juízes federais não era cascata, no sentido de mentira, mas seria cascata, no sentido da água morro a baixo, que todo mundo vai ganhar este montante. a teoria dos jogos prevê que -in Brazil- ninguém se envergonha de nada, tudo é ladrão, tem que apagar a luz do aeroporto mesmo. ou tem que virar o jogo, o Grêmio passar a ganhar grenais e nós a baixarmos pau, pau e pau nas mudanças ortográficas, mas não apenas nelas.

nós, quem, amado povo ordeiro e pacífico? não o povo do Exército de Libertação dos [...], que já está envolvido em refregas dignas da Bolívia, Rodésia, Albânia, Somália (ou Zâmbia), Índia e Líbano, num acróstico de fazer medo. olha aqui, como está na mesma p.11 de Zero Hora, alguns salários iniciais que penso referir-se a 40 horas de trabalho semanal:

.a. soldado da Brigada Militar: R$ 1.007,60
.b. investigador da Polícia Civil: R$ 1.238,54
.c. classe inicial do magistério: R$ 862,80
.d. técnico-científico: R$ 2.405,36.

Só bebendo.
DdAB

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Crianças, Velhos e Desempregados

Querido Blog:
Crianças, criminosos e loucos é um trio de que volta e meio falo. E, quando falo na Brigada Ambiental Mundial, penso na articulação estado-comunidade para montar uma rede de apoio à vida comunitária, na forma de empregos para cuidar de criança, cuidar de velho, supervisionar a segurança das ruas, contribuir para a conservação das praças e jardins. Ou seja, a monstruosidade do desemprego recebe uma resposta à altura: todos seremos empregados, todos nasceremos credenciados ao recebimento da renda básica universal, todos nasceremos associados à Brigada Ambiental Mundial.

O modelo de gerações superpostas da macroeconomia de Auerbach & Kotlikoff é interessante, pois permite-nos ver um mundo estilizado com propriedades de transferências inter-gerações de renda que podem oferecer perspectivas de crescimento a longo prazo. Por razões compreensíveis, eles não se dedicam exaustivamente às questões distributivas, o que também poderia ser feito com maior formalismo a partir de seu modelo. Claro que o custo seria maior complexidade na compreensão das intuições básicas.

Quando pensamos na vida econômica centrada exclusivamente nos indivíduos, não há lugar para crianças ou velhos, pois -como não estão atrelados ao mercado de trabalho- não lhes destinamos papel nos modelos. A&K têm solução engenhosa para isto: minha filha é o equivalente orçamentáro a meio cachorro, algo assim, um semovente, um bem de consumo que me oferece satisfação da mesma forma que uma barrinha de chocolate.

Quando colocamos a matriz de contabilidade social no centro de nossas atenções, passamos a classificar as organizações econômicas em três instâncias: produtores, fatores e instituições. Na verdade, "fatores" é uma forma abreviada de dizermos "locatários dos fatores de produção". O mecanismo de seleção, no aconchego do lar, de quais são os indivíduos que vestirão as habilidades reconhecidas pelo mercado de trabalho e para ele dirigir-se-ão já está banalizado na teoria econômica de nível intermediário. O importante é entendermos que há um mecanismo de transferência do valor adicionado entre produtores, que contratam serviços dos fatores que remetem os rendimentos a seus proprietários (locadores).

Ocorre que, dentro das famílias, a alocação do tempo entre renda e lazer é um processo decisório como todos os demais: a negadinha fica de olho no custo de oportunidade das habilidades que cada indivíduo específico (integrante da população economicamente ativa) pode levar ao mercado de (serviços dos) fatores. Mas haverá famílias incapazes de conseguir colocação de seu recurso no mercado, o que a fará viver dire straights, ou seja, viver o terror de não ter o que levar da mão à boca. Para elas, a renda básica universal é um luxo institucional que:
.a. a humanidade já pode pagar
.b. ao fazê-lo, a humanidade estará melhorando o nível de vida de todos, pois haverá perspectivas de maior crescimento do valor adicionado.
Depois explico por quê.
DdAB

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Neguinho Ganha R$ 37.5 Mil

Querido Blog:
Todos sabemos que, sempre que uso o substantivo (não gentílico) "neguinho", estou pensando na Presidente Dilma (se não sagrar-se na presidência da república, tenho razões para crer que emplacará a Petrobrás, algo assim). No caso mais genérico, ao procurar no Mr. Google Images as três expressões "neguinho", "ganha" e "37", chegou-me -como imagem downloadable- uma foto de Neguinho da Beija-Flor. Como ele beijava uma flor, de nada suspeitei. Ainda assim, sei -distante como se deve manter o burro das lavouras do azevém- que "Neguinho da Beija-Flor é algo que tem algo a ver com samba, escolas de samba, cambalaches etc.".

Mas meus "neguinho" é um rapaz aposentado da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, aquele covil de ladrões, que ganhava R$ 37,5 mil mensais de aposentadoria. Uma lei cassou-lhe o direito a tal estipêndio, um juiz estadual (ou milhares deles) disse que a lei que lhe deu os R$ 37,5 mil (que também foram milhares de leis, pois a espiga e seu choclo gerarau muitos pinduricalhos) é que é legal e a outra é ilegal, imoral e engordante. Mas neguinho não era o único. Havia uma fieira de mais 40 carangueijos, o número cabalístico que estabeleceu a quantidade de acompanhantes do Sr. Ali Babá.

A página 14 de Zero Hora acerta uma no cravo: "[...] se o direito adquirido fosse absoluto, a escravatura não teria sido abolida." Afinal, os proprietários de escravos (talvez, como tal, o Dr. Inocêncio de Oliveira, ex -presidente do Congresso Nacional) envolveram-se em uma transação legal. Pensei no assunto e dei-me conta de que o certo mesmo seria ter libertado os bisnetos ou trisnetos de escravos, pois mesmo a Lei do Ventre Livre fere o direito adquirido. No "Caso da Vara", lá de Machado de Assis, torna-se claro que a escrava foragida, que pariu sob chibatadas, despilfarrou semoventes do patrimônio do rapaz que pagou o caçador para rastreá-la (campeá-la, diria a turma de Passo Fundo) e devolvê-la a seu legítimo proprietário. Quando eu li este conto, fiquei furioso com Machado de Assis e espero que o/a leitor/a também mostre sua indignação para com todos os agentes citados até agora, inclusive o que a subscreve.

Zero Herra, por outro lado, não se manteve 100% do tempo no caminho do bem. Lá na página 4 do Segundo Caderno, temos um embastelamento de propaganda de livros da Feira do Livro de Porto Alegre, Passo Fundo e, naturalmente, Linha Quilombo, em Gramado.

Rawls, Rawls novamente, meu chapa. Na sociedade justa rawlsiana, haverá:
.a. a maior liberdade compatível com a dos demais (ponto para Machado de Assis)
.b. as instituições garantirão:
.b/1 cargos públicos de livre acesso a todos (ponto para José Sarney que empregou todos)
.b/2 a desigualdade será tolerada se beneficiar os menos favorecidos (ponto para Gini que dá pelo menos 0,55 in Brazil).

Ergo: como é que tu resolve o problema destes marajás, que ingressaram no serviço público sem concurso em plena ditadura, ou que estabelecem-se entre eles remunerações milionárias, que -naturalmente, por decreto- são mais iguais do que a gente? Mete o imposto de renda progressivo neles. Claro que, se a alíquota do imposto de renda sobre o salário mínimo de R$ 500 fosse de 0,73, então os R$ 37.500 permitiriam um take home pay de R$ 27.500: 500 + 0,73 x 37.000, com 10 pilas de nhapa.

E por que não há imposto de renda rawlsiano in Brazil? Obviamente porque os ladrões, isto é, os políticos, isto é, os esbirros da classe capitalista exploram os próprios capitalistas e todos os demais neguinhos do indigitado country. Em outras palavras, já está na agenda da Assembléia Legislativa elevar os estipêndios dos juízes e seus amigos para os R$ 27.500 dos deputados federais, juízes federais, essa malta de caranguejos. Ou era malta de cães e fieira de caranguejos (e carangueijo não dá pé?)?

Só bebendo, só pedindo anexação à Suissa, só fechando a Assembléia Legislativa, o Senado Federal e os estados. Só tacando fogo em tudo, só baixando pau, pau e pau nessa gentalha.
DdAB

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Infinitos Cambalaches

Querido Blog:
(imagem capturada com "william" + "stigler" + "shakespeare")

Tendo recebido a visita de "Anita" (sem perfil no sistema Google, dois acessos ) duas vezes com gentis e eruditos comentários, decidi fazer um resumo da controvérsia que muito me honra. No comentário da postagem de ontem, ela fez-me lembrar desta letra imortalizada pelo taquaremboense Carlos Gardel de um interessante tango "Lo han visto con otra". Dizem -mas não fui eu quem ouviu- que, em Taquarembó, os nativos temem é ser vistos:

.a. com um terceiro "lo he visto con otro",
mas principalmente
.b. consigo mesmo: "lo he visto mui autista".

As possibilidades de .b. teriam sido exploradas por J. L. de Borges como "se vió a charlar consigo mismo". E também por William J. Shakespeare: "I've seen myself in the mirror of my soul". Por fim, William Stigler Maughan teria dito "the mirror saw my soul itself", intrigando-me até hoje o que ele quis dizer com "itself". Falar consigo? Consigo falar? Falo, falei, falarei, mas não far-me-ei calar.

Em outras palavras, qualquer pensamento sério terá milhares de formulações, variantes e correlações. O épico final da letra (words) em exame apenas faz-me lembrar (an affair to remember) que "o bandoneón é a alma (soul) do tango." Eu sempre preferi a interpretação da banda "Os Incríveis" (The Unbelievables), que encaixava o dístico -diziam- "só o amor constroi", ainda no tempo do acento agudo no "ó".
DdAB

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cambalache e suas Três Letras

Querido Blog:
Disse-me um menino de rua que sou letrado. Eu repliquei que não sou nada, comparado com o tango Cambalache, que tem três letras: abc, o alfabeto inteiro, algo assim. A foto que fala acima mostra um moderno aparelho de ar condicionado no lado direito, creio que um calefón no lado esquerdo e, ainda na direita, umas pinturas murais de casas do bairro tangueiro de Buenos Aires: el caminito, Gardel, cachaça...

Dependendo da gravação de Cambalache, foram sendo incorporadas ou retiradas coisas, expressões, daqui e dali. Umas caíram por problemas de censura, outras se foram evolucionariamente, sei lá. Acredito que a própria ditadura deste ou daquele político possa ter mudado letras. A que penso ser a original de Enrique Santos Discepolo tem o seguinte:

[três pontinhos...]

Que falta de respeto,
Que atropello a la razón!
Cualquiera es un señor,
Cualquiera es un ladrón...
Mezclao con Stavisky,
Va Don Bosco y La Mignón,
Don Chicho y Napoleón,
Carnera y San Martín...
Igual que en la vidriera irrespetuosa
De los cambalaches
Se ha mezclao la vida,
Y herida por un sable sin remaches
Ve llorar la biblia contra un calefón.

Também tem o afamado: "el que no llora no mama". E penso que Discépolo fala em "el que vive de las minas", ao passo que há gravações em espanhos que falam em "el que vive de los otros". Caetano Velloso, no "disco branco" troca o malandro "Chicho", a senhorita "La Mignon" e o boxeador Carnera por John Lennon y no sé más que cosa. Por seu turno, Raul Seixas não apenas fez a tradução do espanhol para o português, como baseou-se na forma como Caetano cantava e tem o que vemos:

Que falta de respeito, que afronta pra razão
Qualquer um é senhor, qualquer um é ladrão
Misturam-se Beethoven, Ringo Star e Napoleão
Pio IXx e D. João, John Lennon e San Martin
Como igual na frente da vitrine
Esses bagunceiros se misturam à vida
Feridos por um sabre já sem ponta
Por chorar a bíblia junto ao aquecedor.

Letra capturada da internet, o que provavelmente implica mais viés do que bolso de político... Seja como for, fiz-lhe um exame rigoroso e declarei-a "número 1", ou seja, numa escala de zero a 10, ganhou nota 1.
DdAB

domingo, 25 de outubro de 2009

District 9, John Rawls e a Grande União

Querido Blog:
Dias atrás, falei (não lembro se estava sozinho...) que uma das mais lindas cenas do cinema que já vi foi aquela em que o E.T. levitou, acompanhado de uma bicicleta e seu menino, sendo enquadrado, de baixo para cima, alinhando-se em primeiro grau (isto é, y = a + bx) com a Lua. Os pés no chão do cineaste deram-nos, ainda, uns ramos e folhas de árvores, ou seja, seres contingentes que vivem com os "pés-no-chão". Foram segundos de cinema, mas uma foto a tudo captura. Ei-la:
Dias atrás, não estava sozinho quando vi a postagem de Maria da Paz Brasil sobre o filme "Distrito Nove". No flagra da cena primeira desta postagem, temos a estrelinha que a tudo preside, inclusive, no caso, vincula dois proletários: os do planeta distante, altamente tecnologizados e desiguais, e os do planeta que nos atrai e retém, altamente tecnologizados e desiguais. O District 9 é um trecho de Nova Iguassu, Vila Cruzeiro (em POA) ou qualquer cidade com mais de 1 milhão de habitantes no planeta catalogado como portador de vida e de, como tal, Darwin.

O filme do E.T., se bem lembro, tinha seu movimento emulado por uma contradição: aquela entre jovens e velhos. Subsidiariamente, havia a contradição entre o bem e o mal. Bem e mal também se defrontam no Distrito Nove, mas a contradição principal, diria Georges Politzer, ocorria entre pobres e ricos. Para a cidade de Joanesburgo, o conflito entre jovens e velhos não é lá tão relevante, submergido no conflito entre brancos e negros e naquele que observamos entre pobres e ricos.

No Brasil, já se disse, o principal conflito não é centralmente entre brancos e negros mas essencialmente entre pobres e ricos. Terei lembrado que li em Sérgio Buarque de Hollanda, em suas "Raízes do Brasil", que um visitante alemão (esta memória e a mania de não consultar fontes...), subindo de Sampa a Beagá, algo assim, cruzou com um destacamento imperial, com vários infantes e um cavaleiro. Este era negro e paramentado, os demais -negros e brancos- vestindo-se de menos pompa. O alemão indagou: "quem é aquele negro?", querendo saber o CPF do homem a cavalo. Seu acompanhante-intérprete-sei-lá disse: "Não é negro, é um capitão."

Não sou naïve ao ponto de pensar que não há problemas raciais, mas coloco-os numa nave com os problemas sexuais, educacionais, sanitários, artísticos, religiosos, esportivos, e tudo o mais. Negro que se acha inferior tem o mesmo tipo de problema que gremista que se acha inferior e religioso que se acha inferior, o que é o mesmo problema dos negros, gremistas, religiosos, e por aí vai, que se acham superiores. Em qualquer julgamento justo, a sentença média nos dará a pena média, e o assunto acaba. Aprendi em outro filme (em caixinha) que, ao definirmos "homem", não devemos buscar o adjetivo. Homem negro, homem gremista, homem efeminado, homem alto, homem poliglota. E concordo: todos somos iguais perante a lei, ou mais, a lei foi feita pelos iguais. Melhor ainda, a sociedade justa requer o conceito de igualdade, como bem entendeu John Rawls, em seu livro que minha memória situa a publicação original como oscilando entre 1969 e 1971.

A luneta que escolhi como norteadora de minha maneira de ver o mundo coloca no centro de todas as categorizações a polaridade pobre-rico. Tenho razões para acreditar, como suponho esteja bem argumentado no livro de John Wilkinson (tu viu? não era John e sim Richard), que sociedades igualitárias fazem melhor do que as desiguais. Mas, muito antes dele, intuí isto ou alguém me disse. Depois disto, já li milhares de coisas confirmando esta hipótese. E, claro, alguma dissidência, inclusive representantes de alto coturno.

A maravilhosa estátua de concreto armado (?) do caput desta postagem tem uma inscrição cuja última palavra é de difícil visualização, como convém a bons filmes de ficção científica. Talvez seja apenas "Workers of all countries, unite!", como li na tumba do Doutor Karl Marx, no Cemitério de Highgate, em Londres. Talvez o "unite" que está ao final de "Paving the way to unity" não seja "unity". Mas alguma palavra do pidgin ou patois ou créole ou dialeto ou língua que, com 20 anos de convivência, sem dúvida emergiria entre os terráqueos e os alienígenas segregados pela democracia racial sul-africana. Seja como for, aparentemente os bons XXX (definirei em seguida o que entendo por XXX) escreveram o dístico da placa gravada em concreto armado. Not to speak of the anarchyst grafitti, no canto superior esquerdo!

E, como vimos, os bons não eram apenas terráqueos. O herói do filme, que vou chamar de van der Monde (pois esqueci o nome verdadeiro e 'Vandermonde' é um tipo de matriz e 'van der Monde' cheira a afrikaneen, sei lá, esses dialetos...) parecia moscão, mas termina o filme, já "unido" e fazendo os mesmos origamis que um parente de olhinho puxado de Rick Deckard fez, milhares de filmes atrás.

Ou seja, os Extra Large Good Guys (ou simplesmente bons XXX) estavam dos dois lados, podendo manifestar-se apenas em poucas instâncias. Mas dá para sentir que havia gente boa, inclusive entre os nigerianos. Em particular, van der Monde parecia ser um cara feliz e razoavelmente cumpridor das leis, cônscio dos direitos dos outros e, claro, dos dele próprio. Antes, eu ia escrever "o desaventurado van der Monde", mas dei-me conta de que ele tinha o que de melhor pode um homem desejar: o amor de uma mulher. Ou seja, ele foi um vencedor, em vários sentidos. Foi o primeiro unido, lutou, matou, sofreu, causou sofrimentos, mas começou a pavimentar o caminho da paz. Ou seja, fez sua parte para levar-nos ao mundo da paz, conforme a postagem que referenciei acima.

Os economistas da Unicamp, em minha opinião, diriam que o van der Monde foi colonizado pelo FMI, pelo capitalismo internacional, essas coisas. Eu acho que o próprio planeta Terra pode ser submetido a interpretações assemelhadas: seremos todos escravos dos americanos, ou dos chineses, ou dos maias (pois há quem diga que eles é que controlam os banqueiros suíços), e por aí vai. Eu e Guilherme de Ockham preferimos as explicações mais simples. Na falta delas, preferimos as explicações mais benévolas. Somos do bem, somos da paz, somos internacionalistas. Queremos a sociedade justa.

Para mim, Guilherme, John, Karl, Wilkinson e outros, Deckard também poderia ser um andróide. Ou Rachel poderia ser uma andróide produzida de forma a gerar "hijitos" com Deckard. As pradarias do norte da Califórnia seriam o espaço quadrático (não é que o Vandermonde tem as linhas de sua matriz com um termo elevado ao quadrado?) em que floresceria o homem novo, ou seja, o filho de Rachel e Rick, que eles chamariam de Richard, em homenagem ao velhinho da sociedade igualitária. E a filha, que eles chamariam de Joana, em homenagem ao John Rawls. Ou Liberdad, em homenagem à Mafalda e ao elogio do primeiro item da sociedade rawlsiana.

Pernambuco já deu o filho do 'seu Joaquim', mestre carpinteiro, que poderia viver no mangue, como os guanhamuns, um troço assim, um prawn, comme les étrangers. Nosso van der Monde também estava deliciando-se com uma vida de, digamos, baixo conteúdo de limpeza. Mas a questão que me veio, enquanto fazia a postagem de hoje neste mundo de blogs e comentários foi outra. Pensei na possibildade einsteniana de que aquela negadinha (diria a Ministra Dilma) da nave que levitou sobre São Petersburgo (não era isto?) fosse precisameante a mesma nave que seguiu o voo do osso que aquele macacão lá no filme "2001, uma odisséia no espaço" e que virou uma nave da Pan-Am e que quebrou e que, depois dela, quebrou o comunismo, e que danou-se em Júpiter, mas que deixou fragmentos que seguiram ad infinutum, mas outros voltaram, a fim de nos unir a seu universo celestial. Precisamos garantir apenas que só possa unir-se quem quiser, os demais devem ter sua liberdade preservada, pois assim o querem Liberdad e John Rawls.
DdAB
p.s.: o traile do District 9 é o anúncio de uma hagiografia de Luiz Inácio Lula da Silva. depois teremos a do Prêmio Nobel da Paz, Doctor Obama. depois teremos o Banco Central Mundial, a Renda Básica Universal, a Brigada Ambiental Mundial e seremos felizes. Ad infinitum.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Tango É Muito Bonito

Querido Blog:
Tu sabias que "gotan" é "go-tan" e que não é "Go tango!" em inglês. E sim "go-tan" = "tan-go", ou seja, como os "malandros argentinos" designavam o tango, na língua chamada de lunfardo, um derivado da língua espanhola, falada no Porto de Buenos Aires, na tentativa de impedir que o ouvinte entendesse exatamente os significados das sentenças? Eu, claro, não sabia, até que fiquei sabendo. E a foto que o Google Images deu-me como resposta a "O Tango é Muito Bonito" é ultra interessante, n'est ce pas?

O Gotan Project, como sabemos, tem uma batida eletrônica, fazendo o tango pós-Piazzolla. Gosto dele, gosto deles, gosto do tango tradicional, gosto do tango orquestrado. Gosto da dança, não sei dançar nem aprenderei. Apenas gosto. E não desgosto do canto. Um espetáculo completo requer dança, canto e instrumentação.

O primeiro tango que me chamou a atenção foi Cambalache, que tem três letras, a mais famosa delas atribuída a Enrique Santos Discépolo. Eu disse "me chamou a atenção", pois claro que ouço tango desde que nasci. Em particular "El Choclo" sempre esteve presente em minha vida, inclusive com uma gravação de Nat King Cole. Depois que comecei a ouvir tango orquestrado sistematicamente, há cinco ou seis anos, escolhi como meu preferido o tango "El Entrerriano", com orquestrações pós-piazzollanas, ainda que também me agradem algumas interpretações no estilo mais digamos convencional.

Jorge Luis Borges (Somewhere, p.x) diz que o que podemos chamar de formação canônica terá uma orquestração baseada em: bandoneão, piano, violino e contrabaixo. Eu, que não gostava de tango cantado, passei a amar a voz de Carlos Gardel, ainda que -não poderia ser diferente- agrade-me mais a voz feminina a cantar a vida, a água, o tempo, o ciúme, o princípio e o fim.
DdAB

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Jornalismo Capitalismo

Querido Blog:
Para um neguinho que tem sua agenda filtrada apenas pela Zero Hora e pela Carta Capital, olha o que dá procurar no Google Images as duas palavras sem operadores booleanos que entitulam a postagem que decidi fazer hoje, 22/out/1935, ou seja, ou melhor, nessa data, em 1935, jamais a esqueço, casaram-se papai e mamãe. Não estive presente. Mas acredito. E na Zero Hora etc., mas criticamente. Casaram mesmo? Casou-se o Tio Sam com o capitalismo? Você vê, lá em cima, na capa da Veja, uma chamada a Machado de Assis, que morreu precisamente no ano em que meu daddy nasceu? Isto significa, se é que interessa, que ele casou-se aos 27 anos de idade. O casamento dele foi uma contingência na vida dele, mas uma necessidade para minha própria existência. E mamãe? Faz parte de minha santíssima trindade. Explicarei quando comemorarmos os 200 anos do nascimento de Machado de Assis, ok?

Uma vez que eu defendo a tese de que o capitalismo acabou há mais de 15 dias, rimar "jornalismo" com este sistema econômico sepultado pela História é um tanto avesso a minha atual maneira de ver o mundo. Outra imagem que vi com estas duas expressões foi "capitalism at the cross roads", problematização que me parece imbecil, dado que:
.a. ele acabou
.b. se não acabou é porque não estava em crossroads nenhuma nem na primeira vez que alguém escreveu isto, nem quando voltar a escrever, digamos, antes de 100 ou 200 anos.

Mas, como termo sintético, não sou contrário ao uso do substantivo "capitalismo", ainda que prefira falar em "economias monetárias" (e acrescentar "que engendraram bancos centrais"). Seja como for, que jornalismo tem a ver com isto? Acho que há uma parada interessante. Será que o melhor jornalismo encontra-se nas empresas mais poderosas? Os melhores jornalistas? Stephen (stefen?) Hymer diz que a cidade de Nova York terá os melhores cabelereiros do planeta. E, presumo, os melhores jornalistas... Hymer falava na centralização do capital, como uma das leis necessárias ao desenvolvimento capitalista, até seu derrumbre. Esta do derrumbre não é dele, creio, homem sensato que foi.

Até que ponto a independência dos jornalistas com relação à empresa que o emprega e a independência desta com relação aos anunciantes (e poderia ser o Politbureau do PCUS, claro) pode estar obnubilando a qualidade da informação que Zero Hora e Carta Capital distilam para mim? Sem entrara em maiores delongas, achei que pode ser útil definirmos as variáveis y e x que entram nas funções f e g abaixo:
y = f(g(x),
ou seja, a questão é se os melhores jornalistas inclinam-se naturalmente ou são forçados a facilitar a vida comercial das empresas que os empregam. Ou seria tudo ao contrário? Neste caso, eu poderia pensar que mamãe é que era necessária e eu, contingente...
DdAB

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O MAL* e o Nobel em Pelotas

Querido Blog:
Tenho hoje dois assuntos, um sério e outro ridículo. A ilustração é do ridículo, o homem que -afinal de contas- salvou o Brasil, pois está empurrando o projeto da Renda Básica Universal, metamorfoseado de "bolsa família", que a hipocrisia da sociedade brasileira contemporânea não consegue pensar em mudanças radicais em suas regras de apropriação do valor adicionado. Não precisa matar ninguém. Basta:
.a. ter o orçamento universal implantado (gasto público e política tributária)
.b. ter o deslocamento da "luta de classes" do Bloco B21 da MaCS para a "luta entre instituições" do bloco B33.
Lula está fazendo aos pouquinhos. Há quem diga que é um burro analfabeto em pele de águia. Eu juro que é o contrário: uma águia que veste às vezes pele de burro, de sorte a aguentar tanta ladroagem, inclusive a sua lá dele, do pessoal da dinastia dos Lula da Silva. Lula? Delfins é que são inteligentes e Delfim apoia Lula! Viva o MAL*.

O ridículo é que o Movimento pela Anistia aos Ladrões Estrela - MAL* já tem sua primeira vitória. Conseguimos anular o pedido de impeachment contra a Profa. Yeda Rorato Crusius, governadora do Rio Grande do Sul. Já deixei claro:
.a. Yeda nunca deveria ter sido eleita
.b. Yeda nunca deveria ter sido deposta: votou, agora aguenta!
Também deixei claro: quem são mesmo os ladrões que querem tirar a Yedinha? É a guerra do pufe contra o caviar: aqui reclamam que ela comprou um pufe de R$ 105, era isto?, e lá, que Lula comprou uma latinha de caviar de R$ 1,00 e atirou-se ao Rio São Francisco. Hoje, ao recuperar-me de uma condição que me deixou fora de combate, dei-me conta de que um político que ganha, ano após ano, legislatura após legislatura, R$ 27.000 por mês só pode ser ladrão! Cara, a renda per capita do país é de R$ 1.500 e o salário mínimo é de R$ 500, não é isto? Como é que pode um vivente daqueles ganhar tanto? Só pode ser porque se encastelou numa estrutura de poder absolutamente elitista, uma casta de funcionários públicos milionários (como o afamado ascensorista da Petrobrás/Av. Rio Branco).

O assunto sério remete-me ao Curso de Mestrado em Organizações e Mercados da UFPel. Para quem quer desasnar-se. Aprovado que foi pela CAPES, ele abre suas inscrições para novos candidatos ao Prêmio Nobel:

http://www.ufpel.edu.br/ppgom/index.php,
DdAB

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Desviando do mundo do dodô do documentário

Querido Blog:
Hoje tenho uma postagem provocativa, no sentido vulgar da palavra. Sigo com o livro Marca-d'Agua na alça da mira, que nem sei bem dizer o que é isto de alça da mira. A cultura tem limites. E o dodô? Disse-me Antonio Callado (ou foi outro antônio?) que o dodô foi liquidado por ratazanas evanescentes dos navios portugueses aportados em Madagascar (ou foi outra ilha, outros marinheiros, outros navios?). Mais detalhes podem ser encontrados na Wikipedia de Portugal, ambiente do qual recolhi a figura acima. E a abaixo veio do Google Images, em que vemos um padrão que se repete, ainda que o dodô propriamente dito tenha sido extinto...
E que terá isto a ver com Joseph Brodsky? Tem, no sentido de que ele, na p.12, faz-se traduzir como:

No fundo do selvagem Adriático...

um verso de um poema de Umberto Saba. Não gosto de cacofonias, colisões, silabadas. Mas inspirei-me a escrever a frase do título da postagem de hoje. Num concurso oficial, ela não iria mal, ainda que este "dodô" seja golpe baixo, mas mundo do dado do dodecaedro, essas coisas também são mal ajambradas... E tem mais, por exemplo, no finzinho da p.41, em que o tradutor meteu um "gigantesca cama". "A inhaca cacareja" seria minha retaliação...

Seja como for, o que quero dizer é que há muita coisa que não explorei ontem no livro sobre Veneza, inclusive uma que outra intuição que tenho sobre como seria a expressão original em inglês para alguma que outra coisinha. Por exemplo, na p.28, "[...] sou escritor; por ofício, porém, sou um acadêmico, um professor universitário." No caso,fiquei imaginando que este "por ofício" seria "by trade", expressão de que gosto bastante por sei lá que tipo de diabos de razão inconsciente, ou simplemente, porque é um sentido não usual para nós brasileiros que esta palavra recebe. Amanhã falarei mais.
DdAB

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Volumosas Referências Culturais

Querido Blog:
Postagem longa (pode fazer-se acompanhar de fofocas). Acima, vemos Veneza, o sol nasceu para todos (The sun also rises, é um título de Heminguay, Robert Cohen, na Espanha, cai e trata de recompor-se). Canaleto, canaletos, pintores, vielas, becos, passeios, o sol do verão, o frio do inverno, a água. Mare nostrum. Marca dágua. Mar ou lagoa? Laguna, dizque. Chatices.

Canaletto taí em cima, Veneza, pintores, Portinari, agnosticismo. Vejamos. Marca-d'água, Joseph Brodsky, CosacNaify, 2006. Tradução (excelente, que receberá comentários abaixo) de Júlio Castañon Guimarães, meu parente, pois meu nome também pode ser grafado com três acentos: Duílio de Ávila Bêrni). Talvez por isto é que entraram um travessão, um apóstrofo e um acento agudo na expressão original Watermark do título em inglês.

1987 pegou-me -22 anos atrás, portanto- um tanto distraído em outubro, o mês de minha preferência para viver o ano inteiro. Ainda assim, lembro da crise financeira japonesa em que sumiram US$ 5 trilhões de dólares, não repetiu-se a grande depressão e o mundo kept going round. Teve Prêmio Nobel de Economia, que me passou. E de literatura, Joseph Brodsky. Apenas ontem é que vim a registrar, de modo perene, que ele -Brodsky- laureou-se com esta honraria. E por que logo ontem? Pois foi o dia em que acabei de ler Marca-d'água e -depois de fazê-lo- li as duas 'orelhas'. Vi que já morreu, vi que era russo, vi que era dissidente do PCUS, vi que foi preso, vi que foi expulso da URSS, vi que fez carreira artística e acadêmica nos EUA. Como cheguei a Brodsky -e não Brodowsky-? Marinês Grando disse-me que Luiz Roberto Targa lhe disse que quem quere que seja que tenha ido, esteja ou deseje ver Veneza deve ler este livro. Li-o e fui-me afeiçoando gradativamente. No começo, não estava entendendo bemos contornos integrais e diferenciais da obra.

A postagem é longa. A primeira sentença do livro (p.9) é: "Muitas luas atrás, o dólar valia oitocentas e setenta liras e eu tinha trinta e dois anos." Primeiro, insurgi-me contra o autor ou o tradutor, que não terão assimilado os conhecimentos transmitidos no livro "Técnicas de Pesquisa em Economia; transformando curiosidade em conhecimento", (São Paulo: Saraiva, 2002, organizado por mim; lá diz 'autoria'), que recomendaria dizermos "Muitas luas atrás, o dólar valia 870 liras e eu tinha 32 anos." Seja como for, lembrei-me imediatamente do início de um conto de meu irmão Paulo Guedes: "Eram 7h00 da manhã e ela era feia", algo assim, que a memória cede espaço à vivacidade no olhar... Eu já sabia (a Econ. Grando me dissera tratar-se de um livro declarando amor a Veneza, amor conquistado por Joseph ainda na URSS, quando -disse ela- ele recebeu um cartão postal de seu irmão, em viagens ocidentais, o.s.l.t.. Mas o primeiro parágrafo acusa apenas que ele chegou "na cidade", sem declarar qual. Podia ser "Leningrado", assim grafada num romance de Josué Guimarães, o que teria antecedido até, creio, o nascimento de Vladimir Ilianov, pois a ambientação deste gaúcho buscava reconstituir eventos do século XIX, o Major Scherer, se me não falham as reminiscências São Petersburgo, cidade em que Joseph Brodsky nasceu, segundo a segunda orelha. Postagens longas são casca grossa. A primeira vez em que as seis letrinhas de Veneza são escritas ocorre na p.12, se lhe não pulei alguns canais antes...

Na p.10, já entendi que o tradutor sabe inglês e português, duas línguas fundamentais para quem quer ler na primeira e transcrever na segunda, coisa rara no plantel de tradutores brasileiros. Valtensir Dutra é um e Aulyle Rodrigues (Gonçalves?) é outra, para o clube dos destaques negativos. Ele já disse barbaridades que não lembro (parece até que, nuns rascunhos de posse de um menino de rua cuja autenticidade não testei, iria traduzir "O Capital", e entendeu que "a classe trabalhadora explora a classe capitalista"). Ela destruiu um texto maneiro de Edward Nell num livrinho da Editora Zahar sobre metodologia nas ciências sociais. E depois, só de pirraça, traduziu um livro cujo título em inglês é "O Médico" por "O Físico", um falso cognato dos mais elementares.

Seja como for, o bom tradutor de Joseph Brodsky marcou sua primeira bobeira na própria página de abertura, ou na seguinte. Pois vejamos. Na p.10, ele manda ver um rodapé para dizer quem é um Montale, que escreveu um poema. É uma referência cultural que não me atrapalharia a leitura, quem sou eu para pensar que sei os nomes e sobrenomes de todos os poetas vivos, mortos e por-vir? Esse troço de rodapés me cansa, pois já vi horrores. Por exemplo, invoquei-me com a página 16 lá de outro livro, que explica no rodapé o que é comprovinciana. Eu já disse que o melhor amigo do homem é o dicionário. E hoje nem olhei na Wikipedia o que é "montale", pela simples razão de que não acho que tenha a menor importância, para a questão das águas de Veneza, ou das volumosas referências culturais, tema desta longa -avisei, aviso, avisarei- postagem. Qual é o outro livro? Quem escreveu "comprovinciana"? O autor é Machado de Assis, himself, ao passo que o tradutor, epa, não é tradutor, apenas a dupla da "seleção, introdução, atividades e glossário", nomeadaemente, Sergius Gonzaga e João Armando Nicotti.

Qual meu problema com "comprovincianos"? É que acho que eles prejulgaram a ignorância do leitor de "Contos Definitivos", de M. de A., com a quinta edição (de 2004) pela Editora Leitura XXI, de Porto Alegre. Qual meu critério? O critério oficial que não usei, mas usarei num crítica que farei aos "Contos" de Simões Lopes, é ver um dicionário de palavras mais usadas e registrar apenas o que nele não consta. Por exemplo, eu diria que um ignorantão de porte ligeiramente maior do que o meu não se atrapalharia menos com "lisonja", nesta mesma página. Vou parar por aqui com relação ao conto "A Cartomante", pois já sabemos que vai pintar sujeira, na p.22, mas Machadão era volumoso culturalmente: na p.11 falou em odor di femina, prontamente traduzido pelos adaptadores como "cheiro de mulher", contrariando o próprio italiano "profumo di donna". de Victório Gassmann ou o "scent of woman", de Al Pacino...

Sigo com o tradutor de Joseph. Para um neguinho que ensina quem é Maledetto (não era isto?), não custaria ensinar o que é o Borsalino lá dele. Eu vi um filme chamado precisamente de "Borsalino", e pensei que fosse o nome do neguinho. Como o autor vestia uma "capa London Fog branca" e seu (lá dele autor) "Borsalino", pensei que não se tratasse de operação com matrizes ou receita de doce de abóbora (com lasquinhas de castanhas de caju, o que seja). A Wikipedia em português já respondeu, o que -otherwise- eu não iria procurar: devia ser o chapéu do velhinho. Agora chega também de meter a mão com o tradutor. Mas, já que estamos na língua italiana, não vou levá-lo totalmente aliviado, eu que comecei elogiando-o: "tradutore è tradittorre", mas ele é bom!

O livro seduziu-me completamente com a frase que usei como título da postagem de hoje. Ela, completa, está na p.49: "Eu gostava do [Ezra Pound no] original por seu frescor juvenil e seu verso tenso, por sua temática e diversidade estilística, por suas volumosas referências culturais, então fora de meu alcance." Claro que não entendo bem o que Joseph quer dizer com isto: Ezra dá rodapés dizendo o que é e onde se situa o Beaubourg (p.73)? Não creio ser bem esta a idéia. Se a Econ. Marines Gando não tivesse levado-me a ele, em 1977, e eu quisesse mesmo saber se isto é um crepe ou quepe (esta é da Lourdette...), iria para a Wikipedia. Por exemplo, ainda na p.11, tem a palavra "íctus", que eu desconhecia: "o próprio [...] que ocasionou esta civilização." Gostei, fui a meu melhor amigo, o Aurelião eletrônico:
[Do lat. ictus (nom.), 'marcação de compasso'.] S. m. 2 n. 1. V. icto. 2. Med. Choque (12), golpe, acesso, ou ataque súbito.
Não tivesse olhado, continuaria achando que o livro era mesmo sobre o amor de Brodsky por Veneza, sô.

Tomemos outro exemplo, de meu conhecimento. Na p.15, ele fala em "um bando de ciclopes adormecidos". Se eu não conhecesse aquele blim-blim-blim do Polifemo, o Aurelião ou a Wikipedia matariam a questão. Onde foi mesmo que aprendi esses traços ulissescos? Talvez com Kirk Douglas, ou com o próprio Homero, sei lá. Não digo Kirk Douglas, mas Dirk Bogarde está no livro sendo resenhado (epa, isto não era "Vida Pessoal" etc.?). Claro que era obrigatório que o Joseph citasse o filme de Thomas Mann, ele -autor- que avisou que queria morrer em Veneza e que -não o conseguindo- fez-se lá enterrar (é o que diz a segunda orelha). Vida, felicidade e morte: são três temas do livro e -como tal- de meus pensamentos. Nesta parte de morte, pensei em que é mesmo que desejo, sob este ponto de vista da disposição de meu cadáver. Claro que doar os órgãos que ainda prestarem, uns dizem que sou um bocudo, logo pode ser que alguém se beneficie de um transplante.

Em outras palavras, estou entrando num assunto pesado pela lateral. Um dos pontos que eu desejava levantar é a questão da religiosidade do garoto soviético que virou Prêmio Nobel. Não gosto de referências religiosas fora do ambiente adequado. Carrego a antinomia de que:

.a. Deus não existe,
.b. o que nos impede de ficar tomando Seu Santo nome em vão.

Seja como for, parece-me casca grossa ficar dizendo "O Todo Poderoso", essas coisas, essas maiúsculas. Joseph o faz. Deixem-no, ainda assim. Seja como for, ao dar-me conta destas repetidas remissões à religião é que me veio à cabeça a rima de Brodsky com Brodowsky. E as aulas de história da arte (e mais que arte) que recebi de Luiz Lopes saltaram-me à memória de primeiro nível, um troço assim. Memória incompleta, por sinal, mas que me levou a dar uma viajada sincera na Wikipedia (as acima foram, digamos, estratégicas).

Liguei o todo poderoso com esse troço de que "eu também tou do lado de Jesus, só que acho que ele se esqueceu de dizer que na Terra a gente tem que arrumar um jeitinho prá viver". Com o comunismo, Stálin, com Minas Gerais, com a cultura, o Aleijadinho, o roubo de quadros de igreja, com o Portinari roubado (algum político, é evidente), mas -antes dele- com a Igreja da Pampulha. Disse Luiz Lopes que lá (era isto?) existem esculturas de Portinari (ou pinturas?) que têm pés enormes, indicando que o negócio (isto é, nega-se o ócio da contemplação estelar) é manter os pés bem aqui na terra: festa, trabalho e pão.

O Google Images não me deu os pés maiúsculos da Pampulha, o maior que achei está abaixo, mas antes dele, vemos o que não sei se é portinaresco, uma espécie de alegoria de Luiz Lopes, pois o santo está pisando num canteiro de terra, grama e flores.

Quer dizer, Brodsky rima com Brodowsky, que rima com Portinari, o homem que colocou os pés dos homens no chão ao tratarem com Deus.

Mas estas considerações estão longe de serem perfunctórias, pois volto à morte, à hora da morte. Sempre pensei em armar o maior banzé na hora de minha morte. Mas há alguns anos, andei mudando de idéia, achando que tudo pode ser feito discretamente. É por isto que achei ter entendido a frase da p.68: "É uma virtude, vim a acreditar há muito tempo, não fazer um drama a partir da vida emocional." Não sei se entendo, se bem entendo há dois desdobramentos:
.a. não devemos levar-nos excessivamente a sério
.b. devemos relativizar nossos dramas, que eles não são nada, quando comparados com o pior possível.

E nem quero dizer que o pior possível sejam as chamas eternas do inferno. À propos, ele cita uma amiga romana que ele diz que ela diz:

'A única coisa de que discordo em Dante ', costumava observar, 'é o modo como ele descreve o Inferno. Para mim, o Inferno é frio, muito frio. Eu manteria os círculos [lá do inferno dantesco], mas os faria de gelo, com a temperatura caindo a cassa espiral.'

Descontado o probleminha geométrico de que círculos e espirais são blim-blim-blins diferentes. Graças a Deus (epa, santo nome em vão...), a palavra 'blim-blim-blim' safou-me de mais uma, pois não disse o que são, o certo é que círculos são figuras, ao passo que espirais são linhas. A espiral está para a circunferência assim como o plano em que espiral assenta está para o plano em que o círculo assenta, se é que isto não é roubar nas comparações. Por contraste, vida, morte, felicidade, amor e arte fundem-se na seguinte sentença (p.76): "[...] esta cidade não tem condições para ser um museu, já que ela própria é uma obra de arte, a maior obra-prima que nossa espécie produziu." Se bem entendo, andar por Veneza, construções sobre a terra, pontes de suspiros e barcos sobre as águas, é andar por dentro de uma enorme escultura-pintura, uma obra de arte monumental, a mais charmosa de todas as já construídas pela humanidade.

Pois bem, esta postagem é longa e vou conter-me, uma vez que fiz anotações que me permitiriam multiplicar-lhe os toques digitados por, pelo menos 3,1416. E trazer imagens venezianas em número ainda maior, talvez um pi vezes um e, sei lá. Mas desejo concluí-la fechando o motto campineiro:
.a. viver como se fosse morrer amanhã
.b. estudar como se não fosse morrer nunca.
Lembro que há alguns anos, eu indagava a intelectuais que se queixavam de falta de que fazer durante o horário do expediente: "já leste todos os livros do mundo"? Era elaboração na linha do que postei sobre Erber e a impossibilidade, com nossos 10 mil anos de história, de lermos tudo o que está armazenado na Biblioteca Pública.

Ora, estudar não é apenas abdicar da ignorância, pois é a forma eficaz de enveredarmos pelos caminhos das chavelhas, das chaves e dos chavões (como este...) do entendimento do mundo e, como tal, principalmente de nós mesmos. No outro dia, falei em alguns conjuntos simples e poderosos, como
.a. modelo de equilíbrio geral walrasiano com contratos perfeitos
.b. modelo de contratos imperfeitos e suas implicações sobre as relações econômicas
.c. modelo de Marx da concorrência capitalista (o blim-blim-blim que o leva a pensar na queda da taxa de lucro, com a primeira decomposição de uma equação de definição feita por um indivíduo humano).

Mas no outro dia, sugeri a uma pessoa que gosta de Nietzche e de história da vida privada que procure enlaçar suas reflexões por meio do estudo lateral da teoria dos jogos. As interações humanas podem ser modeladas, da mesma forma que as interações entre dois -digamos- pássaros ou duas colônias de bactérias. Não que a teoria dos jogos a tudo salve, mas ela é uma forma encantadora de tomar velhas drágeas da sabedoria humana de formalizá-las, o que permite que usemos as regras da lógica para gerar mais proposições, a partir de certas premissas devidamente domesticadas.

Por fim, no outro dia, vi a postagem das 22h36min do blog de Marcelo de Oliveira Passos, do dia 12/out/2009, com uma referência maravilhosa a minhas coisas deste Planeta 23. Cito suas volumosas referências culturais, listando o que apresentou como sendo "[...] a regra da educação kantiana: primeiro a disciplina, depois a educação, a cultura e, por fim, o refinamento." A verdade é que já fui mais tosco e, mais que nunca, hoje entendo que devo estudar como se não fosse morrer nunca.
DdAB

domingo, 18 de outubro de 2009

Maconha e a Aviação Militar

Querido Blog:
Todos sabemos que o jornal Zero Hora, em sua edição dominical, chega aos lares gaúchos (como lá eles diriam) ainda durante a tarde do sábado. Mas eu deixo para lê-lo no domingo, sem abalar minha sonolenta rotina. Ou rotina que dá sono, ou rotina que tira o sono, sei lá.

Há pouco, considerando que estamos nas 9h22min do novo horário de verão, acabei de lê-la. E ficou-me apenas um ponto nesta breve postagem dominical: esta foto -entendi, via Google Images- é de uma plantação de maconha, em vista aérea. E, por contraste, no Rio de Janeiro, um helicóptero do governo foi botado abaixo (como era mesmo o nome d' "O Bota Abaixo"?, lá deles?) por tropas de guarda dos traficantes de drogas.

Quando, digamos que em 1961, chamei meu pai de maconheiro (epa, esta postagem dominical -"domingo pede cachimbo"- está descambando para a "Vida Pessoal"), ele disse algo como "a droga ainda vai destruir o Brasil". Quando apresentei uma lista de exercícios de "teoria elementar do preço" a meus alunos de Introdução à Economia, muitos anos depois (digamos que em 1993, ou até antes), inseri um problema (o centésimo da listinha, que pode ser vista com o clic na mãozinha acima) com parâmetros "calibrados", mostrando que, se a maconha recebesse o mesmo imposto indireto que incide sobre o tabaco, sua quantidade de equilíbrio iria cair. Um aluno chamou-me de maconheiro, e eu apenas comentei que, neste caso, a droga já destruíra o Brasil.

Postagem "Economia Política": não é concebível que as autoridades governamentais gastem helicópteros, incitando uma corrida armamentista urbana com os traficantes de drogas. Dados meus parâmetros, bastar-lhes-ia jogar um imposto de 73% sobre a "mardita", como digo na lista, para reduzir a quantidade consumida.

Postagem "Vida Pessoal": vou explicar melhor as razões que me levaram a chamar meu pai de maconheiro. Mal chegados de Jaguari, a cidade de Porto Alegre me fascinava. Mais que ela, creio que meu finado primo Arlei Acácio Ávila fascinava-me denodadamente. Ele associou-me ao Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e levava-me ao Estádio Olímpico a ver os jogos. Naquele mesmo verão da chegada, fez-se um torneio envolvendo -se bem lembro- a dupla Gre-Nal e dois clubes catarinenses, um deles chamando-se Metropol (talvez também os paranaenses). Pois o Grêmio ganhou o torneio, não sem certos tropeços. Num vacilo de um juíz em momento de perigo, ouvi alguém classificando-o como maconheiro. Ao divergir de meu pai em um desses assuntos banais que cercavam a vida familiar de antanho, não hesitei em aplicar-lhe a recém descoberta interjeição porto-alegrense. Fui pedagogicamente reprimido: a droga não destruiu minha relação com ele, nem o resto da família.
DdAB

p.s.: espécie de postagem extra
não contente com aquela listinha de 100 problemas sobre a teoria elementar da formação do preço em um mercado convencional, no outro dia expliquei a um menino de rua a diferença entre custo médio e custo total de uma forma -para mim- inédita e -para mim- interessante.

de modo análogo à análise custo-benefício, muita gente sugere que o projeto é viável quando o custo/benefício é alto. Na common parlance, isto não é grotesco, ainda que a obviedade acompanha a idéia de que só queremos projetos cujo benefício (b) supere o custo (c), ou seja c/p<1. agora, se mandamos produzir 100 adesivos de vidro de automóvel da campanha "Odeio Lixo Seco" e pagamos R$ 100, temos uma situação. Se mandamos fazer 1.000.000 de adesivos e pagamos R$ 101, estamos pagando mais, não é mesmo? Claro que 100/100 dá um custo médio maior do que 101/1.000.000.

Quando o custo médio cai, em resposta ao aumento do tamanho da fábrica (ou seja, maior estoque de capital), passamos do curso ao longo prazo (mas imediatamente, caímos, na fábrica de tamanho maior, a nova condição de curto prazo, que o "tempo" cronológico sobre o qual se desenvolve a atividade econômica). Neste caso -presença de economias de escala-, nosso interesse desloca-se da quantidade produzida (que, naturalmente, vai aumentar), e centra-se no tamanho da fábrica (que cresceu).

Mas, no caso do curto prazo, existe outro fator importante que faz o custo médio cair quando a quantidade produzida aumenta. Ocorre que, na contabilização dos custos da empresa, diferenciamos o gasto em mão-de-obra de outros gastos que chamamos de fixos, como o gasto em, digamos, manutenção do portão de entrada, um troço destes que absolutamente não depende do nível de produção. Então, se começarmos a ratear o valor da manutenção por cada (diria Zero Hora, com suas tradicionais cacofonias) unidade produzida, teremos claramente o custo fixo cainda ao lado da elevação de seu denominador, não é isto?

Ok, fim da diferença entre custo médio e custo total. Falta agora, antes de começar a beber gin -que a vida vem em ondas, como o mar-, deixar claro que a frase da "por cada" pode ser emendada, num bom jornal, para: "o valor da manutenção de cada unidade produzida", ou "o valor da manutenção correspondente a cada unidade produzida", e por aí vai. E eu também vou.

sábado, 17 de outubro de 2009

Um Rio que Passou em Minha Vida

Querido Blog:
Um lindo site, nomeadamente, neuronioscorderosa, ofereceu-me esta linda imagem para ilustrar a postagem de hoje. Que ter-me-á "ferido como uma flecha" nesta figura cujo copyright pertence a Tenneson 2002? Mãe e filha, passado e futuro? Acabo de citar uma frase que tendo a fazer de meu motto para os próximos 100 ou 200 anos, se tanto ele -mote- aguentar:
.a. viver como se fosse morrer amanhã
.b. estudar como se não fosse morrer nunca.

O passado, o presente e o futuro são apenas três formas evanescentes, contingentes, de outras dimensões (também evanescentes) que temos designado por matéria, energia e espaço. A vida vem em ondas, como o mar, ninguém poderá banhar-se no mesmo rio mais de uma vez. Tudo passa na vida, tudo passa, inclusive a grafia das palavras. Aí começam os problemas, meu chapa.

Foram dois os rios que por mim passaram. Banhando-me neles mais de uma vez, foi-me possível desenvolver minha individuação, que me trouxe à condição que hoje porto. Em ambos os rios, por sinal, havia portos (diria Lourdette, sumida da p.3 de ZH, que hoje nem tem "responsável"; voltará ela com o horário de verão amanhã?).

Em ambos esses portos, o nome está mal ajambrado: um rio virou mar, ou baía. Podia ter sido golfo ou saco. Nada do fluir de um rio de água doce, nada parecido com a mansidão de um lagueto. Qualquer que tenha a percepção do acidente geográfico, a história reteve a percepção dos descobridores (invasores, como já foi assinalado em ambiente de reconstrução radical). Era o Rio de Janeiro. Ou era o São Sebastião do Rio de Janeiro? Ou a Avó do Badanha de São Sebastião do Rio de Janeiro? Meu interesse, carioca que nem sou nem deixo de ser, é apenas perfunctório no verdadeiro nome da cidade que consta de minha certidão de nascimento, ainda que eu me considere mais grosso do que muito gaúcho finório. O sucesso dos responsáveis pelo batismo foi inegável: mesmo sendo declarado portador de água salgada, de ser saco, baía, golfo, o que seja, ele não perdeu a condição de "Rio de Janeiro".

Não é difícil aceitarmos -por inócua e irrelevante para fins de comunicação humana- a proposição de que a Baía de Guanabara sempre foi baía, e que o Rio Guahyba -o segundo lindeiro a meus portos privados- sempre terá sigo lago, laguna, lagoa, sei lá [e o Aurelião diz que um guaíba é um pântano profundo]. O erro dos geógrafos e políticos (ergo, ladrões) da geração presente é mudar-lhe, no caso do Guaíba, o nome para lago. O pior é que eu mesmo -ao escrever 'guahyba'- preciso pensar bastante, pois fui treinado -cãozinho doméstico- a latir (diria Lourdette) 'guaíba'. O traço cultural que o identificou como rio é thrown to the dogs, se me não faço rude nem lourdettiano. Ora, o Lago Guaíba, a Baía de Janeiro e o Estuário do Paraná (sei lá, já postei algo antes), ou seja, o Rio Guaíba, o Rio de Janeiro e o Rio da Prata são o que são: uma rosa é uma rosa, não importa como queiram chamá-la. Há rosas brancas e vermelhas -ainda assim, sempre rosas-. Há rosas cor-de-rosa, da cor de neurônios, não importa o que se delas diga: são rosas. Eles -os meus dois portos- são o que deles quero e não o que os geógrafos (rios, lagos, montanhas) ou gramáticos (guaíbas e guahybas) requerem.

Nada do que eu disse até agora autoriza-me a denunciar nova e odiosa simetria entre hipócritas:
.a. o PSDB nacional (Mister Aníbal) achando que o Presidente Lula não pode comer caviar nas margens do Rio São Francisco, em sua visitinha incognito,
.b. o PT (Mrs. Stella) local achando que a Governadora Yeda não pode descansar os pés num pufe de R$ 105.
Mais refinada é a campanha de moralização que lancei, cujo início -diferentemente do horário de verão que deve iniciar amanhã- está previsto para daqui a 100 ou 200 anos: anistia a todos os ladrões de colarinho branco da atual geração e seriedade por meio do cumprimento da lei do orçamento para seus sucessores.
DdAB

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Impostos Distorcivos e Contorcivos

Querido Blog:
Disque o primeiro Ford Modelo T foi lançado no dia first de outubro de 1908, precisos quatro meses após o nascimento de meu daddy. Também disque (creio que li numa crônica de Sérgio Faraco, escrita em Zero Hora) o primeiro morto num acidente de automóvel foi um guri, em Detroid, que sobrevivera ao naufrágio do Titanic, aquele navio do Leonardo di Caprio e Kate Winslet o.s.l.t.. Não sei se o indigitado carro foi o T ou outro. A produção de guris continuou, pelo menos até os dias que correm, ao passo que a de Modelos T foi desativada, anos após.

Por outro lado, tenho lido neste exemplar jornal (tá sabendo onde quero chegar, né?) três temas da agenda -digamos- tributária nacional que me deixam de orelha em pé:
.a. criação de imposto especial sobre depósitos avultados nas cadernetas de poupança
.b. devolução do imposto de renda para a maviosa classe média brasileira (por exemplo, juízes de direito, ascensoristas dos elevadores do Edifício da Av. Rio Branco, no Rio de Janeiro, professores do IUPERJ, e por aí vai)
.c. redução do IPVA para 2010.

Como sabe meu eventual leitor, não sou radical, o que me permite dizer apenas que tudo isto é uma grosseria inominável que só poderia ser corrigida com pau, pau e pau! O Brasil precisa de leis, a primeira dela sendo a lei do orçamento. E de cadeias, para dar tratamento decente e humanitário a todos os seus (e também meus, por que não?) políticos. A receita pública não pode ser amealhada (com meias furadas, que o dinheiro sempre tem uma fração roubada, por escoamento) com base em impostos distorcivos ou contorcivos.

Ok, defino imposto contorcivo: é aquele que os asseclas dos governantes querem encaçapar na gente, pois sabem que seu poder depende:
.a. da arrecadação de impostos e multas que eles mesmos aplicam
.b. do montante de recursos que sua repartição controla.
Tive um aluno (ou não era meu aluno?) que queria estudar o modelo de insumo-produto para saber quais os "setores vulneráveis", ou seja, os setores que ainda estavam invulneráveis às investidas do fisco, ou seja, que o governo estava cobrando menos impostos do que poderia. Eu dizia para ele: mas não era o caso de o governo cobrar o mínimo possível aos produtores? Ele dizia: mas tchê professor, nós precisamos sobreviver, entende? Eu dizia: claro que não entendo. Ele dizia: tu tá te fingindo, que eu sei que tu entende! Eu dizia: tchê, eu quero só imposto direto, pois ele incide sobre os bloco B32 e B33, deixando em paz os bloco B11 e B21. Ele dizia: tu tá ficando louco, tchó (era da região Nordeste/Cacias). Eu calei-me.

Mas fiquei pensando que ele poderia beneficiar-se de um criterioso estudo da seguinte planilha. Cujo/dela/planilha modesto título é: Salvação da Humanidade. Trata-se de uma série de matrizes de contabilidade social e de insumo-produto. Nela, os blocos B11, B13, B21, B32 e B33 estão estilizados, na versão compacta e há outras MaCS com, também, o Bloco B13. Nas linhas, registramos vendas e nas colunas fazemos o registro das compras.

Por exemplo, na interseção entre a linha 4 e a coluna 6 do Bloco B11, temos as vendas do setor 4, digamos, ferro gusa, ao setor 6, digamos, automóveis. O Bloco B11, deste modo, retrata as relações intersetoriais. O Bloco B21 mostra as vendas dos (serviços dos fatores) aos produtores, o Bloco B31 mostra as "vendas" das instituições (no caso, importações às firmas estrangeiras e impostos ao governo) aos produtores. Os Blocos B12 e B22 são deixados em branco. O Bloco B13 mostra as vendas dos produtores às instituições, o Bloco B23 é deixado em branco e o Bloco B33 mostra as relações interinstituconais, ou seja, por exemplo, o imposto de renda que minha avó paga ao governo. Por seu turno, o alambique de meu tio, que paga ICMS pela cachaça que manipula, vê esta transação registrada no Bloco B31.

E imposto distorcivo? Vejamos o Senhor Aurelião Eletrônico Ferreira: distorcer é mudar o sentido, a intenção, a substância de; desvirtuar; torcer. E ainda mudar a direção, ou a posição normal. Em outras palavras, para falarmos em imposto distorcivo, precisamos entender o que seria um imposto não-distorcivo. Ou -pior ainda- o que seria um blim-blim-blim que não distorcesse nada no sistema econômico.

Num sentido menos dicionaresco, podemos definir -com proveito- que os impostos distorcivos distorcem apenas a alocação dos fatores e, como tal, a produção. Não parece haver maior proveito em pensarmos que o imposto distorcivo distorce inclusive a duração das fases da lua ou os teoremas de geometria plana. Neste caso, deixemos de considerar que os pagamentos das instituições (e.g., famílias) ao governo (Bloco B33) distorcem o que quer que seja. Também não parece especialmente útil pensarmos que variáveis que não constam da MaCS distorcem coisas de dentro da MaCS. Tal é -ou não é?- o caso da oferta monetária, do estoque de capital, do aparato institucional, sei lá que mais. (Nâo precisamos esquecer que o estoque de capital origina-se da acumulação dos investimentos registrados no Bloco B13, mas não tem pobrema com isto. Nem com o fato de que a oferta monetária liga-se com a renda por meio da equação quantitativa MV = PY.

Explorando os sentidos vulgares do substantivo "distorcer" (ou este troço era um verbo?), podemos dizer que tudo o que está dentro da MaCS é endógeno. Como tal, consideremos o caso de um automóvel que gastava, em sua produção, 1kg de ferro gusa e passa a gastar meio quilo. É óbvio que todas as demais variáveis do sistema serão afetadas na transição entre duas posições de equilíbrio do sistema. [Um menino de avenida (da Av. Ipiranga, ponte) não entende o que é equilíbrio ex ante, o que o impede de perceber que estou falando de duas posições ex post, ainda que possa usar o modelo de Leontief para esboçar a transição entre uma e outra, numa modelagem ex ante.]

A economia deste meio quilo de ferro deve ser saudada com júbilo, pois evidentemente representa um ganho de produtividade do sistema. Se nada mais mudar, ela vai representar uma queda no valor de todas as mercadorias geradas no sistema, ou ainda, uma queda no valor gerado! Tu entendeu? Uma queda no valor adicionado! Como sabemos, valores e preços convivem numa relação estável entre tapas e beijos. O mesmo ocorre com preços e produtividade. Mas podemos registrar o funcionamento de uma lei geral do funcionamento das economias monetárias: os valores se transformam em preços. E os preços caem quando a produtividade se eleva. Id est, a produtividade é inimiga do valor, um troço mais ou menos assim.

É craro que esta estilização que acabo de fazer, no sentido de economizarmos ferro para matar meninos por meio de atropelamentos automobilísticos, resultou numa queda no valor adicionado. Mas não esqueçamos que a geração do valor adicionado poderia levar a que um dos fatores associados à distribuição funcional (trabalho ou capital) capturasse a diferença de valor de meio quilo de ferro e a embolsasse (amealhasse?). Ou seja, a queda na coluna do automóvel na MaCS (o meio quilo de ferro) seria compensada por uma elevação na própria coluna, com o valor monetário de meio quilo de ferro cabendo -adicionalmente- ao valor monetário auferido por trabalhadores, capitalistas (que estamos no Bloco B21) ou governo (impostos indiretos, que estamos no Bloco B31).

Concluo, olimpicamente, acompanhando Stanislaw Ponte Preta, quando este escreveu a crônica intitulada "Vamos acabar com esta folga", em que recomendava aos brasileiros mais compostura. Eu penso que ele queria dizer mesmo era que os governantes deveriam parar de afanar os $$ públicos, ligar-se ao orçamento universal, parar de cobrar impostos distorcivos (isto é, sobre os produtores) e cobrar impostos apenas das instituições famílias, ou seja, imposto de renda, do patrimônio e da herança. Como não sou fumante, acho que ele também poderia cobrar impostos indiretos (bloco B31) dos produtores de bens de demérito, why not?

Concluo realisticamente, apenas a ladroagem oficial é que gasta o tempo que o "contribuinte" paga, realizando lucubrações sobre como elevar a receita pública sem mexer no imposto de renda. Ou, ainda mais desavergonhadamente, mexem no imposto de renda de um jeito hipócrita: atrasando as devoluções do imposto indevidamente retido na fonte. Se fôssemos panglossianos, diríamos que isto é uma alíquota adicional. Se formos do clube do Monteiro Lobato e da Carolina de Michaelis, diríamos que precisamos baixar pau, pau e pau nessa corja, exigindo uma política tributária decente, que esqueçam a caderneta de poupança e que aumentem o IPVA e não o reduzam, para evitar o atropelamento de meninos nas ruas de Chicago (ou era Detroid?).
DdAB

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Uma Ata sobre Segurança Pública

Querido Blog:
Aparentemente o que vou escrever abaixo andou de carro de boi, pois ocorreu há eras estratosféricas. Entre as 15h25min e 18h10min do dia 18 de maio, realizou-se uma "conferência livre" buscando sugestões para a Primeira Conferência Nacional de Segurança Pública. Eu fui lá, pensando que representava a seccional Menino Deus do Conselho de Justiça e Segurança, um híbrido comunidade-estado do governo municipa, um troço assim. Fiz um relato que abaixo transcrevo. Solicitei a quem de direito que o transmitisse a meus "pares" do tal ConJus e quem sabe lá que direito arrogou-se de não encaminhar nada, sob a alegação de que o número 2 não permite que se extraia dele a raiz quadrada por meio dos números naturais, um troço destes. A partir de agora, tudo o que será lido vem da tal "ata" que enviei e ninguém leu, pelo menos foi o que me disse um menino de rua analfabeto, até o "DdAB" usual. Depois dele -o DdAB- farei um post scriptum, desenxabido, mas bem sincerinho. Lá vai:

1. Generalidades
Na última reunião do COMJUS-Menino Deus, recebemos o convite de participarmos da Conferência Livre Preparatória a 1a. CONSEG, num evento que ocorreu hoje à tarde na Sala Maurício Cardoso da Assembléia Legislativa, aproximadamente das 15h25 às 18h10min. Esta conferência esteve focada no Eixo 4 do CONSEG, nomeadamente, Repressão Qualificada da Criminalidade. A conferência propriamente teve por título "Estatuto do Desarmamento e Políticas de Controle de Armas", sendo organizada pela OSCIP Guayí - Democracia, Participação e Solidariedade como elo de ligação local com a Caravana Comunidade Segura. Foram distribuídos dois materiais impressos: um relatório da Guayí e a Cartilha da Caravana Comunidade Segura, Campanha de 2009/Desarmamento. Coordenou a reunião a Sra. Helena Bonumá.

As atividades dividiram-se em duas partes:
.a. Mesa Redonda (presença das instituições listadas no convite, a saber, SSP/RS, Polícia Federal, COMJUS/POA, IFCH/UFRGS, Guarda Municipal, Guayí e Caravana Comunidade Segura, com, respectivamente, os seguintes representantes: Coronel Marco Antonio, Delegado Cristiano, Sr. João Hélvio, Profa. Virgínia, Sra. Maria Aparecida, Coronel Brenner e Sra. Heder (Heather?).
.b. Debate Plenário (participação de quatro membros da audiência e respostas por alguns dos painelistas)

2. Destaques
(não se trata de ata, mas de tópicos que me interessaram e comentários que fiz a alguns rasgos da reunião)
.a. O coronel Marcos associou o aumento do mau uso das armas com o consumo de bebida (alcoólica). Falou que deve-se regular e controlar a oferta e a demanda. Também destacou que o RGS, por ser região de fronteira, vem-se tornando rota do tráfico de armas.
.b. O Delegado Cristiano sugeriu que consultemos o site www.dpf.gov.br. Falou da entrega das armas da campanha, ele mesmo dizendo haver burocracias elevadas no processo. de minha parte, fiquei pensando no caso que, para ele, parece normal que a PF exija de quem recolhe uma arma uma declaração de idoneidade da arma, desconsiderando que o próprio ato de comparecimento já dá uma lição de idoneidade do portador. não entendo bem que diabos quer dizer esta declaração: um "x" num formulariozinho? uma declaração assinada por cinco testemunhas e firma reconhecida? acho que este tipo de medida serve para dificultar a entrega de armas de procedência duvidosa, ou seja, ponto contra o desarmamento... disse ele que o povo deixou a entrega para última hora, no dia 31/dez/2008, o que formou filas e até hoje há material não processado, por causa daquele acúmulo de última hora. de minha parte, fiquei pensando que eles foram é incapazes de prever a demanda pelo serviço e, mais ainda, se não conseguiram colocar o serviço em dia, não estavam preparados mesmo para ajudar a desarmar o que quer que fosse. disse que o prazo foi prorrogado até 31/dez/2009. fiquei pensando que um programa destes deve ser periódico, ou seja, se fechar agora deve reabrir, digamos daqui a dois anos e sempre ter -de tempos em tempos- divulgação da campanha recebendo armas. mais ainda, penso que as recompensas (de R$ 100 a R$ 300) deveriam ser substancialmente elevadas (por que não R$ 1.000 ou R$ 3.000?). parece-me evidente que é necessário usar o mecanismo de mercado onde ele possa ser útil para o alcance de determinados objetivos sociais. e também fiquei pensando em indagar (mas tive medo...) sobre qual o controle que fazem das alfândegas e estradas, a fim de evitar o contrabando. [eu sou favorável ao fechamento das alfândegas, mas contra o comércio ilegal de armas. nada tenho contra o comércio legal].
.c. João Hélvio nominou conselheiros de alguns bairros da cidade, sugerindo que o enfoque correto para a questão não é propriamente o delineamento de uma política de segurança, mas de justiça comunitária. pensei: hoje sabemos que o mercado falha (não fornece bens públicos, como a segurança pública, se não houver produção ou provisão pelo governo ou comunidade, não haverá segurança pública), que o estado falha (grupos de interesse, corrupção) e que a comunidade falha (linchamentos, ostracismo). mais ainda: pensei que é importante sabermos diferenciar o que é segurança pública da segurança privada. no caso, nesta linha de raciocínio, a segurança pública é um bem público, no sentido técnico do termo, querendo dizer que o mercado não consegue isolar pagantes: se houver segurança para um, haverá para todos. logo, num local em que não há segurança para todos, claro que pode haver segurança privada, o que nada tem a ver com os temas (jamais esquecerei que uns rapazes paulistas que tentaram assaltar o filho do proprietário dos Supermercados Pão-de-Açúcar foram fuzilados por seus guardas de segurança privada). já que estamos no assunto: justiça e liberdade têm similaridades: não há justiça para mim se há injustiça para ti, nem tens o direito de ter-me como escravo, pois tenho o direito à liberdade. voltando a nosso vizinho João, ele disse que o que queremos é montar o sistema de segurança pública, de sorte que a política do setor seja de estado e não apenas de governo.
.d. a profa. Virginia convidou a todos a participarem da Conferência Livre que a UFRGS vai promover no dia 18 (e não ouvi bem se é de junho ou de julho). disse que seu núcleo de estudos está convidando outros professores, por exemplo, de informática (sistemas de informação sobre violência, posse de armas, roubo de veículos, etc), medicina legal, engenheiros de tráfego, a fim de contribuírem para o equacionamento do problema da segurança pública no Brasl.
.e. a Sra. Heder recomendou a consulta ao site www.comunidadesegura.org (não tem ".br"), a fim de recolhermos o "manual de boas práticas em todo o país" sobre como lidar com a segurança pública e que também há o que chamou de "indicadores de boas políticas", voltados a medir se o estado está desempenhando adequadamente seu papel. disse que não é tão relevante criarem leis, se estas não forem implementadas. eu pensei que a sociedade deverá conscientizar-se, no devido tempo, que a forma de fazer com que as leis sejam cumpridas é forçarmos as representações parlamentares a inserirem itens viabilizando as promessas legais em outra lei, desta vez a lei do orçamento público, que não é levada a sério por ninguém, nem eles, deputados e vereadores, nem pelos detentores de posições no poder executivo. a Sra. Heder citou alguns dados sobre os custos em que a sociedade incide por não ter maior controle sobre armas de fogo. disse ela que, em São Paulo, o mercado de armas ilegais elevou o preço de R$ 800 para R$ 1.300. eu pensei que isto se deveu precisamente à lei e, pior que isto, à incapacidade dos governantes envolvidos com o problema da segurança em usar o mecanismo de mercado, lembrando que na hora pensei que, se o mercado negro está pagando R$ 1.300 por uma arma ilegal, que tal se o governo oferecesse R$ 2.000? Tenho razões para jurar que haveria um dreno de armas ilegais que a Polícia Federal ficaria ainda mais embasbacada com o tamanho das filas. nem corrupção haveria, pois quem quisesse empalmar os R$ 2.000 deveria preencher uma ficha cadastral com seus dados pessoais (sem precisar dar lá tanta explicação sobre a idoneidade moral da própria arma...). disse ela que 95 pessoas morrem por dia vitimadas por armas de fogo, especialmente jovens. São R$ 93 milhões em cinco anos. eu pensei que, em um ano, este dinheiro paga 3.200 funcionários com um salário de R$ 500, talvez mais eficaz do que as medidas em que este dinheiro foi aplicado. também chamou a atenção para as empresas de segurança privada, que têm itens de regulamentação na lei do desarmamento. e listou o que cada um pode fazer. anotei apenas o que segue: conhecer o estatudo e difundi-lo, olhar o site www.deolhonoestatuto.org.br, ler as cartilhas, ficar de olho, estimular postos alternativos.
.f. o coronel Brenner também diferenciou a segurança pública da segurança privada, sugerindo que se deve apostar na política nacional de segurança e aprofundar a restrição e controle de armas, também requerendo que os governantes dêem visibilidade às estatísticas sobre o controle de armas de fogo.
.g. o Sr. Paulo manifestou preocupação com "os menos favorecidos", que devem receber educação e qualificação. o Sr. Pires sugeriu que as empresas de segurança privada, como a STV, Rudder e HSS, devem receber regulamentação, a fim de não forçarem seus trabalhadores a jornadas de 12 horas diárias, o que pode tornar as armas que portam perigosas para a comunidade.
.h. eu mesmo aproveitei e disse que não entendo a ênfase em outros pontos, pois a sociedade parece apontar como seus maiores problemas a segurança e o desemprego e me parece evidente que a criação de empregos na segurança resolverá os dois simultaneamente. ia fazer mais um pouco de propraganda do programa da renda básica universal, mas contive-me...
.i. a palavra voltou aos painelistas. destaco o que disse a Sra. Heber, que é o que já ouvi dizerem sobre os meninos de rua, mutatis mutandis: precisamos brigar pelo direito de não ter armas. no outro caso, a questão não é se o menino tem o direito de ficar na rua (parece-me evidente que não!), mas que ele tem o direito de não ficar na rua (e já o imagino estudando a tabuada, a colocação de pronomes átonos, essas coisas). Também tem a EPAVI, salientando que a Rudder não tem zeladoria e limpeza, ao passo que a STV tem TV e banda larga.
.j. e eu, ao ouvir, no final, o coronel Marcos falar em substitutos para as armas de fogo como "machados e pedras" e, embalado por minha sugestão de emprego de milhões de pessoas no serviço municipal (a mando da Guarda Municipal, que é como hoje vejo este encaminhamento), lembrei-me que achei em Machado de Assis (nada sobre pedras...) uma personagem que foi atendida pelo "inspetor de quarteirão". não sei bem o que era isto nos tempos machadianos (do império). Mas imagino tratar-se de um funcionário público (emprego mata a violência) que exerce funções comunitárias (entre elas a manutenção da ordem).

3. Síntese da Reunião
O coronel Brenner fez um resumo da reunião e encaminhou para aprovação a eleição do princípio de "afirmação estratégica do controle de armas". e como diretrizes a efetivação do estatudo do desarmamento, o compartilhamento de informações, campanhas esclarecedoras, integração dos órgãos policiais e cuidados com os serviços de segurança privada.

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este ambiente sugeriu-me encaminhar para discussão em nossa própria Conferência Livre os seguintes
:::: princípios:
.a. aceitação de que não há futuro para uma sociedade justa e pacífica sem a ocupação de sua população em idade economicamente ativa
.b. a solução do problema da segurança no Brasil não passa pela ação do mercado, mas da aliança estado-comunidade
.c. a participação do estado deverá dar-se pela afirmação dos programas por meio
.c.1.:: da inserção de verbas específicas na lei do orçamento público
.c.2.:: da ação afirmativa por meio das Guardas Municipais
.c.3.:: por meio da unificação das forças de segurança, dissolvendo as fronteiras entre os guardas armados das forças públicas estaduais e guardas municiapais.

e retirar-lhes como decorrências as seguintes

:::::: diretrizes:
.a. criar ou fortalecer as guardas municiapais em todos os municípios do Brasil
.b. criar mecanismos legais e financeiros para a implementação da Brigada Ambiental Municipal, supervisionada pela Guarda Municipal, com incumbência de resgatar os desempregados e detentores de empregos precários, criando emprego decente voltado a:
.b.1.:: ofertar três horas diárias de aulas de empreendedorismo (português, matemática, montagem de planos de negócios etc.)
.b.2.:: requerer três horas diárias de exercícios físicos e expressão corporal e artística
.c.3.:: requerer três horas de trabalho comunitário (cuidar de crianças, cuidar de velhos, limpeza urbana, capina, florestamento das margens das águas internas etc.).
.d. mudar a legislação penal voltada a dar tratamento de combate mais eficaz ao crime organizado (drogas, armas etc.), instituir a prisão perpétua para crimes hediondos e de morte, e ainda punir severamente o indivíduo que levantar armas brancas ou de fogo em direção aos policiais no cumprimento do dever.

para nossa própria conferência sugiro pensarmos nos seguintes encaminhamentos:
.a. local: Assembléia Legislativa, ou Câmara Municipal ou Salão Paroquial do bairro, escola, sala de reuniões de algum condomínio residencial, clube etc. (integração com a comunidade extra-mercado)
.b. expedir convites conforme o modelo da Conferência Livre sobre Desarmamento (que recebemos)
.c. distribuirmos aos participantes um documento que ainda redigiríamos, reunindo nossas "reflexões sobre a promoção da sociedade justa" (quero dizer, propaganda do programa de renda básica substituindo a bolsa família, o serviço municipal (aos cuidados da guarda municipal) como um incentivo material ($$$) adicional ao programa da renda básica universal
.d. fazermos uma mesa redonda, com convidados que fariam intervenções breves, encaminhamdo a discussão plenária
.e. planejarmos uma atividade (e.g., exposição por pessoa não integrada à mesa redonda), para dar início aos trabalhos na hora marcada, lidando positivamente com o eventual atraso de alguns participantes e brindando os participantes de nossa conferência com o início no horário previsto
.f. acho que um intervalo entre a mesa redonda e o debate é importantíssimo, para permitir interações entre diferentes conselheiros (ou seja, nós mesmos)
.g. controle sobre a redação e aprovação dos princípios e diretrizes a serem listados no relatório da atividade da Conferência.
DdAB
p.s.: "nossa conferência" foi realizada. o tema que mais me interessava era ver aprovada a moção em favor da renda básica universal provocou alguma discussão e terminou sendo derrotado numa votação. um neguinho argumentou (convincentemente) que o país precisa de mais 500 anos para amadurecer esta idéia e, se eu desejasse, poderia seguir na campanha até o ano de 2509, que ele -então- votaria comigo. eu sofri com a possibilidade de sobreviver a todos os meus entes queridos, pensei que poderia (sem saber) ser a personagem do livro de Simone de Beauvoir (intitulado "Todos os Homens são Mortais"), enfarar-me de tanta vida que desisti da idéia. ainda assim, levei como lição de tentar nunca mais colocar nenhuma das proposições que faço em votação. ou seja, na linha do conceito de ótimo de Pareto e a regra da unanimidade que dele derivamos, só aceito -a partir de 19 de maio pretérito- decisões consensuais. ou seja, quem não quiser ver minhas idéias levadas adiante poderá vetá-las liminarmente.